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- Nas províncias do Niassa e de Cabo Delgado
O sol ainda mal despontou no horizonte. Nas picadas estreitas que rasgam a mata densa do Norte de Moçambique, dezenas de homens e mulheres já iniciaram mais uma longa jornada. Sobre as cabeças transportam sacos de milho, feijão, gergelim, mandioca, banana e batata-doce, produtos colhidos com meses de trabalho árduo nas machambas. Alguns percorrem mais de dez quilómetros a pé antes de encontrarem uma estrada transitável ou um transporte que lhes permita chegar aos mercados. Esse é o retrato fiel do drama diário vivido por algumas comunidades das províncias do Niassa e de Cabo Delgado.
Elísio Nuvunga
Durante a época seca, a poeira cobre os rostos e invade os olhos. Quando chegam as chuvas, os mesmos caminhos transformam-se em autênticos atoleiros, onde homens, mulheres e crianças caminham com dificuldade, muitas vezes descalços. É um cenário que se repete diariamente em inúmeras comunidades dos distritos de Mavago e Sanga, na província do Niassa; e de Chiúre e Quissanga, em Cabo Delgado.
Pelo caminho, os obstáculos não se limitam às condições das estradas. Há rios sem pontes, ravinas abertas pela erosão e extensões de mata onde a população convive com animais selvagens, que muitas vezes resulta em incidentes fatais.
Cobras escondidas entre o capim alto, macacos que atravessam os trilhos e, em algumas zonas, elefantes, girafas e outras espécies típicas das reservas naturais da região fazem parte do quotidiano das comunidades rurais.
Apesar de separados por centenas de quilómetros, os distritos visitados recentemente pelo Jornal Evidências partilham uma realidade comum. Produzem cada vez mais, mas continuam a enfrentar enormes dificuldades para fazer chegar os seus produtos aos mercados, fazendo com que os excedentes aprodreçam nos campos, enquanto nas cidades os mesmos são vendidos a preço de ouro.
A reportagem do Evidências encontrou um contraste difícil de ignorar. De um lado, terras férteis, abundância de água, recursos naturais e comunidades trabalhadoras. Do outro, estradas degradadas, isolamento e enormes dificuldades de transporte.
Em Mavago, Sanga, Chiúre e Quissanga, a riqueza existe. Está nas machambas, nos cajueiros, nos campos de milho, nas plantações de gergelim, nos rios e no mar. O que continua a faltar são as infra-estruturas capazes de transformar esse potencial em prosperidade.
O resultado é uma economia rural que cresce abaixo do seu potencial e milhares de famílias impedidas de transformar o esforço agrícola em rendimento, deixando subaproveitado o vasto potencial que o país possui.
Terras férteis, colheitas abundantes e mercados distantes

Niassa é a maior província do país em extensão territorial e possui vastas áreas aráveis, abundância de recursos hídricos e condições climáticas favoráveis à agricultura. Não é por acaso que há muito é apontada como um dos maiores celeiros de Moçambique, facto que 50 anos depois ainda não saiu do papel.
Nos distritos de Mavago e Sanga, praticamente todas as famílias dependem da agricultura para sobreviver. O milho, feijão, gergelim, amendoim, mapira e mandioca dominam as machambas. Em muitos locais, os campos estendem-se até onde a vista alcança, revelando um potencial produtivo que poderia alimentar mercados muito além das fronteiras provinciais.
No entanto, a prosperidade termina muitas vezes no limite das machambas. Depois da colheita, começa uma segunda batalha: encontrar meios para transportar a produção. Em várias comunidades, os produtos permanecem armazenados durante semanas, à espera de compradores ou de um transporte disponível.
Ao percorrer diferentes localidades de Mavago e Sanga, a equipa do Evidências constatou que as estradas continuam a ser o principal obstáculo ao desenvolvimento económico local. Em muitos troços, a vegetação invade parcialmente as vias e a circulação de viaturas exige extrema cautela.
“Produzimos muito milho, feijão e gergelim. O problema é que nem sempre conseguimos tirar os produtos daqui. Às vezes perdemos parte da produção porque não há transporte ou porque os compradores não conseguem chegar”, relatou um agricultor de Mavago.
Mesmo assim, muitos percorrem vários quilómetros a pé, transportando os produtos à cabeça. As mulheres são quem mais sofre. Com crianças às costas e cargas pesadas sobre a cabeça, enfrentam longas caminhadas sob o sol escaldante ou em estradas enlameadas.
“O problema não é produzir. O problema é vender. Temos castanha de caju, banana e outros produtos, mas nem sempre conseguimos transportar para os mercados”, relata um agricultor de Chiúre.
Quando a chuva cai, o isolamento aumenta
Se para os agricultores a chuva representa esperança de boas colheitas, para as comunidades rurais significa também o agravamento das dificuldades de mobilidade.
Em muitos pontos, as estradas não passam de simples caminhos de terra batida. Com as primeiras chuvas, formam-se extensas áreas alagadas, valas profundas e riachos que interrompem completamente a circulação.
