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- Com um investimento de 108 milhões de dólares
- Vila de Nhamatanda recebe a maior escola secundária de Moçambique com 66 salas de aula
- Escola Básica do Esturro conta com inéditas 46 salas modernas e custou USD 4,8 milhões
- Tzu Chi superou seu próprio recorde. Em 2024 entregou a então maior escola secundária com 58 salas
- Chapo rasga elogios à fundação e reafirma educação como pilar da independência económica
- Tzu Chi supera metas acordadas com o Governo e entrega 3.182 habitações resilientes
A província de Sofala testemunhou, este fim-de-semana, um momento que encerra um ciclo iniciado sob vento e água. Sete anos após o ciclone Idai ter rasgado a região Centro do País, deixando bairros inteiros reduzidos a escombros e milhares de famílias entregues à incerteza; o território, que foi sinónimo de devastação, apresentou uma nova paisagem. Onde antes predominava a lama, erguem-se agora escolas de dimensão inédita e bairros planeados para reduzir às próximas tempestades. Não foi apenas uma sequência de inaugurações; foi a materialização de um processo de reconstrução prolongado ao longo de sete anos, que envolveu financiamento contínuo, coordenação institucional e intervenção directa nas comunidades afectadas. Em 48 horas, o Presidente da República, Daniel Chapo, entregou à população de vários distritos de Sofala, infra-estruturas que alteram a escala de investimento social público na região. Trata-se da maior escola básica do país; da maior escola secundária do país, que bate o seu próprio recorde, e mais de três mil casas resilientes para famílias desalojadas em 2019 pelo ciclone Idai. As infra-estruturas foram financiadas pela Fundação de Caridade Tzu Chi, como parceiro do governo, num investimento global que atingiu a cifra de 108 milhões de dólares.
Luísa Muhambe, em Sofala
O epicentro desta transformação iniciou-se na Cidade da Beira, no dia 27 de Fevereiro, com a inauguração da Escola Básica do Esturro e a abertura oficial do ano lectivo de 2026. A nova escola, orçada em 4,8 milhões de dólares e construída sob o sistema build back better, tornou-se a maior escola primária do País, com 46 salas de aula capazes de acolher 4.800 alunos. A presença da vice-presidente da Tzu Chi Global, Pi Yu Lin, e das autoridades nacionais, simbolizou a importância de uma educação que se assume agora como o pilar central para a liberdade económica dos moçambicanos.
Durante a cerimónia na Beira, o presidente da Fundação Tzu Chi em Moçambique, Dino Foi, visivelmente emocionado, recordou o ponto de partida deste percurso e a força daqueles que perderam tudo.
“Quando olho para estas paredes ainda com cheiro a novo, não posso deixar de recordar as primeiras visitas às comunidades, logo após a passagem do ciclone Idai. É impossível esquecer a lama ainda fresca, as casas reduzidas a pedaços, pessoas sentadas à porta do nada, literalmente do nada, tentando compreender como é que a vida pode mudar num único dia e, no entanto, mesmo no meio daquela devastação, havia algo maior do que a destruição. Havia força, havia dignidade que nos despedia com vento. Havia um silêncio, mas firme ‘vamos continuar’, muitas vezes dito com lágrimas escondidas. Hoje, ao entregarmos a escola básica do Esturro, sinto que estávamos a devolver muito mais do que infra-estruturas, estamos a devolver direitos, o direito de aprender, o direito de acreditar, o direito de sonhar”, afirmou.
“Restituição de direitos interrompidos pela tragédia”
Entre os momentos mais marcantes da cerimónia, esteve a intervenção do presidente da Fundação Tzu Chi em Moçambique, Dino Foi, que recordou as primeiras visitas às zonas devastadas pelo ciclone Idai. Falou da lama ainda fresca, das casas reduzidas a fragmentos e das famílias sentadas diante do que restava das suas vidas, tentando compreender como tudo podia desaparecer em poucas horas. Mesmo naquele cenário de destruição absoluta, disse, havia entre os sobreviventes uma dignidade silenciosa, uma determinação discreta de continuar, mas a origem mais profunda desta jornada de reconstrução remonta aos dias que se seguiram à tempestade.
