Comunidade muçulmana revoltada com a Frelimo

DESTAQUE POLÍTICA
    • Indústria de raptos movimentou dois biliões de meticais em dois anos – GAFIM
    • Abandono e insegurança dos empresários podem estar a influenciar no volume das importações
    • Volume de importações e IDE reduziram pela metade nos últimos dez anos

    Volvidos alguns dias após o Presidente da República, Filipe Nyusi, pedir aos agentes da lei e ordem os rostos dos mandantes dos raptos, o crime organizado voltou a exibir a sua musculatura, tendo protagonizado dois raptos e uma tentativa frustrada no intervalo de três dias. A frequência não habitual da ocorrência dos raptos sugere a expansão de uma indústria que, apesar de todos os custos que acarreta à economia, não consta do topo das prioridades do poder político, supostamente por ter capturado altos quadros do Governo. Na homilia desta sexta-feira (26), o clérigo muçulmano Maulana Nazir Lunat diz ter se reunido com o governo a todos níveis, incluindo com o próprio Filipe Nyusi, tendo chegado à conclusão que “não podemos esperar nada (solução) deste governo (…) Não estão para nós”. A revolta no seio da comunidade muçulmana tende a crescer, com vítimas a apontar o dedo ao governo e a Frelimo. Entre as consequências de raptos, constam a redução das actividades e da mão-de-obra das empresas das vítimas, além dos custos económicos e de abandono do país.

     

    Apesar de vozes influentes ousarem afirmar que rapto é um assunto exclusivo de empresários de ascendência asiática, factos mostram que não é um problema a ser reduzido a uma comunidade ou mesmo à economia, mas encontra perpetuação na inércia política, onde o partido Frelimo é apontado como o principal culpado. É uma indústria que já não teme ninguém e os raptores exibem a sua musculatura nas barbas da polícia e a escassos quilômetro da Presidência da República. É a quadrilha que move o negócio a mostrar-se acima das forças do Estado.

    À semelhança do que ocorre no terrorismo, muitas correntes foram levantadas, mas nunca se chegou a uma caracterização exacta que pudesse conduzir à aniquilação total do inimigo, e a mais recente explicação sobre os seus autores consta do Relatório de Análise Estratégica publicado por Gabinete de Informação Financeira de Moçambique (GIFiM), que diz ter recolhido e analisado comunicações, informações e relatórios referentes ao período de 2014 a 2024 e chegado a conclusão de que os supostos mandantes país são, maioritariamente, indivíduos nacionais ou com a nacionalidade adquirida, oriundos de países ou jurisdições da Ásia, com antecedentes criminais.

    Mas explicações sobre o perfil dos mandantes já foram criadas quase sempre que o grito das vítimas se faz alto, porém o que é palpável é falta da vontade política, que mesmo depois de montar câmaras de vigilância nas cidades de Maputo e Matola, não consegue explicar um fenômeno cuja concretização depende do nível do envolvimento da quadrilha nos bancos, onde é coletada a informação financeira das vítimas, e nos meios castrense. Entre as soluções, já foi ainda equacionada a criação de uma unidade Anti-Rapto, mas não passou de uma falsa promessa.

    Fora das iniciativas internas, às próprias vítimas já apresentaram ao governo uma proposta para combate dos raptos, mas nada foi avançado, o que aumenta especulação do envolvimento de poder política num negócio que apenas soma sucesso.

    Mais empresários abandonam o país

    Não existem dados organizados sobre os raptores, mas a frequência com que ocorrem sugere a expansão do crime. Aliás, uma tese de Rui Esteves alertou que “Estados falhados” são terrenos propícios para o incremento destes crimes.

    Dados da Confederação Econômica de Moçambique (CTA), apontam que nos últimos dez anos, cerca de 150 empresários abandonaram o país devido à insegurança, precipitada pelos raptos e sequestros. As vítimas que optam por ficar depois de contacto com os raptores são obrigadas a pagar uma taxa de liberdade.

    No mesmo período, o GIFiM registou que 33 milhões de dólares, algo como dois 2 079 milhões de meticais, foram movimentados por este negócio. Estas são as primeiras consequências mensuráveis de um negócio movido por meliantes que torturam suas vítimas, e deixam traumas psicológicos que levam tempo para serem superados, senão incuráveis.

