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John Kanumbo
Venâncio Mondlane, ecce homo que emergiu das sombras do sistema político para criar o seu próprio caminho, hoje encara o que talvez seja o maior desafio da sua carreira: a possibilidade real de não poder concorrer nas próximas eleições. Agora corre risco diante do peso do sistema judiciário e político que domina Moçambique. Os cinco crimes que pesam sobre ele, apologia pública ao crime, incitação à desobediência colectiva, instigação a crimes, instigação ao terrorismo e incitamento ao terrorismo, não são meros papéis; são armas que limitam a sua acção, congelam a sua mobilização e condicionam o seu futuro político.
A trajectória de Venâncio, cheia de ousadia e coragem, já mostrou que ele não teme enfrentar o poder. Está claro. Depois de ser derrotado oficialmente, criou o seu governo de sombra, assumiu a presidência simbólica atípica na parede de Ponta Vermelha que durou algumas semanas, negociou com Chapo para cessar as manifestações, aceitou a derrota e reconheceu o chefe e foi assinar para ser Membro do Conselho do Estado e criou, assim, a sua casa política, a Anamola. Mas todo esse percurso pode não bastar. O sistema que o cercou tem experiência histórica, controlo institucional e intimidações, medo mas com paciência estratégica: espera o momento certo para neutralizar a sua candidatura, mesmo que ele ainda seja popular e falante, mesmo que os cidadãos frustrados o vejam como esperança.
Não é exagero: a probabilidade de Venâncio não concorrer às próximas eleições é altíssima. E este não é um cálculo pessimista; é a observação de um cidadão comum que estuda o tempo, como nos tempos antigos, quando mensageiros, magos, quiromantes e intérpretes de sonhos avisavam os reis sobre os movimentos do povo e do destino. Este processo judicial será longo, meticuloso e estratégico. Cada audiência, cada acusação, cada medida de restrição é calculada para bloquear o seu caminho. E se, porventura algum apoiador pensar que a paixão política ou a mobilização popular podem mudar isso, será necessário encarar a realidade: o sistema está preparado para resistir a qualquer desafio, e os limites que ele impõe não são sugestões, são barreiras.
O cidadão comum vê, analisa e sente. Ele observa o caminho do Zoon politicus, a sua audácia e popularidade, e ao mesmo tempo percebe a força do sistema, as grades invisíveis que o prendem antes mesmo das urnas. Enquanto ele negociava chá e café com Chapo, enquanto aceitava regras de circulação com PGR e integração no Conselho de Estado, e depois lhe meteram em processos, o cidadão comum logo entendeu que esta é uma batalha desigual. O sistema dá espaço suficiente para acalmar barulho, o populismo para conter, mas não para libertar completamente. O sonho de ser chefe do Estado está cercado. O popularismo não será suficiente para derrubar barreiras institucionais e judiciais que já estão postas.
Olhando para a vizinha Tanzânia, o cenário recorda outro episódio. Tundu Lissu, líder do CHADEMA, permanece detido desde Abril do ano passado. O seu lema No reform, no elections, traduzido para Português ”sem reforma não há eleições”, tornou-se um aviso para quem desafia sistemas consolidados. O seu processo arrasta-se e a lógica parece clara: neutralizar a oposição, desmobilizar o povo e garantir que o sistema continue a operar sem contestação. O paralelismo inquieta.
Mas aqui reside a esperança e a dor: o cidadão comum observa, sente e regista. Ele sabe que o poder absoluto não é eterno, e que mesmo os mensageiros dos tempos antigos, intérpretes de sonhos e quiromantes, tinham razão: a história é maior que o sistema, e a verdade política virá, com ou sem o consentimento das grades, dos processos e das estratégias de contenção. O futuro de Venâncio e Anamola será escrito não só pela lei, mas pelo olhar atento daqueles que vivem, estudam e julgam o tempo.
O drama de Venâncio não é apenas político; é simbólico. É a história de um homem que ousou sonhar grande, que tentou transformar o seu popularismo em poder formal, mas que agora vê o seu futuro condicionado por processos legais e pela ambição do sistema. Talvez este seja apenas um capítulo de resistência e aprendizado. Talvez, para ele, o tempo de sonhar como chefe do Estado seja limitado. Talvez a Anamola continue viva apenas como uma bandeira simbólica, enquanto as eleições acontecerão sem a sua presença. Mas uma coisa é certa: em política, coragem e popularidade não bastam quando o sistema decide quem pode e quem não pode, VM7 sabe disso, e nós também. Mas pronto, o tempo dirá.



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