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- Um mês depois de ter sido nomeado
- Novo DG da secreta é desafiado a resgatar serviço minado por anos de erosão
- A “Krollização” da inteligência deixou sequelas graves na segurança do País
- Marginalização da capacidade institucional escangalhou o SISE e fragilizou a defesa do País
Esta semana assinala-se um mês desde que José Condungua Pacheco foi nomeado Director-Geral dos Serviços de Informação e Segurança do Estado (SISE), encerrando um período de seis meses de vazio de liderança num dos pilares estratégicos da soberania nacional. A sua nomeação não foi apenas o preenchimento de um cargo de topo, mas a reabertura de um dossier crítico e delicado, que é a reconstrução de um serviço profundamente fragilizado, num momento em que Moçambique enfrenta desafios de segurança sem precedentes, do terrorismo em Cabo Delgado à guerra de influência sobre os recursos naturais. Mais do que uma nova administração, dentro da corporação, há uma percepção sólida de que o que está em causa é a refundação da arquitectura de inteligência do Estado moçambicano, hoje minada por práticas degradantes, estruturas disfuncionais e uma reputação corroída, como mostra a recente entrada do YANGZE 8 ao largo da costa de Xai-Xai que navegou durante dias visível aos olhos dos incautos que pressionaram esclarecimentos e invisível às autoridades por pelos menos quatro dias, o que expõe a quase ausência da inteligência no mar, depois que todo dispositivo de monitoria foi praticamente desmantelado.
Evidências
A demora de cinco dias para esclarecer a presença do navio YANGZE 8 ao largo da costa de Xai-Xai evidencia não apenas uma resposta tardia da Marinha de Guerra, mas expõe, sobretudo, as fragilidades dos serviços de inteligência, que deviam estar implantados e activos na terra e no mar.
Em um contexto regional marcado por ameaças como terrorismo, tráfico de drogas e redes ilícitas transnacionais, a ausência de uma reação imediata gerou inquietação pública e especulações, forçando uma resposta apenas após pressão social. A pergunta que ecoa na mente de qualquer moçambicano é: Onde andam os Serviços de Informação e Segurança do Estado (SISE)?
A falta de comunicação institucional célere, associada à opacidade sobre o conteúdo e os objectivos da embarcação, revela um sistema que ainda opera de forma reactiva, em vez de preventiva.
Esse episódio confirma que a prontidão das autoridades não pode estar condicionada à reacção popular ou ao clamor mediático. A informação de que o navio veio de Singapura, transporta turbinas eólicas, possui 21 tripulantes e está legalmente autorizado a permanecer em águas moçambicanas só veio a público dias depois, por meio de declarações do delegado do INTRASMAR, após uma missão da marinha que em contexto pouco adequado abordou a embarcação.
Embora se trate de uma embarcação regular, o atraso na comunicação fortaleceu percepções de insegurança e alimentou rumores sobre possíveis irregularidades. Essa lacuna institucional precisa de ser revista com urgência para garantir maior transparência, segurança e confiança pública no controlo costeiro do país.
“A inteligência foi instrumentalizada para fins particulares e fofocas”
Fontes com conhecimento directo do funcionamento interno descrevem o estado actual do SISE como “deliberadamente desorganizado”, resultado de anos de erosão institucional, má gestão e infiltrações alheias à missão do Estado. Durante as direcções anteriores, incluindo as de Gregório Leão e Júlio Jane, há fortes indícios de que floresceram redes de compadrio, tribalismo nas admissões, promoções baseadas em lealdades pessoais e não no mérito.
Sem liderança estratégica e sem doutrina operacional clara, o serviço viu-se atolado em rivalidades internas, fofocas corporativas e um crescente desalinhamento com os princípios republicanos de protecção do interesse público.
Em muitos casos, segundo relatos de operativos e oficiais séniores, a inteligência foi instrumentalizada para fins particulares, passando de ferramenta de defesa nacional a mecanismo de chantagem, perseguição e favorecimento económico.
Kroll, soberania e fracasso operacional
A entrada da Kroll Associates, empresa estrangeira contratada para auditar as dívidas ocultas, continua a ser um marco simbólico da exposição da inteligência nacional. O episódio é recordado como um ponto de viragem, em que o Estado preferiu recorrer à expertise externa em vez de confiar na sua própria capacidade institucional. A percepção interna, sobretudo entre quadros veteranos do sector, foi de humilhação e exposição da soberania informacional.
A chamada “Krollização” do Estado mostrou ao mundo o nível de desorganização do SISE e a sua perda de relevância estratégica em momentos de crise nacional.
Outro fenómeno que ilustra a degradação do serviço foi a transformação da Inteligência Económica numa zona cinzenta de interesses. A função, que deveria proteger sectores estratégicos da economia e garantir segurança informacional, acabou por ser capturada por redes internas de enriquecimento ilícito.
Segundo fontes no sector, muitos agentes desviaram-se das funções clássicas de contra-espionagem, análise geopolítica e segurança interna, para se dedicarem a esquemas de extorsão, acesso privilegiado a contratos públicos e perseguição de empresários rivais dos “protegidos do sistema”. Esse desvio estrutural contribuiu para o enfraquecimento do serviço e para o aumento da vulnerabilidade do Estado face a ameaças reais.
Com um passado ligado à segurança e à diplomacia, José Pacheco chega ao cargo com um perfil de resiliência técnica e pragmatismo político. Ex-Ministro do Interior e dos Negócios Estrangeiros, tem conhecimento da máquina do Estado e da lógica dos aparelhos de soberania. Mas o desafio que enfrenta é inédito, afinal incide na refundação de um serviço corroído desde dentro e sem rumo estratégico.
O primeiro mês de gestão decorreu de forma discreta, mas fontes próximas indicam que Pacheco iniciou um diagnóstico interno profundo, com o objectivo de identificar focos de disfunção e preparar um plano de reformas. Entre as prioridades estão a revisão dos critérios de admissão e promoção, priorizando competência técnica, lealdade institucional e ética pública; reestruturação dos departamentos operacionais, com retorno às missões clássicas da inteligência; criação de mecanismos internos de controlo e auditoria, para identificar e punir comportamentos desviantes; investimento em formação contínua, com apoio de países parceiros e tecnologias modernas; e resgate do espírito de missão patriótica, para devolver dignidade e responsabilidade à função do agente de segurança do Estado.
O momento é crítico. Moçambique enfrenta múltiplas ameaças simultâneas, desde a insurgência armada, tráficos ilícitos, fragilidade nas fronteiras, cibercrime e disputas geoestratégicas ligadas ao gás e aos minerais críticos. Um SISE enfraquecido não é apenas um problema institucional, pode ser uma falha estrutural de defesa nacional.
O sucesso ou fracasso de José Pacheco poderá determinar se o SISE recupera o seu papel central na arquitectura do Estado moderno ou permanece refém de interesses paralelos que o desfiguraram.
Num país em busca de estabilidade e confiança nas suas instituições, reconstruir a inteligência é uma condição essencial para consolidar a soberania, proteger os cidadãos e garantir o futuro.



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