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O que o Irão disse ao mundo ao enterrar Ali Khamenei
“O poder servia a pompa, não a pompa o poder” –
Clifford Geertz, Negara: The Theatre State in Nineteenth-Century Bali (1980)
Shipeni Thovela
Um funeral serve, normalmente, para duas coisas: enterrar um corpo e chorar uma morte. O de Ali Khamenei, que Teerão realizou ao longo de seis dias, por cinco cidades e dois países, cumpriu as duas, mas não se ficou por aí. A multidão que as próprias autoridades iranianas estimaram entre quinze e vinte milhões de pessoas, segundo números avançados à Euronews e ao Observador, não se explica apenas pelo luto. A cerimónia fúnebre do Aiatolá, morto aos 86 anos a 28 de Fevereiro num ataque conjunto dos Estados Unidos e de Israel contra a sua residência em Teerão, cumpriu naturalmente o rito devido a um chefe de Estado e líder espiritual de trinta e sete anos de mandato, mas funcionou, sobretudo, como um enunciado político dirigido a três audiências distintas: o povo iraniano, a rede regional xiita e o próprio Ocidente que participou no ataque que o matou.
Esse enunciado de força convive, porém, com uma fragilidade real, mas de outra natureza: a legitimidade interna do regime, corroída por décadas de repressão de protestos, por uma economia sob sanções e por seis meses de manifestações contra o custo de vida, reprimidas com dezenas de mortos em Janeiro, numa erosão anterior à guerra e distinta dela. Um Estado seguro dessa legitimidade dificilmente precisaria de mobilizar bombeiros, universidades, sindicatos e forças de segurança para encenar luto nacional a esta escala; é provável que o faça também para responder a essa fragilidade doméstica. É essa tensão interna que atravessa a cerimónia, não o desfecho da guerra com os Estados Unidos e Israel, que continua genuinamente disputado entre analistas.
O dado mais revelador não foi o que se viu no funeral, mas o que se adiou antes dele. A tradição islâmica manda sepultar em vinte e quatro horas; o corpo de Khamenei ficou preservado durante mais de quatro meses, à espera de que a guerra arrefecesse o suficiente para permitir uma cerimónia pública em segurança. Este atraso foi excepcional mesmo pelos padrões xiitas, que toleram desvios em situações de força maior, como guerras ou desastres, e dificilmente foi um simples acidente logístico: tudo indica que o regime preferiu suspender o rito a expor a cerimónia ao caos de uma guerra ainda em curso e ao risco de novos ataques. Ao esperar pelo tratado de paz assinado em Junho na Suíça, Teerão garantiu que a cerimónia fosse lida como reabertura de uma narrativa de continuidade, e não como um funeral interrompido pelo conflito.
O itinerário escolhido conta a sua própria história. O cortejo atravessou cinco cidades em dois países: Teerão a 6 de Julho, Qom a 7, os santuários iraquianos de Najaf e Carbala a 8, e o sepultamento em Mashhad a 9, todas elas pontos da rede de legitimação xiita que Teerão construiu ao longo de décadas. O mapa da devoção religiosa sobrepõe-se, quase à perfeição, ao mapa da influência geopolítica iraniana no chamado Crescente Xiita. Levar o corpo do líder morto pelos santuários da Mesopotâmia é uma forma de dizer, sem o dizer, que os ataques aéreos destruíram infra-estruturas e mataram quadros de comando, mas não desmontaram a arquitectura de influência construída desde a revolução de 1979.
Um funeral de Estado é também um exercício de contabilidade diplomática, e o de Teerão não fugiu à regra. Segundo a Euronews e a agência France-Presse, as delegações estrangeiras incluíram figuras de peso da Rússia, do Paquistão, do governo talibã do Afeganistão, da Arménia, da Geórgia, do Azerbaijão, do Cazaquistão, do Tajiquistão e do Turquemenistão, um mapa que desenha, com bastante nitidez, o espaço de influência euro-asiática e centro-asiática onde Teerão ainda consegue mobilizar reconhecimento formal. Mais reveladora foi a ausência quase total de representação ocidental, detalhe que o regime tentou converter, publicamente, em prova de pureza revolucionária, e não naquilo que na prática pareceu ser: isolamento diplomático.
O próprio tratado de paz assinado em Junho incluiu a reabertura do Estreito de Ormuz e a retirada de tropas norte-americanas de território iraniano, termos que Teerão apresentou internamente como prova de que o país resistiu ao objectivo declarado de mudança de regime. Segundo relatos citados pela imprensa portuguesa, a cobertura mediática iraniana do funeral chegou mesmo a suplantar, nos dias anteriores, as notícias sobre as negociações entre Teerão e Washington que até então dominavam as manchetes, um deslocamento de agenda que é, também ele, parte do recado.
