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Alcinda Panguana: a menina de ouro do boxe moçambicano

Conheça a incrível história de como entra no boxe e sua relação com a sua companheira, Rady Gramane

O Boxe moçambicano voltou a escrever com letras garrafais mais uma página dourada nos anais da sua história. Alcinda Panguana e Rady Gramane mostraram, recentemente, mais uma vez o porquê de constarem no rol das melhores pugilistas do continente africano. Nesta edição, o Evidências traz uma parte da história de vida da Alcinda Panguana, atleta da Academia Lucas Sinoia e da selecção nacional de boxe, já com o visto carimbado para os Jogos Olímpicos de Tóquio.

Texto: Duarte Sitoe

Quando se fala da história recente do boxe moçambicano, em femininos, é inevitável o nome de Alcinda Panguane, uma jóia de casa que brilha em todos os palcos por onde passa.

Apesar de estar há 18 meses sem competir devido às restrições impostas pela Covid-19, Panguana arrasou, recentemente, no Campeonato Regionalda Zona III, havido na República Democrática do Congo, onde conseguiu vencer de forma categórica as suas rivais, tendo trazido para o país mais uma medalha de ouro.

Em entrevista ao Evidências, Alcinda Panguana, conta que apesar das dificuldades vivenciadas, falta de ritmo e diarreia nas vésperas do torneio, conseguiu fazer o pleno de vitórias no certame.

A pugilista da Academia Lucas Sinoia nasceu a 27 de Fevereiro de 1994, na Cidade de Maputo. Teve uma infância risonha e cheia de sonhos como qualquer criança naquela época. Brincava ao raiar do sol no bairro do Alto Maé, onde viveu antes de mudar para o bairro de Zimpeto.

Antes de ingressar na modalidade de boxe, Alcinda fazia apenas ginástica para manter a forma e ajudar uma das amigas, Rady Gramane, que estava com excesso de peso, para emagrecer.

Um convite do mestre Sinoia

Diz-se na gíria que “por trás de todo grande homem existe uma grande mulher”, mas para o sucesso da menina de ouro do boxe moçambicano há um dedo de um dos nomes mais incontornáveis do boxe moçambicano, Lucas Sinoia. Foi através do convite de Sinoia que Alcinda Panguana apaixonou-se pelo boxe.

A Rady era obesa e fazia ginástica para poder reduzir o corpo. Eu ia sempre lhe fazer companhia. Foi quando nos cruzamos com Lucas Sinoia, figura que dispensa qualquer tipo de apresentação. Ele pediu-nos que fizéssemos parte da escola de boxe em 2012. Prontificou-se a ajudar a Rady a perder mais de 15 quilos num intervalo de três meses e aceitamos o desafio. Começamos no dia 14 de Fevereiro e em menos de três meses ela havia perdido mais que 10 quilos. Ele cumpriu com a sua palavra e nós com a nossa, foi assim que entramos no boxe”.

Nos primeiros meses, Alcinda Panguana limitava-se às aulas teóricas, enquanto era preparada para lançar e esquivar golpes das rivais. “Ao entrar claramente tínhamos medo, mas o treinador estava sempre por perto para nos tranquilizar. Não foi logo que entramos na academia que começamos a trocar socos. Primeiro foi a teoria e depois seguiu-se a prática”.

O boxe é uma modalidade considerada por muitos como violenta devido à troca de socos. Mas para quem já está acostumada a lançar, esquivar e, por vezes, amortecer os golpes das adversárias é uma modalidade igual às outras.

“Acredito que todas modalidades são agressivas, uma vez que tem os seus entorses e suas lesões. O boxe torna-se agressivo porque é contacto directo, é um golpe aqui e acolá, mas com andar do tempo aprendemos como amortecer o golpe assim como atacar a adversária. Temos protecção da cara, dos dentes e dos seios. Aprendemos que temos que esquivar para nos defender, não é muito agressivo porque temos as bases para nos defendermos das investidas das nossas adversárias”, desmistificou Panguana.

Para ser uma campeã respeitada a nível nacional e internacional, Panguana fez a primeira luta com a sua companheira, Rady Gramane. “Num belo dia, depois dos treinos pedimos ao treinador para competir. Ele sugeriu um frente a frente entre mim e a Rady Gramane. Não foi fácil escolher quem saiu vencedora porque foi um combate renhido e no final de tudo prevaleceu o espírito de fair-play”.

A medalha de ouro nos jogos no Regional da Zona III

O grosso dos dirigentes moçambicanos gerem as federações de forma selvagem, contudo, mesmo com a desorganização organizada que caracteriza o país em várias esferas, há modalidades que conseguem mostrar que vale a pena continuar a sonhar com altos voos nas competições internacionais.

