Funcionários da Tmcel denunciam atrasos recorrentes de salários

ECONOMIA SOCIEDADE
  • Fusão da TDM e Mcel não trouxe nem qualidade, nem sustentabilidade
  • Qualidade de serviços de dado, voz e até fixo deixam a desejar
  • Nalgumas províncias chega-se a ficar uma semana sem sistema

O início do processo de reestruturação e fusão das extintas empresas Telecomunicações de Moçambique (TDM) e a Moçambique Celular (Mcel) foi anunciado com pompa e circunstância, tendo sido apresentado como solução para resgatar as duas companhias que já se encontravam numa situação de insolvência, contudo, volvidos mais de dois anos, a empresa Moçambique Telecom (Tmcel) está longe de ser sustentável e moderna como nalgum momento foi avançado. Antes pelo contrário, a empresa vive numa constante crise de balança, a ponto de há cerca de um ano não conseguir pagar salário a tempo e horas. A título de exemplo, em Dezembro passado, os trabalhadores só receberam salário no dia 31 e o salário deste mês, que devia ter “caído” no passado dia 20 está largamente atrasado e os dirigentes têm feito circular informações de que só será pago depois do dia 10 de Fevereiro, depois da facturação.

Reginaldo Tchambule

Determinada pelo Conselho de Ministros em 2016, a fusão da  TDM e da Mcel foi fundamentada pelo governo com a necessidade de salvar as duas empresas estatais que estavam à beira da falência por falta de sustentabilidade e com elevadas dívidas. Com efeito, as duas, quase “defuntas”, passaram a partilhar recursos financeiros, tecnológicos e humanos da gestão empresarial e de instalações.

Coube a Mohamed Rafique Jusob a missão de gerir o que sobrou de duas empresas obsoletas e uma massa laboral de mais de dois mil trabalhadores, dos quais 350 aderiram ao programa de reforma antecipada, apresentando-se como tendo foco no Cliente, Integridade, Inovação, Excelência, Boa Governação e Sustentabilidade.

No entanto, a sustentabilidade que foi a causa da morte das duas anteriores empresas continua muito longe de ser alcançada e a qualidade dos serviços, essa, deixa muito a desejar, sobretudo nas províncias. Na semana finda, chegou ao país o equipamento que era esperado para a segunda fase do processo de modernização, mas enquanto não avança há muitos motivos para dissabores, tanto para os clientes como também para os próprios colaboradores da Tmcel.

Há quase um ano que os trabalhadores vivem com os cintos apertados e sempre com contas a acertar com agiotas devido a recorrentes atrasos de salários. Antes da fusão os funcionários da Tmcel recebiam no dia 20 de cada mês e sem atrasos, contudo, após a fusão houve necessidade de estabelecer-se novas datas.

Em mútuo acordo entre os trabalhadores e o Conselho de Administração determinou-se que o salário passaria a ser pago de 22 a 28, o que nunca foi cumprido. Sem nenhuma comunicação formal, os salários chegam sempre atrasados, o que está a deixar os trabalhadores bastante agastados com a direcção da empresa.

A comunicação do atraso é feita de forma oral, do topo para a base, sempre com a indicação de não deixar o assunto atravessar as paredes da empresa. Foi assim, até que os trabalhadores chegaram ao cúmulo de passar o dia de natal sem o sacrossanto salário. Inconformados, pressionaram a direcção e só receberam os seus ordenados no dia 31 de Dezembro.

“Todos os meses o salário atrasa e não estamos a ser comunicados por escrito. O chefe fala para o subordinado e o subordinado transmite ao seu subordinado, assim sucessivamente. E o receio é de conversarmos com alguém e o assunto ir à media. Já não dá gosto trabalhar nesta empresa. Há outros que chegam a receber no dia 20 do mês seguinte”, relatou  

Enquanto não havia dinheiro para pagar salários para proporcionar festas condignas para os colaboradores, os membros do Conselho de Administração estavam de férias fora do país com contas pagas e todos os subsídios acautelados.

“A gestão de topo consegue ir de férias, deixando-nos à nossa sorte. Passamos o natal em branco e ainda não voltaram. Nós que estamos aqui não conseguimos comprar nem uniforme escolar, pastas e cadernos para os nossos filhos por falta de salário. Vivemos de dívidas para podermos sustentar as nossas famílias”, lamenta.

Uma mensagem de indignação partilhada em Dezembro escancarou o problema de falta de sustentabilidade em que se encontra mergulhada a empresa Tmcel.  