Em 2019, num dos bairros atingidos pelo Idai, uma menina chamada Zinha tentava salvar o que restava da sua vida escolar. Sentada ao sol, espalhava no chão cadernos encharcados, virando página por página para secar livros deformados pela água. À sua volta, o vento ainda levantava poeira sobre os escombros e o território parecia suspenso entre a perda e a sobrevivência.

Naquele gesto simples, o de proteger os próprios livros numa terra engolida pelo vento e pelas águas, condensava-se a vulnerabilidade de toda uma geração e a urgência de impedir que cenas semelhantes voltassem a repetir-se.
A reconstrução que hoje se materializa em escolas e bairros resilientes pode ser lida à luz dessa memória: não apenas erguer infra-estruturas, mas criar condições para que o futuro das crianças deixe de depender da violência das tempestades.
Foi nesse espírito que Dino Foi apresentou a entrega da Escola Básica do Esturro como um passo na restituição de direitos interrompidos pela tragédia: “o direito de aprender, de projectar o futuro e de crescer em segurança”.
O responsável esclareceu ainda a origem dos recursos que sustentam projectos desta dimensão. Segundo explicou, cerca de 98% do financiamento da fundação provém de contribuições individuais de milhões de doadores espalhados pelo mundo, com valores médios na ordem dos 2.100 meticais, sendo o restante assegurado por parcerias institucionais, entre elas a Duke Foundation, a Vodacom e a Petromoc.
Chapo declara educação como “o mais poderoso instrumento da liberdade económica”
No seu discurso de abertura do ano lectivo na Beira, o Presidente da República, Daniel Chapo, contextualizou o adiamento das aulas devido às cheias recentes e lançou uma nova visão estratégica para o sistema de ensino moçambicano.
“Este início do ano lectivo ocorre num contexto em que Moçambique foi novamente assolado por cheias e inundações e pelo ciclone Guezani. O adiamento foi uma decisão responsável para proteger vidas humanas, que é o nosso objectivo número um. As cheias e os ciclones deixam-nos uma lição clara: a de preparar as nossas novas gerações para compreender e liderar num mundo marcado pelos desafios climáticos. Esta nova escola básica do Esturro, fruto do financiamento da Fundação de Caridade Tzu Chi, é hoje um símbolo de resiliência. Queremos declarar a educação como pilar central da transformação nacional e como o mais poderoso instrumento da liberdade económica do cidadão moçambicano,” disse.
O Chefe de Estado sublinhou a necessidade de uma mudança de paradigma na formação dos jovens, focando-se no empreendedorismo desde as bases para quebrar o ciclo de dependência do emprego formal.
“Durante anos viemos ensinando as nossas crianças apenas a serem empregados. O que nós estamos a fazer agora é inverter este cenário. Ensinar a criança que pode também criar emprego. A ideia não é só formar empregados, mas começarmos desde pequeno a formar patrões, para que Moçambique possa crescer. Façamos da escola uma base para o povo tomar o poder. Se ontem a escola era base para a conquista do poder político, hoje deve ser a base para a conquista do poder económico. O poder de produzir, de inovar, de industrializar e de competir. Que no futuro se diga que foi nas escolas deste nosso tempo que começou de forma irreversível a verdadeira independência económica de Moçambique”, defendeu.
A ministra da Educação e Cultura, Samaria Tovela, aproveitou a cerimónia central na Beira para prestar homenagem aos profissionais do sector que perderam a vida em contextos de conflito e instabilidade, reafirmando o compromisso do ministério com a educação mesmo sob adversidades.
“Perdemos colegas em Cabo Delgado, barbaramente assassinados, perdemos também colegas em Nampula. Queremos dizer às famílias e a todos nossos filhos deixados, que encontrem na educação o apoio necessário. Que todos nós possamos apoiar os nossos meninos que perderam os pais e os professores em circunstâncias trágicas simplesmente porque estavam a ensinar em zonas que, infelizmente, estão a sofrer por causa da desestabilização. Estão criadas condições básicas para o início do ano lectivo. Nós, como professores e promotores de desenvolvimento humano, queremos reiterar o nosso compromisso de elevar o desempenho dos nossos alunos, consolidando a literacia, a numeracia e, sobretudo, a moral, a cidadania e o patriotismo”, disse Tovela.