Segundo relatos recolhidos pelo Evidências, algumas localidades ficam praticamente isoladas durante semanas. Viaturas ligeiras deixam de circular e até os conhecidos “My Love”, utilizados para transporte misto de passageiros e mercadorias, enfrentam dificuldades para chegar às zonas de produção.
O impacto vai muito além da agricultura. O isolamento afecta igualmente o acesso à saúde, à educação e a outros serviços essenciais. Em situações de emergência médica, algumas famílias são obrigadas a percorrer longas distâncias a pé para encontrar assistência.
Além disso, as dificuldades de transporte têm consequências directas no rendimento dos produtores. Sem alternativas para escoar a produção, muitos acabam por vender os seus produtos a intermediários por preços muito inferiores aos praticados nos mercados urbanos.
Cabo Delgado: entre o potencial económico e os efeitos da insegurança
Em Cabo Delgado, os problemas de mobilidade coexistem com os efeitos prolongados da insurgência armada que afecta a província desde 2017. Nos distritos de Chiúre e Quissanga, o terrorismo continua a influenciar o quotidiano das comunidades.
Nos distritos de Chiúre e Quissanga, apesar dos sinais de recuperação observados em algumas localidades, muitas famílias ainda procuram reconstruir as suas vidas depois de anos marcados por deslocações forçadas e perda de meios de subsistência.
Ao longo das estradas percorridas pelo Evidências, são visíveis pontes improvisadas, extensos troços degradados e zonas onde os veículos são obrigados a circular lentamente para evitar danos provocados pelos buracos.
Paradoxalmente, a paisagem agrícola transmite uma imagem de abundância. Extensas plantações de gergelim, cajueiros carregados e bananeiras repletas de frutos demonstram que a capacidade produtiva da região continua intacta.
“O problema não é produzir. O problema é vender. Temos castanha de caju, banana, milho e muitos outros produtos, mas nem sempre conseguimos transportá-los para os mercados”, lamentou um agricultor de Chiúre.
A situação torna-se ainda mais preocupante quando se considera que Cabo Delgado alberga algumas das maiores reservas de gás natural do continente africano e possui uma importante actividade pesqueira. Apesar dessa riqueza, muitas comunidades continuam excluídas dos benefícios do desenvolvimento económico.
Tractores aliviam dificuldades, mas não resolvem o problema
Perante a ausência de infra-estruturas adequadas, algumas soluções locais têm ajudado a reduzir o isolamento. Em vários pontos do Niassa e de Cabo Delgado, tractores adaptados para transporte misto passaram a assegurar a circulação de pessoas e mercadorias entre localidades anteriormente quase inacessíveis.
Embora rudimentar, este sistema permitiu reduzir tempos de viagem e facilitar o acesso aos mercados. Para muitos produtores, tornou-se a única alternativa viável para transportar pequenas quantidades de produtos agrícolas.
Contudo, as populações são unânimes em afirmar que os tractores representam apenas uma solução temporária. A capacidade de carga é limitada e os custos de operação continuam elevados, sobretudo durante a época chuvosa.
Em várias comunidades, os agricultores recorrem aos tractores alocados pelo governo para encurtar distâncias. O chamado transporte misto tornou-se uma das poucas alternativas disponíveis para chegar aos mercados, mas não é suficiente.
“Não é como antes. Agora o conseguimos levar nossos produtos para a cidade (de Lichinga e outras províncias como Nampula, por exemplo)”, relatou.
Comércio com a Tanzânia esbarra nos mesmos obstáculos
No Niassa, a proximidade com a Tanzânia abre oportunidades adicionais para os produtores locais. Muitos agricultores e comerciantes conseguem vender parte da sua produção para o país vizinho, dinamizando a economia das zonas fronteiriças.
No entanto, as dificuldades de transporte continuam a impedir que esse potencial seja plenamente aproveitado. Estradas degradadas e custos logísticos elevados reduzem a competitividade dos produtos moçambicanos e limitam a expansão do comércio transfronteiriço.
Segundo vários produtores entrevistados pelo Evidências, existe procura para os produtos agrícolas da região, mas a incapacidade de garantir transporte regular impede muitos negócios de avançar.
Autoridades admitem limitações
As autoridades distritais reconhecem que as condições das vias constituem um dos principais entraves ao desenvolvimento económico e social.
Segundo os responsáveis locais, esforços têm sido feitos para realizar intervenções periódicas de manutenção, mas a dimensão dos distritos e a escassez de recursos financeiros dificultam obras de maior envergadura.
“Como sabem, as nossas vias de acesso não são boas e a situação agrava-se ainda mais durante a época chuvosa”, afirmou Cecília Cácimo, administradora de Mavago.
Os responsáveis defendem maiores investimentos em infra-estruturas rodoviárias, argumentando que o desenvolvimento agrícola dificilmente poderá avançar sem estradas capazes de ligar as zonas de produção aos mercados consumidores.



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