“Nhonguismo” e boladas dentro do governo é que retardam o nosso país

OPINIÃO
Share this

Edmilson Mate

O nosso país celebrou, este ano, meio século de independência. Cinquenta anos de existência formal como nação livre e soberana. No entanto, continua com práticas que não correspondem à sua idade histórica. É como um senhor adulto que, apesar dos seus cabelos brancos e da experiência de vida, ainda insiste em agir como se fosse uma criança, sem maturidade para assumir as suas responsabilidades, sem coerência nas suas decisões, e preso a hábitos que o impedem de crescer

Nhonguismo, na linguagem popular da capital, designa a prática de intermediação. A pessoa que vive disso  o nhonguista não cria, não executa, não assume riscos. Apenas intermedia, muitas vezes com  links  ou  esquemas escondidos, ganhando sem nada produzir. Esta figura está cada vez mais presente nas decisões de compra, nos projectos públicos, nas obras mal acabadas e nos negócios mal explicados. A sua influência é visível em quase tudo o que falha no país, mesmo que raramente se apresente à luz do dia.

Recentemente, o governo anunciou a aquisição de tractores para apoiar o transporte em zonas rurais. A intenção, à primeira vista, parece boa: dar resposta às dificuldades de mobilidade em vários distritos de difícil acesso. Mas, ao olhar com atenção, percebe-se, mais uma vez, que falta estudo de viabilidade, visão estratégica e, sobretudo, respeito pelos cidadãos que serão transportados nesses meios. A verdade é que um tractor não é, nunca foi um veículo de transporte de pessoas. A sua função é a de transporte animal e agrícola. Tem uma velocidade máxima entre 20 a 40 km/h e pouca estabilidade ou conforto. Transportar pessoas em tractores é uma solução desumana e tecnicamente insustentável.

Como é que um país com 50 anos de independência ainda permite que os seus cidadãos sejam transportados em veículos criados para lavrar a terra? Será que é este o modelo de desenvolvimento que se pretende consolidar?

Fazendo uma pequena comparação com outros países africanos, podemos constatar que enquanto uns lançam satélites, investem em tecnologias limpas e desenvolvem sistemas modernos de mobilidade urbana e rural, nós continuamos a apresentar soluções do século passado, com o selo de modernidade. Sempre se rotula as várias justificações para não prover boas coisas para o pacato cidadão com  “o nosso contexto é diferente”. Mas até quando vai essa desculpa servir para justificar o injustificável? A diferença de contexto não pode servir de cobertura para a falta de planeamento, para a má gestão de recursos ou para decisões políticas claramente desajustadas da realidade.

O que mais me inquieta não é o tractor em si, mas sim o que ele simboliza: o desprezo pela dignidade do povo, a falta de prioridades claras é a evidência de que há sempre alguém a lucrar com tudo isto. Porque quando há nhonguistas envolvidos, a lógica é outra. Não se trata de resolver problemas, trata-se de aproveitar oportunidades. E enquanto uns aproveitam, milhões continuam a sofrer. Em qualquer canto do mundo os tractores servem de transporte animal ou para a produção agrícola.

Se de facto a agricultura é a base do nosso desenvolvimento, então que se usem os tractores para o fim a que se destinam: preparar os campos, aumentar a produtividade agrícola, reduzir a dependência das importações da África do Sul e de outros países vizinhos. Mas transformar tractores em autocarros é uma distorção grave da realidade. É brincar com a vida das pessoas. É negar-lhes o direito básico a um transporte digno, seguro e eficiente. É tratar cidadãos como animais

É imperioso repensar o modelo de desenvolvimento que estamos a seguir. É necessário parar com as medidas simbólicas que apenas servem para decorar discursos políticos e alimentar esquemas de enriquecimento ilícito. O povo moçambicano não precisa de favor, precisa de políticas públicas sérias, pensadas com base em dados, e orientadas para a dignidade humana. Governar não é distribuir migalhas. Governar é cuidar. É planear. É ouvir. É agir com responsabilidade. Se o próprio governo não usa tractores como transporte, porque é que o povo deve usar?

Se quisermos um país diferente, temos de combater abertamente o nhonguismo dentro do governo. Temos de parar com as boladas que sugam o Estado por dentro. Temos de exigir mais transparência, mais estudo, mais respeito pelo povo. O retrocesso do nosso pais não é só económico, é também moral e ético. E enquanto continuarmos a aceitar medidas como estas sem questionar, continuaremos presos ao mesmo ciclo de pobreza, improviso e frustração colectiva.

Promo������o
Share this

Facebook Comments