Assédio sexual nas instituições de ensino continua a fazer vítimas no silêncio

SOCIEDADE
  • Apesar de haver mecanismos de denúncia

Estudos mostram que uma percentagem significativa de alunos/estudantes, de pais e mesmo de professores não consideram o assédio sexual como um problema e que há baixo conhecimento sobre a base legal e das instituições que combatem o assédio e a violência sexual ao nível da comunidade escolar, incluindo professores. Esta situação faz com que as vítimas deste tipo de crime tenham medo de denunciar, entrem em depressão e em casos mais graves desenvolvam certas fobias, desistam de frequentar lugares onde terão contacto presencial com os assediadores ou cometam suicídio.

Neila Sitoe

Um estudo sobre Assédio Sexual nas Escolas realizado pelo Movimento Educação para Todos (MEPT), em 2019, mostrou que embora o Governo esteja a implementar políticas no sector da educação, com vista a aumentar a participação da rapariga na escola, prevalece o desafio de assegurar a retenção desta na escola, sendo o assédio uma das maiores causas da desistência. A situação verifica-se em todos os níveis de ensino, ou seja, do primário ao superior.

Alice Moisés, estudante do curso de Administração Pública na Universidade Eduardo Mondlane, diz ter sido assediada pelo seu professor quando estava no terceiro ano, o que fez com que visse seus colegas a graduarem enquanto continuava retida no terceiro ano devido as duas cadeiras que o professor lecionava.

“A minha carreira estudantil estava muito boa no primeiro e segundo ano, mas quando aprovei para o terceiro ano tudo começou a mudar. No primeiro semestre do terceiro ano tive uma cadeira com um docente que só de ouvir o nome dele fico de mau humor, tudo começou quando mandou-nos para fazer um trabalho em grupo, fizemos e no momento da apresentação eu e meu colega fomos defender o trabalho, no fim da aula chamou-me e disse que gostou de mim e queria ser meu amante, porque ele é casado. No mesmo instante recusei e fui-me embora”, afirmou.

Depois daquele dia, as perseguições pioraram e a cada dia que tivesse aulas com o docente era como se estivesse a ir para uma sala de tortura, visto que o mesmo já fazia questão de trata-la mal na sala de aulas e nas saídas sempre a procurava para manifestar os seus desejos, e não sabe como ele conseguiu o seu contacto, mas já enviava mensagens e vídeos pornográficos mesmo durante as aulas.

“Não sei como ele teve o meu número de celular, certo dia, durante a aula, recebo uma mensagem dele a dizer que devemos nos encontrar no estacionamento para ele levar-me para casa, não respondi. Depois de um tempo começou a enviar vídeos pornográficos a dizer que se eu ficasse com ele assim seriam as nossas relações sexuais, muito intensas. Bloqueei o contacto dele, mas depois contactava-me com outro número”, revelou.

Alice diz que de tanto estar cansada decidiu contar para a sua mãe, mas esta não fez jus ao caso, contou a uma colega de turma, mas ela também não deu muita importância. Um tempo depois passou a não ter vontade de frequentar as aulas do docente, mas não tinha escolha. No final do semestre reprovou, não só aquela disciplina, mas as outras, no semestre seguinte também reprovou a disciplina do docente e mais duas de outros docentes.

“Já não tinha vontade de ir à faculdade, já não me dedicava aos estudos porque o docente já tinha me dito que iria reprovar todo o terceiro ano, e praticamente foi o que aconteceu. Fiquei muito triste e decidi dar uma pausa nos estudos enquanto procurava ajuda na igreja, porque já não conseguia dormir, tinha sonhos com o docente a violar-me. Mas nunca cheguei a denunciar por medo, voltei a faculdade depois de ter ficado um ano sem estudar e mentia para a minha mãe que estava a estudar, só que ela descobriu quando dois anos depois um dos colegas que era meu vizinho graduou e eu não”, lamentou.

“Quando perguntei a razão de sempre me excluir, disse-me que eu sabia porquê”

Quem também foi vítima de assédio sexual é Matilde Costa (nome fictício), de 35 anos de idade, estudante do quarto ano do curso de Relações Públicas na Escola Superior de Jornalismo, que diz ter sido assediada pelo seu professor desde o primeiro mês que ingressou para a universidade.

“Primeiramente, começou por dizer que o meu corpo é muito bonito e dizia que seria um sonho ele ter-me como esposa. Não levei muito em conta, pensei que fosse uma brincadeira, mas depois descobri que estava a ficar sério porque nos intervalos das aulas sempre chamava-me para questionar se eu era casada ou se tinha namorado. Respondi-lhe que era casada, mas isso não o deteve, porque a perseguição a cada dia aumentava”.