    Uma consulta superficial mostra que o Investimento Directo Estrangeiro (IDE) em Moçambique, que estava na casa dos seis mil milhões de dólares em 2014, baixou para 2.5 mil milhões em 2023, enquanto que cruzados os relatórios do Banco de Moçambique sobre a balança de pagamentos, no capítulo referente às importações, que é o sector onde estão concentradas as empresas de empresários com ascendência asiática, nota-se uma redução drástica de níveis de importações para quase metade. Em 2022, o volume das importações de bens de consumo estava na casa dos 500 milhões de dólares, há 10 anos, estavam na casa de 1 500 milhões. É mesmo assustador, para uma economia que nada produz e mostra-se parado no tempo.

    Numa conversa com uma das vítimas, o Evidências apurou que os empresários que abandonam o país administram as suas empresas a distância, numa gestão voltada à manutenção e pagamento de salários, enquanto torcem por dias melhores. Embora muitos factores influenciam o nível das importações e do IDE, a diminuição das actividades das empresas das vítimas dos raptos não pode ser isolada, tendo em conta a natureza das  suas empresas.

    A revolta das vítimas

    No Bayan (sermão) da sexta-feira (26), Maulana Nazir Lunat, cujo pai já foi vítima dos raptos, disse que as contribuições semanais na Mesquita baixaram de uma média de 32 mil meticais por semana para 17 a 20 mil.

    “A receita na Masjid baixou de 32 mil meticais para 17 a 20 mil semanal, porque esses indivíduos que apoiam não estão mais aqui em Moçambique”, disse, alertando que este não é um problema apenas de empresários da ascendência asiática, mas de todos, na medida em que os seus efeitos mexem com toda estrutura da economia.

    “Irmãos, aquilo que vou falar pode ter consequências, mas não posso viver toda hora com medo. Não esperem nada deste governo. Eu, Nazir, já fui ter não sei com quantos presidentes deste país, o Presidente actual (Filipe Nyusi) também já fui ter com ele. Já fui ter com todos os Primeiro-Ministros, já fui ter com todos os ministros do Interior, já fui ter com todos os comandantes (geral) nacionais, e eles não estão para nós. Não vão servir a nós. Eu sei que vou ter consequências por estas palavras, mas é preciso enfrentar, pode vir-me a morte, não interessa”, desabafou clérigo muçulmano.

    De forma contundente, prosseguiu que “há 12 anos que nenhum governante não faz nada. Se me roubarem o celular, o SERNIC consegue trabalhar, consegue apanhar. Eu já sofri rapto com o meu pai e sei as consequências familiares e da riqueza (econômicas). As divisões que cria nas famílias por causa de raptos, dinheiro não tem amigo, você quando tem sociedade com uma pessoa e um deles é raptado, você não sabe se foi raptado por causa dele ou por causa da família ou… Todos, ninguém quer tirar dinheiro. Todos se culpam um ao outro”.

    Nazir, num tom de desabafo, faz uma pergunta retórica, questionando o que, afinal, “nós não fizemos? A quem não falamos? Porque nós somos líderes da comunidade, não estamos para expor as causas, mas chega um momento em que as pessoas têm de saber o que está a acontecer. Há 12 anos que este governo não faz nada. “Há-de vir a vez de outros, se não por causa de raptos vai ser através de drogas (…), não podemos pensar que a minha vez não há-de vir”.

    Em Junho passado, o pai de uma das vítimas desabafou denunciando motivações racista camufladas na política. “Não é novidade nenhuma, é para correr com os indianos daqui. Há de haver menos investimentos neste país, mais desemprego e mais roubo. O governo sabe disso mas não faz nada. Estão aqui todos policiais armados com a KM, mas nunca fazem nada. Isso não é justo. Aqui no parlamento tem de mudar e entrar o Venâncio Mondlane, para se discutir, falar a verdade. Onde vai o dinheiro todo? Não há dinheiro para pagar dívida, médicos, professores. Temos tanta riqueza, tanta madeira, mas não há carteira na escola”, desabafou direcionado a crítica ao chefe de Estado, cujo filho circula nos carros de alta cilindrada, num contexto em que na administração pública não tem dinheiro.

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