Alexandre Chiure
Já escrevi, neste espaço, que, há 22 anos, um dos meus patrões da época perguntou-me de que lado eu estava. Queria saber, nessa altura, qual era o meu partido político. No fundo, segundo ele próprio, pretendia obter um esclarecimento, pois pairava a informação de que eu era da Renamo.
Na ocasião, respondi-lhe que eu estava do lado da verdade. Não entendeu o alcance da minha resposta. Insistiu. Colocou a pergunta de outra forma, ao que lhe disse que não pertencia a nenhuma formação política. Fui investigado e, não tendo havido provas da minha militância naquele partido, o processo ficou arquivado.
Na verdade, ele queria decidir a quem entregar o convite que trazia nas mãos para participar num jantar da bancada da Frelimo na Assembleia da República. Por uma questão de segurança e para não desconfortar os camaradas, preferiu indicar um colega sobre quem ele tinha a certeza em relação ao seu alinhamento político.
Por que é que levanto, de novo, este assunto? É que sinto que devo responder, outra vez, a esta pergunta para limar algumas arestas. É que há arruaceiros que andam a espalhar o boato segundo o qual eu sou do MDM, e até dizem “cuidado com ele, não é nosso. É da oposição. É do MDM”.
Outros acusam-me, novamente, de ser da Renamo. Um amigo meu segredou-me que o meu pecado é eu ter usado a frase “A vitória é certa!” no meu cartaz de campanha para secretário-geral do Sindicato Nacional de Jornalistas. Palavra de ordem que é atribuída ao partido de Ossufo Momade, o que é incrível.
Eu sou, simplesmente, um cidadão com ideias próprias, crítico e não um contra, livre de expressar o seu pensamento sobre a vida socioeconómica e política do país e preocupado com o bem-estar de todos. Na minha carteira, tenho bilhete de identidade, cartões de bancos, NUIT, carta de condução, livrete e mais nada. Não vão encontrar nela o cartão de um partido político. No meu coração está a minha família e o amor ao meu país.
Por não ser membro de nenhuma formação política, não tenho de prestar vassalagem a ninguém. Sinto-me bem na posição em que estou. Tenho amigos na Frelimo, Renamo, MDM e nos partidos extraparlamentares. Tomo o pequeno-almoço, almoço, jantar, ou lanche com qualquer deles sem precisar de me justificar ou pedir autorização.
Tenho as minhas razões para não abraçar a política neste momento. Quando chegar a altura, farei as minhas opções políticas. Por agora, não, é prematuro. É que os partidos não têm nada para me dar.
O que procuro, estas formações, infelizmente, não estão em condições de me proporcionar, nomeadamente um ambiente político em que as eleições são verdadeiramente livres e justas e ganham os melhores. Em que não é preciso comprar votos, ameaçar ou intimidar quem quer que seja para chegar ao poder.
Que todos quantos tenham perfil, por exemplo, para serem Presidente da República, presidente da Assembleia da República, governador, concorram livremente e sejam votados sem nenhuma manipulação e qualquer interferência em torno de questões tribais, regionalistas e raciais.
É que enquanto continuar-se a votar nas cores políticas e não em função da qualidade do manifesto ou do programa político, não vale a pena apostar, tão já, na política. Enquanto a renovação de mandatos como presidente do município, e não só, continuar a premiar a incompetência de alguns e não os que foram melhores servidores públicos, dificilmente me tornarei político.
Enquanto, em alguns casos, ser membro de um partido político pode significar a perda de regalias, cargos de chefia, promoção ou ter uma vida bloqueada, sofrer perseguições, ameaças ou intimidações, falar o que te mandam dizer e não o que pensas, não me interessa entrar na política. Prefiro ficar no meu canto. Não teria coração para isso, ainda que o mandasse blindar.
Enquanto os processos eleitorais moçambicanos não forem transparentes e terminarem sempre em conflitos que, num passado recente, levaram ao retorno à guerra, no lugar de aceitação dos resultados e com um abraço entre os actores políticos, não é oportuno emprestar a minha imagem à política.
Como resultado de todas estas fraquezas, prefiro ostracizar-me. O melhor é continuar a ser o que sou. A fazer o que faço. A exercer a cidadania, preenchendo o vazio deixado pelos partidos da oposição que, vezes sem conta, se eximem das suas responsabilidades como opositores do regime do dia.
Tenho de esperar sentado e a rogar a Deus para que me dê mais anos de vida para poder testemunhar dias melhores na política moçambicana, em que eu possa dizer que vale a pena passar os meus últimos dias de vida fazendo política pura.
Digam que não gostam de mim. Não me vou ofender. Digam que não se simpatizam com a minha forma de ser e estar, com a frontalidade, isenção e imparcialidade com que abordo os assuntos. Vou compreender-vos. Digam, se for o caso, que não gostam do meu sentido crítico. Saberei respeitar a vossa opinião. Mas deixem de me conotar com partidos políticos. Parem de tentar assassinar o meu carácter.

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