Vila de Nhamatanda recebe a maior escola secundária de Moçambique com 66 salas de aula
A jornada de inaugurações prosseguiu no dia 28 de Fevereiro para a Vila Municipal de Nhamatanda. Ali, foi entregue a Escola Secundária Geral de Nhamatanda, que passa a assumir o estatuto de maior escola secundária do país.
Com 66 salas de aula, laboratórios e blocos administrativos, a obra representa o auge da cooperação técnica entre a Tzu Chi e o Governo moçambicano. A infra-estrutura está orçada em mais de 3,4 milhões de dólares.
O Conselho da Escola, através de uma declaração solene, reafirmou o compromisso da comunidade local em zelar por um património que consideram o alicerce do progresso distrital.
“A comunidade escolar expressa a sua sincera gratidão ao governo e ao parceiro Fundação de Caridade Tzu Chi pelo esforço contínuo na expansão e melhoria das infraestruturas educacionais. Reafirmamos o nosso compromisso de preservar este património, promover um ambiente escolar de disciplina, inclusão e excelência, trabalhando com dedicação para que a escola se torne uma referência de qualidade educativa no distrito e na província. A inauguração desta escola representa um momento histórico para o distrito, constituindo um importante investimento no desenvolvimento do capital humano e na construção de um futuro mais próspero para a nossa juventude”, disse Inácio Massoca, presidente do Conselho da Escola
Guara-Guara torna-se um modelo de reassentamento com a entrega de 2.067 casas resilientes
O impacto social desta jornada de inaugurações estendeu-se com igual força ao sector da habitação. No Bairro de Reassentamento de Guara-Guara, no distrito do Búzi, foram entregues 2.067 casas. Estas habitações fazem parte de um lote total de 3.182 casas erguidas pela Tzu Chi no âmbito do projecto Hope, superando a meta inicial de 3.000 habitações previstas no memorando assinado com o Governo moçambicano.
Somente na componente de habitação, a fundação investiu 45 milhões de dólares. As casas de Guara-Guara não são apenas abrigos; são o alicerce de novas comunidades que foram retiradas de zonas de risco de inundação e colocadas em áreas altas e seguras, com acesso a saneamento e planeamento urbano.
A complexidade técnica e o rigor com que estas vilas foram planeadas demonstram que houve uma lição aprendida com a tragédia do Idai. A Vice-Presidente Pi Yu Lin sublinhou, durante a sua visita, que o compromisso da Tzu Chi é com a compaixão e o alívio do sofrimento, mas também com a sustentabilidade das soluções oferecidas. O uso de materiais locais combinados com técnicas de reforço estrutural permite que estas famílias tenham, pela primeira vez, a certeza de que o seu tecto não voará na próxima tempestade. A entrega destas chaves em Guara-Guara encerra um capítulo doloroso de precariedade para milhares de famílias que viviam em centros de acomodação ou em tendas desde 2019.
No entanto, o gigantismo das novas escolas traz consigo desafios operacionais que o Governo terá de gerir com precisão. A manutenção destas infra-estruturas, especialmente de unidades de ensino como a de Nhamatanda, exigirá uma gestão administrativa rigorosa e um corpo docente à altura do desafio.
Fundada em Moçambique em 2012 e com uma actuação intensificada desde 2019, a Fundação Tzu Chi já apoiou mais de 100 mil famílias no País. Com 10 mil voluntários locais e 10 milhões a nível global, a fundação conseguiu o que muitos consideravam impossível no período pós-desastre: manter o financiamento e o foco durante sete anos consecutivos até que a última pedra fosse colocada. A entrega destas obras em 2026 marca não só a conclusão do projeto Hope, mas a maturidade de uma parceria entre o Estado moçambicano e a sociedade civil internacional.
A jornada de reconstrução em Sofala serve agora de modelo para outras regiões do País afectadas por calamidades naturais. A articulação entre o GREPOC, o Ministério das Obras Públicas e parceiros como a Tzu Chi e o PNUD demonstrou que a reconstrução resiliente, embora mais cara e demorada, é a única via para quebrar o ciclo de pobreza e destruição que as alterações climáticas impõem a Moçambique. As escolas de Esturro, Manga e Nhamatanda, bem como a vila de Guara-Guara, são hoje os monumentos vivos dessa resiliência.



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