Estados Unidos reduzem ajuda para África e priorizam mais extração de minerais críticos

ÁFRICA E MUNDO
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  • AFRICOM falhou: Há mais guerras e alastramento do terrorismo em toda África

A nova estratégia de segurança dos Estados Unidos para África está a provocar um debate crescente no continente. Embora Washington continue a apresentar-se como um parceiro comprometido com a estabilidade africana, analistas e académicos defendem que a política norte-americana falhou em produzir paz duradoura porque privilegiou a militarização em detrimento das causas estruturais dos conflitos.

A nova estratégia de segurança dos Estados Unidos para África está a provocar um debate crescente no continente. Embora Washington continue a apresentar-se como um parceiro comprometido com a estabilidade africana, analistas e académicos defendem que a política norte-americana falhou em produzir paz duradoura porque privilegiou a militarização em detrimento das causas estruturais dos conflitos.

O debate ganhou novo impulso depois de responsáveis norte-americanos terem assumido uma abordagem mais pragmática e menos assistencialista em relação ao continente, defendendo que os países africanos devem assumir maiores responsabilidades pela sua própria segurança e que a relação com África deve ser orientada por interesses económicos concretos, particularmente no acesso a minerais críticos e cadeias de abastecimento estratégicas.

A mudança representa uma ruptura com o discurso tradicional de promoção da democracia e dos direitos humanos. Para muitos observadores, os Estados Unidos estão a abandonar a linguagem dos valores para adoptarem uma diplomacia de negócios, numa altura em que a disputa global por recursos minerais se intensifica.

A estratégia que não trouxe estabilidade

Desde a criação do Comando dos Estados Unidos para África (AFRICOM), em 2007, Washington investiu milhares de milhões de dólares em operações de contraterrorismo, formação de forças especiais, fornecimento de equipamento militar e apoio a governos aliados. Contudo, o continente não se tornou mais seguro.

Pelo contrário. O terrorismo alastrou no Sahel, golpes de Estado multiplicaram-se em vários países da África Ocidental e conflitos armados continuam activos em regiões como o leste da República Democrática do Congo e o Corno de África.

As críticas à estratégia norte-americana são cada vez mais frequentes. O argumento central é que nenhuma operação militar consegue, por si só, resolver problemas enraizados na pobreza, no desemprego, na exclusão social, na corrupção e na fragilidade das instituições estatais.

Para vários analistas africanos, os Estados Unidos apostaram excessivamente na força militar e pouco na construção de Estados mais resilientes e de economias capazes de gerar oportunidades para as populações.

África como peça do tabuleiro geopolítico

Outra crítica recorrente é a percepção de que o continente continua a ser visto pelas grandes potências como um espaço de competição estratégica e não como um parceiro em pé de igualdade.

A guerra na Ucrânia, a crescente rivalidade entre Washington e Pequim e a corrida pelos minerais essenciais à transição energética recolocaram África no centro das disputas globais.

O continente possui cerca de 30% das reservas minerais mundiais, incluindo lítio, cobalto, grafite, manganês e terras raras, matérias-primas fundamentais para a produção de baterias, veículos eléctricos, painéis solares e semicondutores.

Essa riqueza transformou África num território altamente cobiçado. Para muitos governos africanos, a preocupação é que a nova corrida aos recursos reproduza velhas dinâmicas de  exploração, em que o continente exporta matérias-primas e importa produtos acabados, sem conseguir transformar os seus recursos em desenvolvimento sustentável.

A crescente influência da China e da Rússia em África também expôs as limitações da estratégia ocidental. Enquanto os Estados Unidos e os seus aliados privilegiavam o combate ao terrorismo e a assistência militar, Pequim investia em portos, estradas, caminhos-de-ferro e infra-estruturas energéticas através da iniciativa Belt and Road.

Moscovo, por sua vez, ampliou a sua presença por meio de acordos de cooperação militar e fornecimento de equipamentos de defesa. Apesar das controvérsias que envolvem ambas as potências, vários governos africanos consideram que estas parcerias oferecem benefícios imediatos e uma menor interferência nos assuntos internos.

O resultado foi uma progressiva diversificação das alianças externas do continente e uma diminuição da influência exclusiva do Ocidente em várias regiões africanas.

O risco da dependência

Contudo, a multiplicação de parceiros não elimina um problema central: a crescente dependência externa.

Especialistas alertam que a soberania africana está sob pressão sempre que decisões estratégicas passam a ser condicionadas por financiamentos, ajuda militar, empréstimos ou interesses estrangeiros ligados à exploração de recursos naturais.

A dependência económica e tecnológica reduz a capacidade de os Estados definirem autonomamente as suas políticas de desenvolvimento e pode transformar países vulneráveis em simples instrumentos de disputas geopolíticas.

Em muitos casos, a fragilidade das instituições nacionais e a corrupção interna acabam por abrir espaço para a captura de decisões estratégicas por interesses externos.

A chamada “maldição dos recursos naturais” continua a ser um dos maiores desafios do continente. Apesar da abundância de riquezas minerais, muitos países africanos permanecem entre os mais pobres do mundo, incapazes de converter os recursos naturais em industrialização, emprego e melhoria das condições de vida.

A procura de uma alternativa africana

Face a este cenário, cresce em África a defesa de soluções próprias para os problemas do continente. A Agenda 2063 da União Africana, através da iniciativa “Silenciar as Armas”, procura fortalecer mecanismos africanos de prevenção e resolução de conflitos, reduzindo a dependência de actores externos.

Ao mesmo tempo, vários países defendem uma diplomacia económica multilateral, baseada em relações equilibradas com diferentes parceiros internacionais, sejam eles os Estados Unidos, a China, a União Europeia ou os BRICS.

Outra tendência é o reforço do protagonismo regional, com países africanos a assumirem maior responsabilidade na mediação de crises e conflitos, substituindo progressivamente a lógica de intervenções externas.

No fundo, a questão que hoje se coloca ao continente é mais profunda do que a escolha entre Washington, Pequim ou Moscovo.

A verdadeira batalha é pela capacidade de África definir o seu próprio destino, proteger os seus recursos e construir modelos de desenvolvimento que respondam, antes de tudo, aos interesses dos próprios africanos. Porque, num mundo marcado pela disputa por minerais, corredores logísticos e influência estratégica, a soberania tornou-se o recurso mais valioso do continente.

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