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Por: Lineu Candieiro
Nos últimos dias, os acontecimentos no Médio Oriente voltaram a lembrar-nos de uma verdade desconfortável: o mundo é imprevisível. Tensões envolvendo países como o Irão, os Estados Unidos e outros actores internacionais demonstram que, mesmo as nações consideradas mais poderosas, não estão imunes a crises. A história recente confirma isso: nenhuma potência é intocável, nenhuma região é absolutamente segura.
Mas há um elemento adicional que torna o momento actual particularmente sensível para a economia global: a geografia estratégica do conflito.
O Irão situa-se numa das zonas marítimas mais críticas do planeta, próximo do Estreito de Ormuz, corredor por onde transita cerca de um quinto do petróleo comercializado mundialmente. Qualquer escalada militar, ameaça à navegação ou aumento do risco percebido nesta região tem impacto imediato nos custos de transporte, nos prémios de seguro marítimo, no preço do petróleo e, consequentemente, em praticamente todas as cadeias produtivas globais.
Num mundo dependente de energia fóssil e de cadeias logísticas marítimas, a instabilidade naquela zona não afecta apenas o Médio Oriente; repercute-se no custo dos combustíveis, dos fertilizantes, dos alimentos e de inúmeras commodities. Países importadores líquidos de energia, como Moçambique, sentem estes choques de forma directa através da inflação importada, da pressão cambial e do aumento do custo de vida
Durante muito tempo, criou-se a ideia de que existiam países “blindados”, economias inalcançáveis, cidades imunes a instabilidades globais. Cidades como Dubai tornaram-se símbolo de modernidade, segurança e prosperidade, e continuam a ser exemplos impressionantes de planeamento estratégico e crescimento acelerado.
Mas a realidade internacional mostra que a estabilidade nunca é garantida. Mesmo economias altamente integradas ao comércio global são vulneráveis a choques geopolíticos, flutuações energéticas e interrupções logísticas. O mundo está profundamente interligado: o que acontece num estreito marítimo a milhares de quilómetros pode alterar preços em mercados africanos dias depois.
É neste contexto que surge uma reflexão essencial para nós, moçambicanos: que país queremos construir? E onde devemos concentrar os nossos esforços e investimentos?
Moçambique é uma nação com potencial extraordinário. São quase três mil quilómetros de costa ao longo do Oceano Índico, uma posição geográfica estratégica na África Austral, abundância de recursos naturais e, sobretudo, uma população jovem e empreendedora. Temos condições reais para nos afirmarmos como plataforma logística regional, polo energético e centro agro-industrial.
Além disso, o próprio redesenho das cadeias globais, impulsionado por tensões geopolíticas, transição energética e busca por diversificação de fornecedores, abre oportunidades concretas para economias emergentes com acesso marítimo e recursos estratégicos. O gás natural moçambicano, os corredores logísticos para o hinterland africano e o potencial agrícola colocam o país numa posição cada vez mais relevante no tabuleiro económico internacional.
No entanto, muitas vezes, diante da percepção de maior segurança ou maiores garantias no exterior, optamos por investir fora antes de consolidar o que é nosso. Diversificar investimentos é uma prática legítima e inteligente no mundo empresarial. Mas quando essa escolha se torna sistemática em detrimento do fortalecimento interno, enfraquecemos o nosso próprio tecido económico.
Nenhum país se desenvolveu apenas com capital estrangeiro. As economias sólidas foram construídas, primeiro, com confiança interna: empresários nacionais que acreditaram no seu território, cidadãos que consumiram produtos locais e Estados que criaram condições para estimular o investimento doméstico.
A instabilidade global não deve gerar medo paralisante, mas sim consciência estratégica. Se ninguém está totalmente seguro, então a melhor segurança que podemos construir é aquela baseada numa economia forte, diversificada e resiliente dentro das nossas próprias fronteiras.
Para países importadores de combustíveis e bens essenciais, como Moçambique, cada crise em corredores energéticos globais traduz-se em custos mais elevados de produção, transporte e consumo. Isso reforça uma conclusão estratégica: fortalecer a produção interna, a capacidade logística nacional e a substituição competitiva de importações não é apenas política económica, é política de soberania.
Investir em Moçambique, portanto, não é apenas uma decisão económica; é uma decisão patriótica e estratégica. Significa gerar empregos locais, fortalecer cadeias produtivas nacionais, reduzir dependências externas e criar bem-estar para as próximas gerações.
O sector privado tem um papel decisivo neste processo. Não se trata de fechar portas ao mundo, mas de equilibrar prioridades. É possível ser global sem deixar de ser profundamente comprometido com o desenvolvimento nacional. Países que hoje são potências regionais construíram primeiro bases económicas internas robustas antes de se projectarem plenamente no exterior.
A lição que os conflitos internacionais nos deixam é clara: o mundo muda rapidamente. As garantias de hoje podem desaparecer amanhã. Rotas marítimas podem tornar-se arriscadas, energia pode encarecer, mercados podem retrair. Por isso, mais do que procurar segurança absoluta fora, devemos construir estabilidade sólida dentro.
O futuro de Moçambique depende, em grande parte, da confiança que nós próprios depositamos nele. E essa confiança começa com investimento, visão e compromisso.
Se queremos um país mais forte, mais estável e mais próspero, o momento de investir em casa é agora.



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