Governar não é reagir, é antecipar, o resto é gestão da tragédia

EDITORIAL
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A chuva é um fenómeno da natureza. Sobre ela, o homem tem pouco ou nenhum poder. Mas há algo que está, inequivocamente, ao alcance do Estado e da sociedade: reduzir os seus impactos sobre a vida das pessoas. É precisamente aí que o Governo de Moçambique tem falhado, de forma recorrente, ao longo de décadas.

Quando, ano após ano, ouvimos os mesmos gritos de desespero, contabilizamos os mesmos prejuízos e assistimos às mesmas respostas improvisadas, torna-se inevitável concluir que estamos a entregar a Deus aquilo que é responsabilidade do Homem. Falhamos em delimitar os papéis do Estado, leia-se Governo Central, autarquias e demais instituições públicas, e dos cidadãos. E as consequências não podiam ser menos do que dramáticas.

Basta olhar para a região Sul do país. As cheias de 2000, 2013, 2023 e as actuais seguiram praticamente o mesmo trajecto, afectando as mesmas zonas e provocando danos semelhantes, variando apenas a dimensão da destruição. Ainda assim, as soluções continuam a ser pensadas enquanto as águas já invadem casas e ruas. Planeia-se no meio do desastre, como se cada cheia fosse um fenómeno inesperado. Esta actuação revela mais do que fragilidade institucional, expõe uma incapacidade persistente de governar com visão, antecipação e responsabilidade.

O problema não está na inundação em si. Está no descontrolo do território, na incapacidade de proteger zonas naturais de absorção de água e na tolerância, quando não cumplicidade, com a ocupação desordenada. A experiência já demonstrou, de forma inequívoca, que não se constrói em zonas críticas sem soluções técnicas adequadas. Ignorar essa evidência não é desconhecimento, é negligência que merecia uma responsabilização política, afinal termina em mortes depois de todos aqueles danos.

As lições do passado parecem não produzir qualquer efeito prático. Continuamos a ser tratados como figurantes de uma fotografia ocasional, útil para ilustrar a excelência da improvisação com uma foto comovente com um ângulo cuidadosamente preparado com fim de perdurar até em períodos eleitorais, mas reveladora da ausência de planeamento sério e sustentado. Longe de Gaza onde o cenário é complexo, Maputo e Matola são hoje exemplos claros desse abandono. Construções desordenadas bloqueiam linhas naturais de escoamento na Costa do Sol e em Matibjana, sob o olhar impávido das autoridades. Estradas são abertas sem sistemas de drenagem, mesmo quando os próprios bairros denunciam, há anos, o risco iminente de inundações.

O que falha, no fundo, é simples, é a noção de complementaridade de esforços e de fiscalização mínima. Nem o Estado exerce plenamente o seu papel, nem o cidadão é chamado, ou educado, a cumprir o seu. Recusamo-nos a aprender com o passado. Mesmo quando as previsões meteorológicas são claras e rigorosas, não nos antecipamos. Intervimos tarde e, muitas vezes, mal.

E o desfecho já é conhecido. Duas semanas depois das enxurradas, surgem os surtos de cólera. Como se fosse um destino inevitável. Mas governar não é reagir ao inevitável. Governar é antecipar, prevenir e proteger. Tudo o resto é apenas gestão da tragédia. E para já, sabíamos que ia chover, e também sabemos que a cólera virá

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