Segundo Matilde, o docente começou a pressionar para que ela saísse com ele para passear em restaurantes, hotéis e demais lugares, mas ela nunca cedeu. O que começou a afectar a sua carreira estudantil.

“Logo no primeiro semestre do primeiro ano excluí a cadeira dele. Pensei que eu é que fosse a problemática e não tivesse me dedicado o suficiente, mas no segundo semestre tive outra cadeira com ele, voltei a excluir e comecei a estranhar, quando fui perguntar a razão de eu não chegar ao exame disse-me que eu sabia o porquê e que a solução estava em minhas mãos, não cedi, e totalizavam duas cadeiras dele que excluí. No ano seguinte voltei a fazer a cadeira que excluíra no ano anterior, mas com outro docente, e aprovei, infelizmente no segundo semestre voltei para fazer a outra cadeira que excluí e encontrei o mesmo docente, e sem nenhuma piedade excluiu-me pela terceira vez. Fiquei sem chão, pensei em ceder ou em desistir”, revelou.

“Não vemos a necessidade de denunciar alguém que se acha dono da escola”

A fonte conta que todas as cadeiras que o docente leccionava ela sempre excluía, decidiu voltar a falar com ele sobre o assunto da sua exclusão e ele mais uma vez disse que a solução estava nas mãos dela, mas não cedeu. Mais tarde descobriu que não era a única que passava por aquela situação e juntamente com duas colegas que também eram vítimas do mesmo professor decidiram reportar o caso.

“Fomos falar com o director pedagógico e ele disse-nos para fazer uma carta a denunciar, não o fizemos, porque não víamos a necessidade de denunciar alguém que se achava dono da escola. Um tempo depois foi retirado do ensino superior e passou a leccionar no ensino médio, mas correm rumores de que no médio continua com o mesmo comportamento. Quem nos salvará deste doente?”, questionou.

Quem também foi vítima de assédio, mas se precaveu logo de início, foi Carla Machango (nome fictício), licenciada em Literatura Moçambicana pela universidade Eduardo Mondlane, que em 2015, quando culminava a licenciatura, foi assediada sexualmente pelo seu docente, que também era o supervisor da sua monografia.

“Estava a fazer o trabalho de culminação do curso quando o docente começou a assediar-me quando fosse para corrigir a monografia, veio com conversas de que gostava de mim, sendo que durante as aulas nunca tinha me dito tal coisa, perguntei porque é que o tal interesse só manifestou assim que é meu supervisor, disse que não se relaciona com estudantes durante o curso, mas sim no fim do curso porque assim evita muitos constrangimentos”, relata.

Carla diz que contou para o seu namorado que o aconselhou a guardar todas as mensagens que o docente enviava e a gravar sempre que tivesse uma conversa com ele, para que servisse de prova no caso de denúncia.

“Certa vez tentou me beijar enquanto corrigia-mos algo na monografia, e eu o avisei que não estava ali para isso e que devia me respeitar, graças a Deus parou com esses comportamentos. Tive receio que pudesse reprovar a minha monografia, o que não aconteceu”, sublinha.

Carla aconselha as raparigas e mulheres que são assediadas sexualmente a denunciarem, apesar de achar que os gestores escolares não dão muita atenção ao assunto.

“O assédio traz consequências negativas na vida de quem passa por ela”

Para o psicólogo Nilton Chiziane, o assédio sexual nas instituições de ensino é um problema que deve ser dado importância devido à sua prevalência e afecta todas as escolas, todos os meios ambientes e traz consequências negativas na vida de quem passa por tal situação, mas infelizmente ainda é um desafio falar do assédio sexual nessas instituições no país.

“As vítimas de assédio sexual, sentem-se desmotivadas para se fazer ao recinto escolar e para aprender, têm problemas em se relacionar com outros estudantes e se as agressões forem repetidas de maneira relativamente longa as vítimas estão propensas a ter insucesso escolar, e por vezes há o risco de desistirem da escola, desenvolvem sentimentos negativos, podendo chegar à fobia escolar”, explicou.

Segundo o psicólogo, as vítimas de assédio apresentam mais frequentemente problemas somáticos, tais como desequilíbrios alimentares, distúrbios do sono e dores abdominais, sentimento de culpa, injustiça, impotência, agressividade, solidão, perda de memória, dificuldades de concentração, irritabilidade, nervosismo excessivo, maus sonhos, pesadelos, medos.

“Socialmente, as vítimas sentem-se humilhadas e degradadas perante a família e a sociedade, e em casos mais graves podem cometer suicídio”, alerta o especialista.

O psicólogo aconselha as vítimas a denunciarem porque existem alguns mecanismos institucionais criados para prevenir o abuso e assédio sexual no contexto escolar.