“É com muita estranheza que recebemos uma mensagem do Sr PCA transmitindo aos trabalhadores a seguinte mensagem: ‘Reiterámos, mais uma vez, os votos de festas felizes e tranquilas junto das nossas distintas famílias e demais entes queridos. Como isso será possível, pois hoje, dia 23/12/2021, ainda não recebemos os salários, iremos ter festas felizes com panelas vazias, sem podermos dar um presente aos nossos filhos que tanto os amamos? Por outro lado, num período difícil financeiro que a empresa está passar, para além do Sr PCA estar de férias lhe seguiram o DE Operacional e DE Comercial. Que mensagem queremos passar? Por acaso existirá outras agendas que nós os trabalhadores não sabemos? Que compaixão estamos a ter com os trabalhadores de uma Empresa que desde da sua criação nunca tinham passado momentos dramáticos como esses?”, indaga um quadro da empresa, identificado no e-mail por Pedro Pacheco.

Reina uma desmoralização total

O que deixa os trabalhadores revoltados é o silêncio do Conselho de Administração, o que gera uma grande incerteza. E a incerteza vem sempre com mais consequências. É que muitos trabalhadores têm letras nos bancos e devido aos atrasos tiveram que reprogramar o dia de salário, mas mesmo assim o salário, por vezes, chega no dia 20 do mês seguinte, e os bancos não perdoam.

“Nós que temos letra nos bancos, mensalmente somos obrigados a pagar juros pela demora. É um sofrimento daqueles que a pessoa diz: ‘vou pedir demissão’ e vou ver o que acontece lá fora, porque nós é que saímos a perder. Não sentimos a vantagem desta fusão. Isto só satisfaz o ego dos políticos que de quando em vez vem aos medias mentir para o povo”, desabafa, destacando que a empresa está a perder grandes quadros por falta de competitividade no mercado.

Há trabalhadores que têm consultas médicas marcadas para tratarem de sua saúde em clínicas especializadas, mas não o podem fazer por falta de salários. A assistência médica e medicamentosa da empresa agora é coberta por clínicas de hospitais públicos de referência, que muitas vezes não oferecem todos os tratamentos de que necessitam.

Os trabalhadores falam de uma desmoralização total, não só pelos constantes atrasos dos salários, como também pela qualidade dos serviços que prestam ao cliente. Um dos problemas recorrentes, sobretudo nas províncias, tem sido falhas de sistema.

“Qual é a motivação que temos para sempre responder ao cliente que não tem sistema de segunda a sexta? Para nós gerirmos os serviços móveis e fixos precisamos de ter a aplicação funcional e ela depende da existência do sistema, o que significa existência de internet e a fibra óptica a funcionar”, diz uma das fontes, dando a entender que a rede continua um autêntico caos, apesar de ser dona da fibra óptica e provedor de internet até para os países do interland.

Empresa justifica-se alegando atrasos na facturação

Das poucas vezes que os trabalhadores conseguiram uma resposta do Conselho de Administração sobre a crise, ainda que de forma informal, a justificação sempre foi de atraso de facturação.

No último mês de Janeiro, para além da queixa de atraso na facturação, o Conselho de Administração justificou alegando elevados custos de importação de equipamentos da segunda fase de modernização da rede que já se encontram em solo pátrio.

Dito de outra forma, equivale dizer que a Tmcel é uma empresa que vive no limiar da sustentabilidade, que quando se tira um dinheiro para uma despesa compromete-se até os pagamentos de salários do mês, a empresa está numa situação de incapacidade.

Entretanto, os trabalhadores estranham o facto da empresa estar em incumprimento, detendo ainda alguns negócios em que opera em regime de monopólio, como é o caso dos serviços de internet banda larga, internet dedicada e telefonia fixa, serviços dos quais um dos maiores devedores é o Estado.

Ademais, a Tmcel tem clientes grandes, não só em Moçambique, como também para outros países como a Suazilândia e Tanzania, que certamente pagam pelo serviço de transporte de fibra óptica. Por essa razão, os trabalhadores suspeitam que a empresa não tenha deixado de ser um saco azul do partido no poder.

Problemas graves de investimento

Neste momento, a Tmcel tem uma das mais instáveis redes de telefonia móvel e de tráfego de dados no país.  Nalgumas províncias, há bastante tempo que o serviço de telefonia da rede fixa, que era um dos core business da TDM, não funciona, o que gera transtornos aos clientes. As delegações estão, neste momento, com problemas de equipamentos para reparar pequenas avarias.

“O que me deixa triste como profissional é a questão da própria qualidade de rede. Desde a 5ª feira antepassada a qualidade da rede móvel é péssima. Isso mostra claramente que não houve melhoria. Devíamos ter melhorias para mostrarmos que valeu a pena a fusão”, sublinha uma outra fonte.

A fonte revela que a estrutura herdada da extinta TDM é bastante obsoleta e nalguns casos com tecnologia descontinuada.

O Evidências tentou sem sucesso ouvir uma fonte do Conselho de Administração. À última hora, fomos informados que os dirigentes ainda estão de licenças de férias. Continuaremos a envidar todos os esforços para ouvir a versão da instituição, sobre a crise financeira que abala a empresa, os recorrentes atrasos de salários e os problemas técnicos que comprometem a qualidade de serviços.