INGD insiste que pontes móveis existem, mas não tem nenhuma disponível para estar no terreno

DESTAQUE POLÍTICA
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  • Onde estão as pontes?

 Automobilistas, passageiros e famílias inteiras estão presos há mais de uma semana no troço 3 de Fevereiro–Inkoluane, no sul de Moçambique. Entre lama, água estagnada e falta de alimentos, alguns sobrevivem de restos, outros improvisam abrigos com pedaços de lona ou nos próprios veículos. Crianças choram de fome e idosos lutam para se manter em pé. Sem comida e sem serem prioritários na assistência, sobrevivem graças à boa vontade de algumas iniciativas humanitárias que por vezes se lembram de quem ficou sitiado quando estava em trânsito. Em meio a este sofrimento, surge a pergunta que assombra aos moçambicanos: onde estão as pontes móveis que deveriam salvar vidas e restabelecer a circulação nos troços críticos da EN1? A resposta a esta pergunta é sempre retórica quase sempre, nunca acompanhada de evidências. O INGD insiste que pontes móveis existem, mas não tem nenhuma disponível para estar onde são mais precisas neste momento.

Evidências

Em 16 de dezembro de 2016, o então Presidente Filipe Nyusi inaugurou, de forma apoteótica e em meio a hossanas, em Boane, Maputo, dez pontes metálicas móveis importadas da China, adquiridas por 11,9 milhões de dólares do tesouro público.

“Não viemos fazer mais do que o que o povo nos manda fazer. Moçambique é ciclicamente assolado por calamidades”, disse Nyusi, prometendo que o País estaria finalmente preparado para enfrentar cheias, inundações e cortes de estrada.

Na ocasião, as pontes foram apresentadas como a resposta definitiva para emergências rodoviárias. E não era para menos. Eram plataformas de 21, 45 e 75 metros, transportadas por camiões especializados, com capacidade para suportar até 60 toneladas de carga.

O país inteiro poderia, teoricamente, dormir mais tranquilo sabendo que, mesmo nos períodos de maior desastre, a circulação seria retomada rapidamente. Mas essa promessa evaporou-se diante da primeira grande calamidade no Sul do País, dos últimos 26 anos, que resultou em múltiplos cortes da Estrada Nacional Número Um (EN1), considerada espinha dorsal do País.

Só no troço entre 3 de Fevereiro e Incoluane são, ao todo, seis cortes profundos que impossibilitam neste momento a ligação entre Maputo e as restantes províncias do País. A sua reparação, segundo o ministro dos Transportes e Logística, João Matlombe, vai demandar mais de 15 dias, segundo avaliações preliminares.

O Evidências foi atrás de informações sobre o paradeiro das pontes. Segundo dados obtidos junto ao Instituto Nacional de Gestão de Desastres (INGD), das 10 pontes móveis originais, apenas sete permanecem disponíveis. Duas já não existem: uma foi arrastada pelo rio Montepuez em Janeiro de 2020, e outra sofreu acidente em 2018.

Ao Evidências, o INGD revelou que em Niassa havia uma ponte de 21 metros que foi arrastada pelo rio Luatize nas últimas chuvas. Neste momento o que existe é o camião e o respectivo atrelado que permanecem estacionados na delegação provincial.

Já em Nampula há três pontes de 15 metros, sendo duas em Nacala Porto e uma na Cidade de Nampula. Outras três do tipo batelões flutuantes estão, segundo o INGD, em Caia, enquanto que a outra se encontra em Maputo em reparação.

Em 2020, Governo prometeu outro lote de 26 pontes que nunca chegaram

Isso significa que apenas sete pontes estão operacionalmente disponíveis, todas, excepto uma, no Norte e Centro do País. Nenhuma foi ou está disponível, de facto, para ser deslocada para o Sul, onde a população enfrenta isolamento total, cortes profundos de estrada e crise logítistica sem precedentes.

Esta situação evidencia um drama maior: a infra-estrutura prometida há quase uma década existe no papel, mas não chega onde é mais necessária. Em 2019/2020, sete distritos do norte de Cabo Delgado ficaram isolados devido ao desabamento de pontes, deixando 65 mil pessoas afectadas e 54 mortos. Hoje, a história parece repetir-se no sul, mas com um agravante: as soluções logísticas prometidas pelo Governo, as famosas pontes móveis, não estão disponíveis para proteger a população.

Enquanto o INGD insiste que as pontes existem e estão operacionalmente prontas, o que se vê no terreno é a realidade brutal, com famílias sofrendo e estradas vitais cortadas. A promessa de 2016, de que Moçambique estaria preparado para qualquer calamidade, desmorona à primeira grande enchente, levantando sérias questões sobre planeamento, manutenção e prioridades do Estado.

Refira-se que em 2020, o Governo moçambicano anunciou um investimento de 480 milhões de meticais na aquisição de 26 pontes metálicas móveis, para responder a eventuais cortes de estrada no País durante a época chuvosa. A chegada das pontes estava prevista em questão de semanas, segundo garantias do então ministro das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, João Machatine, que curiosamente neste Governo é coordenador do Gabinete de Reformas e Projectos Estruturantes.

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