Projectos da Bacia do Rovuma ditam recorde de Investimento Directo Estrangeiro em 2026

DESTAQUE ECONOMIA
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  • PESOE 2026 prevê 5,8 mil milhões de dólares em Investimento Estrangeiro
  • Projecto Coral Norte é o principal motor do salto

Moçambique prepara-se para um novo ciclo de expansão económica e financeira. A  proposta de Plano Económico e Social e Orçamento do Estado (PESOE) para 2026, que nos próximos dias será objecto de análise e debate no Parlamento aponta para um volume recorde de Investimento Directo Estrangeiro (IDE). O Executivo prevê que os fluxos de IDE atinjam os 5,8 mil milhões de dólares, um aumento significativo de 22,6% face às previsões para o corrente ano de 2025. Este número é o mais alto desde o pico histórico registado em 2021.

Luísa Muhambe

Esse crescimento meteórico, que reajusta a ambição económica nacional, é quase totalmente atribuído aos chamados “projectos estruturantes” de Gás Natural Liquefeito (GNL) em desenvolvimento na Bacia do Rovuma, na província de Cabo Delgado, no norte do País.

A expectativa é que as Decisões Finais de Investimento (FID) para os grandes megaprojectos e o avanço da sua construção cimentem o País como um dos principais players globais no mercado energético. A entrada em produção plena do GNL está a reconfigurar o panorama financeiro nacional, tornando Moçambique um foco de atenção incontornável para os grandes investidores internacionais que buscam a segurança energética e a diversificação de fontes.

A previsão para 2026 é o culminar de uma trajectória de recuperação e consolidação após os desafios geopolíticos e de segurança que afectaram a região Norte. O Executivo estima que o IDE em 2025 possa crescer mais de 40%, fixando-se em cerca de 5,1 mil milhões de dólares (aproximadamente 325,9 mil milhões de meticais).

Embora esse valor seja robusto, a meta de 5,8 mil milhões de dólares para 2026 representa um novo patamar, superando todas as expectativas.

Crucialmente, o ritmo de investimento acelerou de forma notável. No primeiro trimestre deste ano (2025), o IDE mais do que duplicou face ao período homólogo de 2024, atingindo os expressivos 1,63 mil milhões de dólares. Este influxo (entrada de recursos financeiros) massivo de capital estrangeiro é o indicador mais claro de que o sector do Gás e do Petróleo assumiu inequivocamente a liderança dos fluxos financeiros para Moçambique.

Em 2024, o país já tinha registado um crescimento assinalável de 41,5% no IDE face a 2023, alcançando os 3,6 mil milhões de dólares (cerca de 230 mil milhões de meticais). A tendência é, portanto, de crescimento sustentado, impulsionada pela indústria extractiva, que em 2024 captou 87,2% do total do IDE.

Governo mantém alta expectativa sobre o Rovuma LNG liderado pela ExxonMobil

Moçambique possui três projectos de desenvolvimento de GNL aprovados para a exploração das vastas reservas de gás natural da Bacia do Rovuma, classificadas entre as maiores do mundo e estrategicamente localizadas ao largo da costa de Cabo Delgado.

O primeiro pilar em produção é a Coral Sul FLNG, um projecto flutuante liderado pela petrolífera italiana ENI, que está em operação desde 2022 e tem gerado as primeiras receitas de exportação. As autoridades governamentais anunciaram recentemente que já foram arrecadados 235 milhões de dólares com a exportação de 137 carregamentos de GNL e condensado, demonstrando a fiabilidade da operação em águas profundas.

O segundo pilar e um dos principais motores do aumento projectado do IDE é a Coral Norte FLNG. Recentemente, o Governo e a ENI formalizaram a Decisão Final de Investimento (FID) para este projecto gémeo da Coral Sul, avaliado em 7,2 mil milhões de dólares (cerca de 456 mil milhões de meticais). A confirmação do investimento de milhares de milhões de dólares para este segundo FLNG, com produção prevista para arrancar em 2028, é o sinal mais forte da confiança dos investidores e coloca Moçambique no mapa como um futuro terceiro maior produtor de GNL em África.

