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A Conferência começou com um apelo do Presidente para que o partido reconhecesse os seus erros e terminou com críticas internas à corrupção e à arrogância, pedidos de renovação e uma longa ovação quando Chapo prometeu combater os “frutos podres”. O Comité Central recebe agora as recomendações do encontro.
Daniel Chapo abriu a 11.ª Conferência Nacional de Quadros da FRELIMO a pedir ao partido que reconhecesse os erros, corrigisse o que não funciona e abandonasse práticas que deixaram de produzir resultados. Três dias depois, encerrou os trabalhos perante uma longa ovação, depois de anunciar uma “nova era” dentro da FRELIMO e endurecer o discurso contra membros associados à corrupção e à criminalidade.
Entre a abertura e o encerramento, a renovação deixou de aparecer apenas nas intervenções do Presidente. Quadros da própria FRELIMO reclamaram mudanças, questionaram comportamentos de dirigentes e defenderam maior espaço para as novas gerações. A Conferência não tomou decisões sobre a composição dos órgãos, mas levou essas questões para o debate que antecede o 13.º Congresso.
Uma das intervenções com maior repercussão foi a de Domingos Tivane, antigo director-geral das Alfândegas. Tivane falou de corrupção e arrogância, criticou a falta de coragem para apontar erros e pediu maior transparência quando dirigentes são afastados. Questionou também a actual Comissão Política e defendeu a entrada de mais jovens nos órgãos de direcção.
Os problemas levantados por Tivane não eram novos no debate público moçambicano. A diferença esteve no lugar onde foram expostos: uma Conferência Nacional de Quadros, perante dirigentes e militantes da FRELIMO. Chapo tinha pedido na abertura que os participantes discutissem o partido e o país sem evitar os problemas. No encerramento, afirmou que os intervenientes tinham falado de forma aberta e “sem filtros”.
Não respondeu directamente a Tivane nem anunciou alterações nos órgãos, mas retomou algumas das questões levantadas durante os trabalhos. Foi então que pronunciou uma das passagens mais aplaudidas do encerramento.
“Na FRELIMO não queremos corruptos. Na FRELIMO não há lugar para ladrões. Na FRELIMO não queremos traficantes de drogas. Na FRELIMO não há plateia para lambe-botas. Porque a FRELIMO não é santuário de criminosos”, declarou em tom firme.
Chapo acrescentou que a responsabilidade criminal deve ser individual e pediu aos cidadãos que denunciem comportamentos criminosos, mesmo quando envolvam membros da FRELIMO. A pertença ao partido, disse, não deve servir de protecção a quem cometa crimes.
Chipande levantou-se para aplaudir

Alberto Chipande, de 86 anos, estava entre os dirigentes que se levantaram durante a ovação a Chapo. A presença de uma das figuras históricas da FRELIMO entre os que aplaudiram coincidiu com uma parte do discurso dedicada precisamente à renovação.
Chapo procurou afastar a ideia de que renovar significa substituir uma geração por outra. Defendeu a combinação entre a experiência dos mais velhos e a vitalidade dos jovens e advertiu que uma organização que não introduz “sangue novo” corre o risco de parar no tempo. Tivane tinha defendido uma posição semelhante ao pedir mudanças na Comissão Política sem dispensar a experiência dos antigos dirigentes.
A Conferência não decidiu como será feita essa renovação. Chapo deixou, contudo, uma frase sobre as dificuldades que espera encontrar.
“Sabemos que alguns poderão tentar resistir, mas nós não vamos recuar”, afirmou, sem identificar os possíveis resistentes nem especificar as mudanças que poderão encontrar oposição. Disse, no entanto, que os interesses individuais ou de grupos não podem prevalecer sobre o bem-estar dos moçambicanos.
A declaração surge depois de três dias em que foram discutidas a renovação dos órgãos, a imagem dos dirigentes, a entrada de jovens e a conduta de membros do partido. Enquanto essas questões permanecerem no plano dos princípios, não permitem saber onde estará a resistência antecipada por Chapo. Isso começará a tornar-se mais claro quando chegarem as decisões.
Nos primeiros meses da Presidência, Chapo associou a ideia de “fazer diferente para alcançar resultados diferentes” sobretudo à governação. Em Chimoio, aplicou o mesmo princípio ao funcionamento da FRELIMO.
“Fazer diferente significa ter coragem para reconhecer aquilo que não está a funcionar, preservando aquilo que funciona. Significa corrigir aquilo que funciona mal e abandonar o que já não produz resultados”, afirmou.
No encerramento, acrescentou a imagem dos “frutos podres”. Comparou a FRELIMO a uma árvore e disse que, se nela existir algum fruto nessas condições, será preciso abaná-la “até que o fruto caia antes que contamine os frutos bons”. Advertiu, ao mesmo tempo, contra uma “caça às bruxas” e contra falsas acusações e afirmou que enriquecer não constitui motivo de suspeita quando a riqueza resulta de trabalho lícito, honesto e produtivo.
A palavra passa ao Comité Central

A Conferência Nacional de Quadros tem carácter consultivo. As suas conclusões e recomendações seguem para a sessão extraordinária do Comité Central, convocada para quarta-feira, 26 de Agosto, também em Chimoio. “O que foi debatido aqui não se pode transformar em letra morta”, disse Chapo.
O Comité Central terá de apreciar as recomendações antes da preparação das teses para o 13.º Congresso. Questões como a renovação dos órgãos, a participação dos jovens, a imagem dos dirigentes, a boa governação e a sustentabilidade do partido passam agora para essa fase.
Chimoio não decidiu quem sai ou quem entra na direcção da FRELIMO. Também não definiu que consequências internas terá a promessa de responsabilizar individualmente membros envolvidos em crimes. Mas deixou ambas as matérias expostas perante os quadros e colocou-as na agenda política do partido.
Chapo entrou na Conferência a pedir que a FRELIMO reconhecesse aquilo que precisava de mudar. Saiu depois de ouvir críticas feitas dentro do próprio partido e de receber uma longa ovação quando prometeu agir. Na quarta-feira, a discussão chega ao Comité Central. É aí que começa a parte que a Conferência, por ser consultiva, não podia fazer: decidir.



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