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O fim do mundo que eu temia

Alexandre Chiure

Quando criança, passei por momentos de muita tristeza e medo ao saber de alguém adulto que um dia o mundo iria acabar. Isso significava, para mim, que todos desapareceriamos de uma vez, incluindo edifícios, públicos e privados, hospitais, escolas, bens de equipamento e outros meios.

Já crescido e com capacidade de interpretar ou analisar alguns fenómenos, entendi que cada pessoa tem o seu fim de mundo. Quando alguém morre. Não interessam as causas. Se foi por acidente de viação. Se foi assassinado. Se foi morte natural ou encontrou a morte numa guerra ou se foi por doença, é o seu fim do mundo.

Hoje, sou testemunho do fim de mundo do meu país, Moçambique. Quando um magistrado do Ministério Público solicita e recebe dinheiro para facilitar a soltura de um condenado em cumprimento de pena de prisão efectiva, em Manica, é o fim do mundo para o país.

Quando um magistrado do Ministério Público afecto à Procuradoria Provincial de Maputo solicita e recebe dinheiro para facilitar a entrega ilegal de uma viatura apreendida a um cidadão por irregularidades, é, sem dúvida, o fim do mundo.

Quando o governo do distrito de Dondo, em Sofala, é multado no valor de 400 mil meticais por roubo de energia para abastecer o seu edifício-sede e outros pertencentes ao mesmo, no lugar de este ser parte activa no combate a casos de género, é o fim do mundo.

Quando cinco funcionários dos serviços de migração na Beira são presos por suspeitas de facilitação do tráfico de drogas, associado ao terrorismo e a apreensão de uma viatura com equipamentos de comunicação de origem duvidosa, em troca de alguns cifrões, é o fim do mundo do meu país, Moçambique.

Quando num acto desses estão envolvidos alguns agentes do SISE a nível da província de Sofala, indivíduos que tem a função de defender o Estado moçambicano, é fim do mundo.

Quando agentes do topo dos Serviços de Informação e Segurança de Estado (SISE) engendram um mecanismo para defraudar o Estado moçambicano, em colaboração com bancos e empresas estrangeiros, envolvendo 2,2 mil milhões de dólares americanos, é o fim do mundo.

Quando agentes da PRM são detidos indiciados de liderar quadrilhas responsáveis por vários crimes que apoquentam centros urbanos, em particular a cidade de Maputo e arredores, alguns dos quais a comandarem a partir de dentro da corporação, estamos perante o fim do mundo. O mesmo em relação a agentes de segurança privada implicados em alguns crimes praticados nos seus locais de trabalho.

Quando jovens moçambicanos, sob capa de pobreza, aceitam ser recrutados, em Nampula e noutras províncias do país, para abraçarem uma causa duvidosa e destruirem o seu próprio país em nome de jihadistas, é o fim do mundo.

Quando alguém, movido por ganância e outros interesses individuais, faculta informação estratégica aos terroristas sobre a localização de bases militares das Forças Armadas de Defesa dde Moçambique, é sinónimo do fim do mundo para o país.

Tudo isto é, sim, o fim do mundo porque num mundo em que não se vislumbra o seu fim, não é possível uma pessoa normal facilitar a entrada de terroristas para desestabilizarem o seu próprio país a troco do pagamento de algum dinheiro. Não há dinheiro nenhum deste mundo capaz de comprar a pátria.

Significam, sim senhor, o fim do mundo porque não passa pela cabeça de ninguém que um procurador, o guardião da legalidade, do nada vire colaborador de criminosos, aceitando receber algumas ninharias para fazer coisas ilegais.

É fim do mundo para Moçambique quando alguns agentes do SISE, no lugar de garantirem a segurança do Estado, procuram defraudar esse mesmo Estado, o que é, no mínimo, muito grave.

É fim do mundo quando agentes de segurança privada, pagos para protegerem bens públicos e privados são os primeiros a montarem esquemas para roubar esses mesmos bens. Muitos deles já foram presos em conexão com roubos ou assaltos.

Com este fim do mundo, diferente daquele que eu achava que seria, que era o fim colectivo da vida das pessoas da minha aldeia, do país e do mundo inteiro, não se sabe quem é quem no país. Os níveis de confiança são bastante baixos. Hoje não se sabe a quem confiar.

Podemos, a qualquer momento, estar a jantar, conviver ou conversar com um criminoso sem sabermos. Podemos estar a passar informação importante a alguém que está feito com bandidos sem sabermos. Podemos ser amigos, vizinhos ou colegas de quem está ao serviço de criminosos sem saber.

Podemos confiar em pessoas que não deviam, nunca, merecer a nossa confiança e amizade porque são facas de dois gumes, sem saber. Podemos promover alguém para exercer algum cargo de responsabilidade quando é um dos que estão a vender a nossa pátria ao inimigo.

Na minha congregação, o responsável pelas finanças parecia um homem exemplar. Aos domingos, na missa, apresentava-se decentemente vestido, de fato e gravata, e com sapatos bem polidos, aparência que escondia a sua verdadeira face criminosa.

Um dia, ele surpreendeu à comunidade a que pertencia ao participar num assalto a um depósito de bebibas, no bairro de Benfica, na capital, onde ele e os seus comparsas roubaram dois milhões de meticais. O fulano, até hoje, está foragido.

É fim do mundo para o meu país quando é cada vez reduzido o número de pessoas que levam uma vida honesta e que, por elas, podemos pôr mão no fogo com a certeza de que são incorruptíveis.

Chegou o fim do mundo em Moçambique. É diferente daquele que eu temia quando criança, mas é, mesmo assim, o fim do mundo. Quem é que nos salvará desta situação?

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