Poucos elementos desta cerimónia carregaram tanta incerteza como a ausência do novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, filho do Aiatolá morto e ele próprio ferido no mesmo ataque que matou o pai, a mãe e a esposa. A incerteza acabou por se resolver, mas não a favor do regime: Mojtaba não apareceu em nenhum momento das cerimónias públicas, e as autoridades confirmaram, na véspera do funeral, que nem sequer conduziria a oração fúnebre pelo próprio pai, papel que coube ao clérigo Jafar Sobhani.
Os outros três filhos homens de Khamenei compareceram e rezaram junto aos caixões da família; Mojtaba, não. Segundo a Euronews, também estiveram ausentes os três antigos presidentes iranianos, Mohammad Khatami, Hassan Rouhani e Mahmoud Ahmadinejad, uma ausência colectiva que um antigo assessor da presidência, citado pela mesma agência, descreveu como uma oportunidade perdida de projectar coesão interna. É, no fundo, o problema clássico que Max Weber descreveu como a rotinização do carisma: a autoridade carismática de um líder não se transmite por herança de sangue, e quem sucede corre sempre o risco de surgir como gestor administrativo de um carisma alheio, e não como fonte própria de legitimidade. Mais de quatro meses sem imagem nem voz sugerem que, para já, é esse risco que está a vencer.
A escala da cerimónia, com dezenas de milhões de pessoas, seis dias de rituais, cidades inteiras fechadas e espaço aéreo suspenso sobre Teerão, é também um gesto dirigido a Washington e Telavive, num confronto cujo desfecho continua disputado. O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, chegou a classificar o resultado da guerra como uma vitória nacional; já analistas ocidentais, como os do centro de estudos Brookings, descrevem antes um empate estratégico, sem vencedores claros de nenhum dos lados. O Irão respondeu aos ataques com mísseis e drones contra alvos israelitas, incluindo um impacto directo em Telavive, e manteve operacional a sua rede regional de aliados armados, o chamado eixo da resistência, com um arsenal estimado em mais de 150 mil mísseis e foguetes. Neste contexto de resultado por decidir, o funeral funciona como um argumento simbólico nessa disputa: mostra que a estrutura teocrática sobrevive à tentativa de decapitação da sua hierarquia, e que os milhares de mortos que Teerão contabiliza são apresentados internamente como capital de martírio, reforçando por dentro o discurso de resistência, e não como sinal de derrota.
Vale a pena situar este episódio numa genealogia mais longa, porque a comparação é mais reveladora do que parece à primeira vista. Em 1989, o funeral do fundador da República Islâmica, o Aiatolá Khomeini, foi tão caótico que a multidão chegou a arrancar o corpo do caixão junto à sepultura, mas a sucessão já estava resolvida antes de a cerimónia começar, e o funeral serviu apenas para a consagrar publicamente.
Em 2020, o funeral do general Qassem Soleimani, morto por um ataque de drone norte-americano em Bagdade, mobilizou multidões em várias cidades iranianas e transformou um comandante militar em mártir nacional, mas Soleimani nunca foi chefe de Estado, e nenhuma questão de sucessão se colocava. O funeral de Khamenei é o primeiro dos três em que as duas variáveis coincidem: a escala de um chefe supremo e uma sucessão ainda por consolidar. É essa coincidência, mais do que a dimensão da cerimónia, que o torna singular.
No fundo, o funeral de Ali Khamenei confirma uma regra antiga da política internacional: os rituais fúnebres dos líderes carismáticos raramente são apenas cerimónias privadas de luto. São textos escritos para vários leitores ao mesmo tempo, cada um decifrando ali uma mensagem diferente: continuidade revolucionária para o povo iraniano, reafirmação de influência para os aliados regionais, um argumento simbólico num confronto com os Estados Unidos e Israel cujo resultado militar continua em aberto.
Mas para quem observa com mais distância, foi também, sem que o regime o tenha pretendido, um retrato da fragilidade doméstica que a encenação tentou esconder: uma sucessão por resolver, uma liderança cada vez mais militarizada e uma legitimidade popular que nenhuma multidão, por maior que seja, consegue por si só restaurar. Entre o luto e o poder, entre a devoção e o cálculo geopolítico, o Irão voltou a fazer da morte um instrumento de sobrevivência do Estado, o que é, talvez, o resumo mais preciso de toda a sua história pós-revolucionária.



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