Da África Ocidental ao Índico: França reposiciona influência militar e levanta receios na África Oriental

ÁFRICA E MUNDO
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  • Recuo no Sahel coincide com aproximação estratégica a Nairobi
  • Paris estaria a procura de uma nova fronteira para preservar seu peso geopolítico?

Depois de décadas a exercer uma influência política e militar quase incontestável nas suas antigas colónias da África Ocidental, a França parece estar a redesenhar o mapa da sua presença no continente. À medida que cresce o sentimento anti-francês e vários países do Sahel encerram um ciclo de cooperação militar com Paris, os sinais apontam para uma crescente aposta francesa na África Oriental, uma região que se tornou estratégica num contexto de competição geopolítica cada vez mais intensa.

A retirada das tropas francesas do Senegal, encerrando uma presença militar de 65 anos naquele país, simbolizou o fim de uma era e confirmou o enfraquecimento da influência de Paris na África Ocidental. O mesmo fenómeno já havia sido observado no Mali, Burkina Faso e Níger, onde governos militares romperam acordos de defesa e expulsaram forças francesas, alegando a necessidade de reafirmação da soberania nacional.

Perante este cenário, observadores internacionais consideram que a diplomacia francesa procura abrir uma nova frente de influência, desta vez em direcção à África Oriental, região menos marcada pelo passado colonial francês e que possui crescente relevância económica e estratégica. A realização, pela primeira vez, de uma cimeira França-África num país não francófono, o Quénia, foi vista por analistas como um sinal inequívoco dessa mudança de paradigma.

Foi também em Nairobi que os presidentes Emmanuel Macron e William Ruto aprofundaram os entendimentos bilaterais em matéria de defesa e segurança. Embora as autoridades quenianas tenham negado a instalação de uma base militar francesa, confirmaram a existência de um acordo de cooperação militar entre os dois países, numa altura em que circulam informações sobre o destacamento de centenas de militares franceses para território queniano.

A crescente aproximação entre Paris e Nairobi suscita, contudo, interrogações em diversos círculos académicos e estratégicos africanos. Há quem tema que, sob o discurso de reforço da cooperação e da promoção da estabilidade regional, esteja em curso uma reconfiguração da presença militar francesa no continente, transferindo o seu centro de gravidade do Atlântico para o Índico.

“A França procura manter-se economicamente e politicamente relevante em África”, observou Jervin Naidoo, analista da Oxford Economics, citado pela Reuters, numa leitura que reflecte o entendimento de que Paris está empenhada em preservar a sua influência num continente onde enfrenta concorrência crescente de potências como a China, a Rússia, a Turquia e os países do Golfo.

Mas é no domínio da segurança que as maiores apreensões se fazem sentir. Nos países do Sahel, sectores políticos e militares acusaram repetidamente a França de falhar no combate ao terrorismo e, em alguns casos, chegaram mesmo a sugerir a existência de relações ambíguas entre actores externos e grupos armados que operam na região. Embora Paris rejeite categoricamente essas acusações, o fracasso das operações militares francesas no Mali, Burkina Faso e Níger contribuiu para alimentar a desconfiança popular e precipitou o colapso da influência francesa na região.

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