Camaradas desactivam esquema de fraude nas internas em Maputo e Nampula

DESTAQUE POLÍTICA
  • Quando a cobra morde a própria cauda
  • Os resultados mudaram depois da recontagem de votos na província de Maputo
  • Em Nampula, o processo foi repetido 48 horas após suspeitas de viciação
  • Protestos de quem conhece as linhas com que se coze uma fraude vem de todos os cantos

Está instalada uma verdadeira confusão em vários círculos eleitorais do país devido à descoberta de um amplo esquema de viciação dos resultados das eleições internas da Frelimo que tiveram lugar entre sexta-feira e domingo em todo o país. Na província de Maputo, por exemplo, apòs se aperceberem de que o secretariado, em coordenação com a brigada central e a comissão eleitoral, tinha viciado os resultados, os camaradas protestaram de forma violenta e exigiram a recontagem dos votos, sobretudo na eleição dos candidatos a deputados da Assembleia da República, processo findo o qual descobriu-se que, afinal, os resultados estavam realmente viciados. Em consequência disso, as listas mudaram após a recontagem, pois descobriu-se que alguns candidatos que já estavam ao prantos haviam sido eleitos, mas as suas vagas tinham sido atribuídas a pessoas que não reuniram votos suficientes. Aparentemente havia ordens de cima para que certos nomes fossem eleitos a qualquer custo. O mesmo cenário viveu-se em Nampula, onde até ao fecho desta edição decorria uma repetição do escrutínio, cerca de 48 horas depois da eleição. Já em Gaza, os camaradas saíram dos murmúrios intramuros para as redes sociais e expuseram uma colossal fraude que culminou com uma suposta retirada de votos de uns para serem atribuídos a todos. É comum a oposição queixar-se de fraude, mas agora é a Frelimo a roubar a própria Frelimo e a ser exposta pelos seus próprios membros.

As eleições internas da Frelimo para a eleição dos candidatos a deputados da Assembleia da República e membros das Assembleias Provinciais que decorreram no último fim-de-semana em todo o país não foram nem livres, nem justas e muito menos transparentes, tendo nalguns casos terminado em escaramuças e contestação.

Em causa está o facto de ter se detectado e desactivado nalgumas províncias um esquema de viciação de resultados das eleições internas para favorecer alguns camaradas que não tinham conseguido votos suficientes para entrarem nas listas, sobretudo de candidatos a deputados da Assembleia da República.

Um dos casos mais flagrantes de viciação de resultados aconteceu na província de Maputo, onde, após o apuramento dos resultados, alguns membros do Comité Provincial, liderados por Edmundo Galiza Júnior e Faruk Osman, ao se aperceberem de que os resultados tinham sido alterados, decidiram contestar os resultados e exigir a recontagem de votos.

Tudo começou logo após a votação, por volta das 20 horas, quando a mesa decidiu convocar a todos para um longo interregno que durou até às 23 horas, altura em que apresentaram resultados fabricados, favorecendo uns em detrimento dos outros.

O secretariado até tentou resistir, mas os ânimos se exaltaram na sala e criou-se uma grande confusão. Diante das dúvidas que foram criadas pela contestação, a comissão eleitoral teve de anuir o pedido dos membros, perante um grande nervosismo do secretariado provincial e da brigada central de assistência à província de Maputo, liderada por Verónica Macamo, que queriam a todo o custo manter os resultados fabricados.

As ordens com a lista da fraude vieram de cima

Consta que para tentar amainar os ânimos e forjar um alinhamento, o presidente da mesa que dirigiu as eleições chegou a dar a palavra a Verónica Macamo, que tentou rechaçar a discórdia, entoando uma música revolucionária do partido, mas ninguém a acompanhava. Antes pelo contrário, os membros descontentes ficaram mais exaltados, enquanto um e outro camarada estava aos prantos por não ter conseguido.

Iniciou aí uma tentativa de negociação e chegou-se a colocar a possibilidade do processo ser interrompido para ser retomado no dia seguinte, mas os contestatários declinaram-se, exigindo que tudo fosse feito ali, mesmo que tal significasse dormir ali.

Foi nesse instante que começaram a circular, por volta das 23 horas, uma série de publicações nas redes sociais e na imprensa, denunciando uma suposta perturbação que estaria a ser movida por Galiza Matos e Faruk Osman, mas, afinal, aqueles camaradas estavam cobertos de razão.

Feita a recontagem que só terminou por volta das 05 horas do dia seguinte, os resultados vieram confirmar a suspeita, pois muitos camaradas que já estavam em festa por terem sido declarados vencedores começaram a cair, e muitos dos que eram dados como derrotados descobriram que, afinal, tinham sido eleitos.

Por exemplo, na lista dos homens, a primeira contagem dava vitória a Faustino Uamusse, mas não havia passado, pois na recontagem quem ganhou foi Pedro Coffe. Na lista das mulheres descobriu-se que quem tinha realmente ganho era Cristina Sevene, antiga secretária da OMM, que já estava aos prantos.

Outro caso sonante é o de Telmina Pereira, antiga governadora da Província de Maputo, que havia sido introduzida na lista, mas depois da recontagem descobriu-se que a vaga era de uma outra camarada.

Na lista dos homens, outro repescado após a recontagem foi Faruk Osman, que liderou a contestação ao lado de Galiza Matos. Entretanto, este último mesmo após a recontagem não conseguiu entrar pela segunda vez consecutiva.

Segundo o que o Evidências apurou, houve ordens de cima para que algumas candidaturas fossem privilegiadas em detrimento de outros. Diz-se que alguns nomes foram apontados a dedo pelo próprio Presidente do partido e outros membros influentes para que fossem eleitos a qualquer custo.

Mas como não devia deixar de ser, o processo voltou a ser marcado pela circulação de muito dinheiro para compra de votos e consciências.

Em Nampula voltaram a recontar 48 horas depois e de Gaza vem denúncias de manipulação

Não foi só na província de Maputo onde os camaradas contestaram os resultados. Em Nampula, quando tudo parecia estar encerrado e as listas divulgadas, houve também uma grande contestação que fez com que os membros do Comité Provincial fossem novamente convocados para irem recontar os votos.

Até ao fecho desta edição ainda decorria a contagem dos votos, num processo menos agitado que o da província de Maputo, marcado por bastante civismo. Entretanto, no primeiro apuramento, dois nomes sonantes tinham ficado de fora.

Trata-se de Lucília Hama e António Boene, este último que vinha com apoio da Comissão Política, alegadamente, porque há necessidade de haver mais juristas, mas não conseguiu convencer os membros do Comité Provincial.

Já em Gaza, o processo até fechou de forma ordeira, mas um vídeo posto a circular nas redes sociais viria a deixar escapar uma alegada viciação de resultados para favorecer pessoas próximas ao primeiro secretário provincial, incluindo o seu filho e afilhados. Igualmente, a denunciante deu a entender que alguns membros do Comité Provincial, incluindo o presidente da CTA, Agostinho Vuma, distribuíram elevadas somas de dinheiro para compra de votos.

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