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No meio de uma paisagem ferida pelos conflitos em Palma, Cabo Delgado, uma narrativa de superação e renascimento desabrocha nas mãos de mulheres que transformam a simplicidade da palha em vibrantes esteiras. A iniciativa Kuinua, um projecto da Fundação MASC com o apoio da ExxonMobil, tem sido a força motriz para a reconstrução de vidas e a restauração da dignidade de centenas de artesãs que encontraram no ofício ancestral uma nova oportunidade para reerguer as suas comunidades e as suas próprias histórias. Em Palma, a arte de tecer esteiras é um legado de gerações. É uma tradição passada de mãe para filhos, um saber que se enraíza na identidade cultural da região. No entanto, essa rica herança foi brutalmente abalada pelos ataques terroristas que deixaram um rastro de destruição e incertezas sobre o futuro. As artesãs perderam as suas casas, os seus bens, e o mais doloroso: o acesso à floresta, fonte vital da matéria-prima para o seu trabalho.
Luísa Muhambe
A Fundação MASC, através da iniciativa Kuinua, que em quimuani, significa “Levante-se”, emergiu como um farol de esperança num cenário de escuridão. A iniciativa Kuinua foi, diga-se, uma luz no fundo do túnel.
Jazila Hoffman, coordenadora distrital da Fundação MASC, explicou que o apoio inicial foi fundamental, concentrando-se na reposição dos materiais perdidos e na capacitação para aprimorar a qualidade das esteiras.
A iniciativa foi além da produção artesanal. Reconhecendo a importância de um empoderamento abrangente, o Kuinua implementou um programa de alfabetização funcional.
“Estando no Kuinua, nós começámos a apoiar com material, e também contratámos consultoras dessa área de arte para vir melhorar a qualidade. Criámos um grupo para aquelas que se prontificaram em aprender a alfabetização funcional, para poderem saber quantas esteiras eu estou a vender, ou quantas fiz, e qual é o preço. Conseguimos passar para um segundo ano, e essas já sabem apontar pelo menos o número de esteiras que elas fazem”, relatou Hoffman.
A história de Apendiwe Momade, presidente da associação Vumilia Upate e uma das mulheres Kuinua, ilustra a transformação profunda que o projecto provocou. Ela narra a trajectória do seu grupo, que antes da guerra era uma associação de poupança informal que produzia esteiras apenas para uso doméstico.
“Quando o ataque aconteceu, perdi tudo. Perdi até o meu dinheiro. O retorno, após oito meses como deslocadas, foi devastador. Não tínhamos nada. Foi quando apareceu a Fundação Masc, e nos apoiou com 25 mil meticais para começarmos. Esse apoio inicial, embora modesto, foi a semente da recuperação”, relata, destacando que dado o sucesso do negócio, rapidamente conseguiram devolver o valor investido para que mais pessoas pudessem ter acesso.
O sucesso impulsionou a associação a buscar mais apoio, resultando na reabilitação do seu centro e no fornecimento de material para expandir a produção. Olinda Momade, outra beneficiária do Kuinua, expressa a sua gratidão e orgulho pela melhoria na produção.
“Esta ajuda foi muito bem-vinda. Estamos a produzir mais e conseguimos vender quando aparecem clientes. Estamos orgulhosos com este projecto porque algumas senhoras não sabiam ler, nem escrever, mas com a ajuda deste projecto, já sabemos ler e escrever”, descreve.
O apoio governamental e a promessa de um futuro com dignidade
Abdul Razaque, secretário de Estado do Género e Ação Social, destacou a relevância da iniciativa e o impacto transformador do projecto Kuinua.
“Esta exposição tem como objectivo reforçar as capacidades das mulheres através da produção de artesanato com vista à criação de fontes de subsistências sustentáveis para raparigas e mulheres deslocadas internamente, bem como para as comunidades de acolhimento. Trata-se de uma iniciativa louvável que alia o empoderamento económico, a valorização do saber local e a promoção da resiliência comunitária”, sustentou.
Razaque ressalta a visão inspiradora do projecto Kuinua: “elevar e empoderar mulheres e raparigas afectadas pelo conflito é profundamente inspirador. Convoca as beneficiárias a abraçarem as actividades com mais determinação, pois representa uma oportunidade de reerguimento, de restauração pessoal e comunitária, promovendo a resiliência através da produção do artesanato tradicional e educacional.
“O governo, através do Ministério do Trabalho, Género e Acção Social, reconhece o papel fundamental da Fundação MASC e encoraja outras organizações a seguirem o seu exemplo e regozija-se quando vê mais parceiros a implementarem acções concretas que concorrem para a promoção do empreendedorismo feminino e o fortalecimento da resiliência comunitária.”
O projecto Kuinua transcende a simples produção de artesanato; é um símbolo vivo de resiliência, esperança e reconstrução em Palma. Ao tecerem as suas esteiras, as mulheres não apenas entrelaçam fios de palha, mas também as narrativas de suas vidas, recuperando a sua dignidade e fortalecendo o tecido social das suas comunidades. O caminho à frente é desafiador, mas com o apoio contínuo e a inabalável perseverança dessas mulheres, um futuro mais digno e próspero se torna uma realidade cada vez mais tangível.



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