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Nilza Dacal
Há Estados que ocupam todo o território com uma presença imponente, desde edifícios públicos ostensivos, viaturas oficiais reluzentes, postos policiais em cada esquina, leis promulgadas com pompa, discursos inflamados, até símbolos de soberania disseminados por toda a parte, mas cuja autoridade real se dilui no quotidiano como castelos de areia. Outros, com aparatos mais modestos e recursos limitados, conseguem fazer respeitar as regras, executar decisões com rigor e inspirar uma confiança genuína nos cidadãos. A diferença decisiva entre uns e outros não reside na visibilidade ostensiva do poder, mas na sua legitimidade profunda, na capacidade de se impor de forma consistente, justa e previsível. É essa legitimidade que transforma o Estado de uma entidade meramente administrativa num pilar de estabilidade social.
A presença do Estado é, de facto, relativamente fácil de encenar e projectar. Basta investir em infra-estruturas administrativas visíveis: construir tribunais, escolas e hospitais; aprovar pacotes legislativos volumosos; lançar planos grandiosos de desenvolvimento; e sustentar uma retórica constante de controlo e vigilância. Contudo, quando essas decisões demoram a sair do papel, quando a lei é aplicada de forma selectiva, beneficiando uns e aplicando rigor a outros, quando uns enfrentam processos mais demorados e os cidadãos comuns sentem que o sistema exige ajustes para maior equidade, essa presença pode transformar-se num teatro institucional algo vazio. O Estado está fisicamente presente, com bandeiras hasteadas e uniformes impecáveis, mas nem sempre governa verdadeiramente: por vezes simula governação, carecendo de maior substância.
A autoridade, pelo contrário, é uma conquista lenta, exigente e onerosa, que requer tempo, consistência e sacrifícios. Não emerge do cargo ocupado, do título pomposo ou da força coerciva bruta, mas da percepção generalizada e vivida de que o Estado é previsível, imparcial e superior aos interesses particulares ou de grupinhos. Um Estado dotado de autoridade é aquele em que o cidadão acredita e mais importante, a experiência no dia-a-dia demonstra-nos que:
- a regra se aplica a todos, independentemente do estatuto social, da riqueza acumulada ou da proximidade ao poder;
- as instituições se adaptam à alternância governativa, mantendo a sua independência e funcionalidade, num processo natural de transição que preserva a continuidade institucional;
- o arbítrio pessoal dos dirigentes cede sempre perante a norma impessoal e as salvaguardas constitucionais.
Quando esta percepção se enfraquece, frequentemente em resultado da influência de elites económicas, clãs familiares ou facções, a autoridade pode entrar em declínio, mesmo que a presença física permaneça intacta ou até se expanda. Surge então o fenómeno mais complexo e desafiador: um Estado formalmente forte e substancialmente em processo de fortalecimento, onde a burocracia prolifera, mas a eficácia por vezes se dissipa.
Este desequilíbrio é particularmente visível em muitos países em desenvolvimento, onde a herança colonial e os desafios do período pós-independência amplificam o problema. Expande-se a administração pública com novas estruturas e agências estatais, multiplicam-se os níveis burocráticos, mas persistem fragilidades crónicas: a aplicação selectiva da lei, com casos de corrupção de alto nível que se arrastam indefinidamente; a interferência política na justiça e na administração, onde nomeações baseadas em lealdades podem corroer a meritocracia; a fraca execução de políticas públicas, como programas de saúde ou educação que permanecem no papel; e a protecção de interesses instalados, através de concessões e contratos públicos opacos. O resultado é uma erosão silenciosa, mas acelerada, da legitimidade do poder público, alimentando descontentamento social, protestos episódicos e, em casos extremos, instabilidade política.
Politicamente, esta distinção entre presença e autoridade é decisiva para o futuro de qualquer país. Estados que por vezes confundem uma com a outra tendem a privilegiar o controlo simbólico: investem em reformas formais, cerimónias grandiosas e propaganda digital, enquanto negligenciam os mecanismos essenciais de execução, fiscalização e responsabilização. Produzem-se leis em abundância, mas sem resultados mensuráveis; anunciam-se políticas ambiciosas, mas sem impactos tangíveis na vida das pessoas; reforça-se o discurso oficial, mas fragiliza-se a confiança colectiva. O efeito acumulado é uma profunda crise de credibilidade, na qual o cidadão comum pode deixar de ver o Estado como protector e passar a percebê-lo como um actor selectivo.
A verdadeira boa governação exige, por isso, uma mudança estrutural de paradigma: menos presença performativa e mais autoridade institucional efectiva. Tal implica medidas concretas e muitas vezes, politicamente impopulares, entre as quais se destacam:
- a implementação de sistemas robustos de controlo interno, auditoria independente e sanções efectivas contra a corrupção;
- o fortalecimento de uma função pública profissional, meritocrática e protegida de pressões políticas, com formação contínua e remunerações dignas;
- a promoção de uma justiça célere e imparcial, com magistrados independentes e meios adequados para investigar e responsabilizar;
- a coragem política para enfrentar interesses instalados, reformar sectores monopolizados e impor transparência na contratação pública;
- o investimento em educação cívica e participação dos cidadãos, de modo a que estes deixem de ser meros espectadores e se tornem co-autores da governação.
Isto pode traduzir-se por exemplo, na priorização de uma descentralização efectiva do poder, com autarquias locais dotadas de autonomia real e capacidade fiscal própria, em vez de funcionarem como meras extensões do poder central. Pode igualmente implicar o reforço de instituições como procuradorias e tribunais administrativos, assegurando-lhes independência plena no exercício das suas funções.
Em última análise, a grandeza de um Estado não se mede pela sua omnipresença física ou pela intensidade da sua retórica, mas pela sua credibilidade silenciosa e duradoura. Um Estado verdadeiramente forte não precisa de proclamar diariamente a sua existência, nem recorrer permanentemente à imposição para ser obedecido. Basta que o cidadão sinta no quotidiano, que a lei funciona de forma equitativa, que o poder é limitado por freios e contrapesos institucionais e que a justiça, ainda que imperfeita, não está à venda aos mais influentes.
É precisamente neste intervalo crítico, entre a presença formal, frequentemente ilusória, e a autoridade efectiva, sempre arduamente conquistada, que a governação é julgada com maior severidade pela história e pelos povos. É aí onde se decide se um país possui apenas governos transitórios ou se dispõe de facto, de um Estado legítimo, resiliente e capaz de transformar realidades sociais em progresso colectivo.



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