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A cerimónia de entrega de 3.062 talhões infra-estruturados, realizada esta quinta-feira no distrito de Matutuíne, província de Maputo, ficou marcada pela forte politização de um acto que deveria ser estritamente estatal. O evento, dirigido pelo Presidente da República, Daniel Chapo, no âmbito do Projecto Nacional de Terra Infra-estruturada, uma iniciativa presidencial implementada pelo Ministério das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, transformou-se num palco de exibição partidária.
Edmilson Mate
A massiva presença de membros da FRELIMO, particularmente da Organização da Juventude Moçambicana (OJM) e da Organização da Mulher Moçambicana (OMM), maioritariamente trajados com vestuário vermelho ostentando símbolos do partido, conferiu ao evento um cariz político que, segundo jovens presentes, desvirtuou a natureza pública e estatal da iniciativa.
Fontes ouvidas pelo Evidências manifestaram desconforto com o que consideram ser uma politização descabida de um acto do Estado e mostram alguma desconfiança, tendo em conta o histórico de outros projectos que do Estado que acabaram sendo abocanhados pelo partido.
“Um projecto do Governo, que visa beneficiar a população, não devia ser misturado com partido”, disse João Mário, um jovem que pretende concorrer ao projecto, visivelmente frustrado, antes de acrescentar que “assim, vamos desconfiar que estes terrenos são para eles se dividirem entre si”.
Já José Pessene, jovem engenheiro que esteve no local, considera que a presença de um único partido político que é por sinal o partido no poder, mancha a imagem do próprio projecto.
“Parece que para ter acesso à terra temos de vestir a camiseta do partido. Isso é errado. Espero que quando começar a distribuição não acabem a se distribuirem só entre eles”, sublinhou Pessene que confessa estar imprensionado com o que viu, desde as ruas, os terrenos devidamente delimitado, as reservas para serviços sociais básicos, entre outros.
A politização do acto foi evidente não apenas no vestuário, mas também na coreografia montada no local, onde as cores e símbolos partidários dominaram o espaço, sobrepondo-se aos símbolos do Estado. Para muitos observadores, a linha que separa o público do partidário voltou a mostrar-se ténue, num padrão que se repete em cerimónias oficiais por todo o país.
Refira-se que o Projecto Nacional Terra Infra-estruturada visa justamente facilitar o acesso à habitação, através da disponibilização de talhões equipados com infra-estruturas básicas, contribuindo para a organização territorial e melhoria das condições de vida das famílias. O modelo agora lançado em Maputo é uma réplica do já lançado em Vilankulo, em Inhambane, estando previstos lançamentos similares por todo o País.
Numa altura em que se debate a necessidade de maior separação entre o partido no poder e as instituições do Estado, Matutuíne serve de exemplo de como a politização de actos públicos pode afectar a credibilidade dos projectos públicos.



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