Uma delas é o boxe, que, desde a entrada do Gabriel Júnior, tem vindo a carregar o nome do país a vários níveis, desmentindo, com obras e títulos, quem um dia o chamou de “pára-quedista”.

Na República Democrática de Congo, depois do brilharete nas qualificações para os Jogos Olímpicos, Moçambique voltou a provar que é um dos países a ter em conta quando se fala do boxe feminino.

Mesmo sem ritmo competitivo, o talento das moçambicanas veio ao de cima naquele certame, ou seja, atropelaram, de forma categórica, todas as adversárias que lhes apareceram pela frente.

Alcinda Panguana considera que, apesar de todas as dificuldades, o foco nos objectivos traçados para aquela competição fez com que Moçambique conquistasse as duas medalhas de ouro.

“As dificuldades que enfrentamos são as mesmas dos outros atletas. Estivemos um ano e meio sem competições. Parecíamos estreantes na modalidade. O boxe é uma modalidade que precisa da consistência e treinos todos os dias. Se ficas muito tempo sem treinar acaba tendo medo dos próprios golpes. Tivemos medo do ringue e dos próprios adversários, mas felizmente conseguimos superar e trouxemos medalhas. É gratificante para mim e toda a família do boxe ter conquistado a medalha de ouro. Quando temos foco em alguma coisa e alcançamos os resultados temos que nos sentir contentes porque trabalhamos para isso”.

As modalidades de elite tidas como prioridades pelo actual regime continuam a trazer ano pós ano dissabores aos moçambicanos, apesar das avultadas somas de dinheiro que são investidas. A atleta da Academia Lucas Sinoia põe-se à margem deste debate

 “Como atleta preocupo-me mais com a minha performance, ou seja, treinar e competir de modo a trazer troféus para o país, mas é visível que nos faltam apoios. Quando saímos para fora sentimos, mas com pouco conseguimos trazer medalhas. No boxe não falamos dos outros. Trabalhamos com as condições que temos para trazer resultados com o pouco que temos. Mostramos no ringue que podemos ser uma modalidade de elite tal como as outras”, afiançou.

Um sonho quase cumprido

Os Jogos Olímpicos são a maior competição a nível planetário e fazer parte da prova, seja por mérito próprio ou convite da solidariedade olímpica, é sonho de qualquer atleta. Quando faltam seis meses para o arranque daquela prova que reúne todos países do mundo, Moçambique apenas só tem três atletas apurados e, por sinal, todas do sexo feminino. Alcinda Panguana é uma delas.

“Quando me iniciei no boxe perguntaram qual era o meu sonho, mas partindo de antemão que é sonho de qualquer atleta ir aos Jogos Olímpicos, disse que queria também marcar presença e caso surgisse uma oportunidade ia a agarrar com duas mãos. Fiz valer a minha palavra e me qualifiquei na primeira oportunidade. Gostaria que outros atletas, sobretudo os do sexo masculino, conseguissem o apuramento para os jogos olímpicos. Tenho um amigo, o Juliano Maquina, que está na lista de espera para ser repescado. Estamos na torcida para ele ser repescado, porque quanto maior for o número, maiores são as possibilidades de trazer medalhas”, projecta.

Com a qualificação para os Jogos Olímpicos, Panguana cumpriu um sonho, todavia declara que o sonho ainda não está cumprido na totalidade, uma vez que pretende ir a Tóquio para lutar pelos lugares cimeiros.

“Queremos melhorar as nossas marcas e honrar as cores da nossa bandeira. Podemos não conquistar medalhas, mas queremos chegar aos quartos ou se possível às meias – finais. Nós vamos aos jogos olímpicos a pensar no pódio. As meninas do boxe querem o pódio. Vamos trabalhar para conseguir isso. Cumpri o sonho de me qualificar para as olimpíadas, mas não estou realizada porque falta ir a Tóquio realizar o meu sonho que é participar da prova e farei de tudo para dar o meu máximo”, afiançou.

Fora dos ringues

Alcinda Panguana, que também divide a sua carreira desportiva com os estudos, estando no presente a frequentar o primeiro ano de licenciatura em administração pública, fora dos ringues é uma mulher normal. Nos tempos livres gosta de conversar com os amigos e soltar gargalhadas.

Considera-se uma comilona, uma vez que come tudo que lhe aparece pela frente excepto as carnes vermelhas. Nos momentos tristes tem o colo da sua tia, Sofia Panguana, que está sempre disposta a lhe dar conselhos.

Refira-se que, para além da qualificação para os Jogos Olímpicos e da medalha de Ouro no Campeonato da Zona III, Panguana, que condena com veemência os ataques a cidadãos indefesos em Cabo Delgado e deseja que tudo volte à normalidade o mais rápido possível, conta até ao momento com mais de uma dezena de medalhas conquistadas nas provas nacionais e internacionais.

 

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