Crise no Reino Unido pode redefinir influência de Londres em África

ÁFRICA E MUNDO
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A saída de Keir Starmer do cargo de primeiro-ministro, anunciada em 22 de Junho de 2026, abre uma nova etapa na política britânica e poderá produzir efeitos para além das fronteiras do Reino Unido, incluindo na relação de Londres com África. A mudança ocorre num momento de crescimento económico reduzido, pressão sobre os serviços públicos, crise do custo de vida, imigração, perda de popularidade do Governo e crescente desgaste dos partidos tradicionais.

A chegada de Andy Burnham ao cargo de primeiro-ministro, em 20 de Julho, não representa, por si só, uma ruptura com a política externa britânica. Mas acontece num contexto em que o novo Governo terá de responder a problemas internos que poderão condicionar a capacidade de Londres para manter a actual dimensão dos seus compromissos internacionais.

O Fundo Monetário Internacional projecta um crescimento de apenas cerca de 1% para a economia britânica em 2026, num cenário marcado por preços da energia, condições financeiras restritivas e incerteza económica. O desempenho económico junta-se às dificuldades dos serviços públicos, aos problemas de habitação e ao debate cada vez mais polarizado sobre imigração.

A saída de Starmer é o resultado de uma acumulação de pressões políticas e económicas. O antigo primeiro-ministro chegou ao poder prometendo estabilidade depois de anos de turbulência política no Reino Unido. Contudo, encontrou uma economia com crescimento fraco, serviços públicos pressionados e uma sociedade marcada por fortes divisões.

Os resultados eleitorais desfavoráveis, a perda de popularidade e as divisões dentro do Partido Trabalhista acabaram por reduzir a margem política do Governo.

A mudança de liderança revela, assim, um problema que ultrapassa a figura de Starmer devido a dificuldade de qualquer Governo britânico em conciliar crescimento económico, controlo das contas públicas, manutenção dos serviços sociais e resposta às crescentes exigências de uma sociedade politicamente fragmentada.

A principal consequência da crise poderá ser uma concentração maior da agenda governamental nos problemas domésticos. Burnham terá de lidar com uma economia que cresce pouco, serviços públicos sob pressão, desigualdades regionais, habitação cara e um sistema político onde os partidos tradicionais enfrentam uma concorrência crescente.

Isso poderá afectar a política externa. Manter uma presença global exige recursos financeiros, diplomáticos e militares. Num período de maior pressão sobre as contas públicas, o Governo poderá ser obrigado a definir com maior rigor onde investir esses recursos e quais relações externas produzem maior retorno para o Reino Unido.

O Reino Unido mantém uma presença importante no continente africano através de empresas, instituições financeiras, universidades, programas de cooperação e instrumentos diplomáticos. A sucessão de crises políticas, económicas e sociais no Reino Unido começa a produzir uma questão que ultrapassa as fronteiras britânicas

No entanto, a crise britânica pode obrigar os países africanos a rever os termos das suas relações com uma potência que continua a dispor de capital, tecnologia, capacidade militar e influência diplomática, mas cuja margem de manobra externa está cada vez mais condicionada pelas suas próprias dificuldades internas.

Durante décadas, a ajuda ao desenvolvimento constituiu uma das principais ferramentas da influência britânica em África. A tendência poderá, contudo, caminhar para um modelo cada vez mais orientado para investimento, comércio, energia, minerais estratégicos e segurança.

A mudança não seria necessariamente provocada apenas pela chegada de Burnham. Trata-se de uma tendência mais ampla, associada às dificuldades orçamentais britânicas e à crescente competição internacional por África.

Para Londres, o continente representa mercados em expansão, recursos estratégicos e oportunidades de investimento. Para os países africanos, representa também uma possibilidade de atrair capital, tecnologia e conhecimento. A natureza da relação poderá,  portanto, tornar-se mais transaccional.

Essa realidade poderá contribuir para relações mais horizontais entre Londres e os seus parceiros africanos, com maior espaço para que os governos do continente avaliem diferentes modelos e diferentes fontes de cooperação.

Durante décadas, o Reino Unido apresentou-se como defensor de valores como democracia, boa governação, direitos humanos, estabilidade institucional, transparência económica e Estado de Direito.

Mas a crescente instabilidade política britânica abre espaço para uma pergunta incómoda: até que ponto os países que recebem recomendações sobre governação devem continuar a tratar as instituições britânicas como referência incontestável?

Uma análise recente do Chatham House sobre a relação entre Londres e África é particularmente reveladora. Num comentário publicado a 22 de Julho, dois dias depois de Burnham assumir o cargo, Tighisti Amare, directora do Africa Programme do instituto, defendeu que o novo governo britânico deve estabelecer objectivos claros para África, reforçar parcerias e adoptar uma abordagem mais coordenada.

Mas a análise contém uma mudança importante de perspectiva: África deve deixar de ser vista primordialmente através da lente da ajuda ao desenvolvimento e passar a ser encarada como espaço político, económico e estratégico próprio.

O Chatham House aponta comércio, investimento, financiamento de infra-estruturas, energia, minerais críticos, tecnologia, educação e cooperação institucional como áreas nas quais o Reino Unido ainda pode oferecer vantagens.

Ao mesmo tempo, o instituto alerta para uma fragilidade que interessa directamente aos países africanos: os planos britânicos de redução da ajuda bilateral poderão significar uma redução de 52% da ajuda regional à África nos próximos três anos, segundo a sua análise.

África num mercado global de parceiros com mais opções

A possível redução da margem britânica acontece, entretanto, num momento em que África dispõe de um número crescente de parceiros. China, Rússia, Índia, países do Golfo, Turquia, Brasil, Estados Unidos e União Europeia disputam espaço em sectores como energia, mineração, infra-estruturas, agricultura, tecnologia e defesa.

A competição tende a aumentar à medida que os minerais críticos africanos ganham importância para a transição energética e para as novas tecnologias.

Neste cenário, a crise britânica poderá ter um efeito indirecto importante ao obrigar Londres a competir pela influência africana num espaço onde já não possui a mesma exclusividade histórica.

Os países africanos terão, por sua vez, mais possibilidades de comparar propostas e negociar com diferentes parceiros. A questão central deixará progressivamente de ser a origem histórica do parceiro e passará a ser o que cada relação produz em termos de investimento, emprego, industrialização, transferência de tecnologia, acesso a mercados e receitas para os Estados.

África precisa de transformar recursos em poder de negociação

O Institute for Security Studies (ISS) chega a uma conclusão que reforça precisamente esta necessidade. Num debate sobre as relações euro-africanas realizado em Julho, o instituto destacou que a competição geopolítica pelos minerais críticos está a redefinir as relações entre Europa e África. O desafio, segundo a análise, é alinhar os interesses europeus de acesso a matérias-primas com a ambição africana de obter maior valor acrescentado doméstico.

Isto significa que o debate não deve ser simplesmente sobre quem investe em África, mas sobre o que África obtém em troca dos seus recursos. Minérios de transição energética, gás, petróleo, terras raras, cobre, cobalto, grafite e outros recursos estratégicos estão a transformar o continente num espaço de competição internacional.

A influência britânica já não é incontestável. O ISS observa que o Reino Unido e a França podem ser vistos cada vez mais como “potências residuais” relativamente às grandes mudanças na distribuição global de poder, à medida que o peso relativo dos Estados Unidos, China e de novas potências emergentes aumenta.

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