O terceiro pilar, o Mozambique LNG (na Área 1), liderado pela TotalEnergies, tem sido o mais afectado pela situação de segurança na província de Cabo Delgado. No entanto, a TotalEnergies tem dado sinais claros de que está a trabalhar activamente para levantar a situação de “Força Maior” e retomar as operações em terra, o que, se acontecer em 2026, poderá fazer com que o IDE ultrapasse a meta de 5,8 mil milhões de dólares.

A expectativa em relação ao Rovuma LNG (na Área 4), liderado pela ExxonMobil, também permanece elevada. Este é o terceiro grande projecto em espera da FID, que, segundo informações recentes do sector, pode ser anunciada ainda em 2026, cimentando o estatuto de Moçambique como uma potência de gás.

Governação e gestão transparente são um desafio

A importância destes projectos vai muito além dos números do IDE. A consultora Deloitte, num relatório sobre as Perspectivas Energéticas de África, estima que as vastas reservas de gás moçambicanas representem receitas potenciais de 100 mil milhões de dólares.

Este montante colossal sublinha a importância estratégica de Moçambique no processo da transição energética global, ao oferecer uma alternativa mais limpa ao carvão e ao petróleo. A consultora prevê que o País poderá tornar-se num dos dez maiores produtores mundiais de GNL, responsável por 20% da produção africana até 2040.

O projecto Coral Norte, em particular, é um motor financeiro com um horizonte de 30 anos de vida útil, esperando-se que gere receitas fiscais e contribuições que ultrapassem os 23 mil milhões de dólares (mais de 1,4 bilião de meticais) para o Estado ao longo da sua concessão. Este potencial de geração de riqueza coloca nas mãos do Governo uma responsabilidade acrescida na gestão dos recursos e na aplicação destes fundos para o desenvolvimento sustentável.

O afluxo esperado de milhões de dólares impõe um desafio crítico ao Governo moçambicano: a governação e gestão transparente das receitas. A criação do Fundo Soberano de Moçambique (FSM) em 2023 é a resposta legislativa a este desafio, procurando assegurar que a riqueza do gás beneficie as gerações presentes e futuras, e não se perca em ciclos de boom and bust (ciclo de expansão e retracção), característicos das economias dependentes de recursos naturais.

Cerca de 30,7 milhões do GNL vão para o Fundo Soberano

O PESOE 2026 prevê a alocação de cerca de 30,7 milhões de dólares (1,9 mil milhões de meticais) provenientes da produção de GNL para o fundo soberano (FSM), enquanto 46,1 milhões de dólares (2,9 mil milhões de meticais) servirão para financiar o Orçamento do Estado do próximo ano. Esse mecanismo de partilha estipula que 60% das receitas sejam canalizadas para a Conta Única do Tesouro (CUT), para cobrir o Orçamento, e o remanescente, após a satisfação das necessidades orçamentais aprovadas, seja transferido para o FSM. Essa divisão visa equilibrar a necessidade imediata de financiamento do Estado com a poupança de longo prazo.

O sector privado e as organizações da sociedade civil têm vindo a pressionar o Governo para garantir a transparência na alocação de divisas e a aplicação dos fundos em sectores que gerem um impacto mais abrangente na economia real, como a indústria transformadora, a agricultura e o turismo.

O principal receio é o do “enclave económico”, onde o sector extractivo de GNL opera isolado, com fracos laços com as Pequenas e Médias Empresas (PME) nacionais, limitando a criação de valor interno e emprego qualificado para os moçambicanos.

Para mitigar esse risco, o Governo está a investir em programas de capacitação e na promoção do Conteúdo Local, obrigando as operadoras de GNL a priorizarem fornecedores e mão-de-obra local, sempre que as condições técnicas e de qualidade o permitam. A articulação entre os grandes projectos e a economia local é a chave para que o IDE projectado para 2026 se traduza em desenvolvimento social inclusivo e sustentável.

Apesar dos desafios de governação e segurança, o optimismo em relação ao GNL é palpável. O PESOE 2026 é ambição da materialização do potencial de Moçambique como uma potência energética emergente, dependendo agora da capacidade do País em traduzir este IDE recorde em prosperidade. O Parlamento terá, nos próximos dias, a responsabilidade de escrutinar o plano que desenha o caminho para os próximos anos de Moçambique.

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