O deslocado mais amado do Estado

OPINIÃO
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John Kanumbo

Há tragédias que mobilizam o País inteiro. Há outras que parecem condenadas à rotina do silêncio. Em Moçambique, a diferença entre uma e outra começa a tornar-se um espelho desconfortável da forma como o Estado reage à dor dos seus próprios cidadãos. Entre as cheias que ciclicamente assolam o Sul e o Centro do País atingindo províncias como Gaza e Maputo e a guerra que há cerca de dez anos devasta o Norte, sobretudo Cabo Delgado, emerge uma figura simbólica e perturbadora: que é o deslocado mais amado do Estado.

Quando as águas sobem, o país inteiro levanta-se. Há imagens aéreas, há comunicados oficiais, há comissões de emergência, há ministros no terreno, há reuniões diárias, há relatórios técnicos sobre o fenómeno climático, há mobilização das Forças Armadas, da Protecção Civil, das igrejas, dos partidos políticos, das empresas públicas e privadas.

Enquanto o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades e o Serviço Nacional de Meteorologia e Hidrologia mantêm uma presença constante, pública e transparente durante fenómenos naturais, com alertas, comunicados de imprensa, boletins diários, actualizações via SMS e redes sociais, visitas guiadas à imprensa e recomendações detalhadas sobre medidas de protecção.

O deslocado amado tem o Estado presente ao seu lado, e a Presidência, os ministros, as autoridades máximas deslocam-se, fazem reuniões de emergência e até decidem, por exemplo, prolongar o ano lectivo em função da calamidade e reorganizam prioridades administrativas. E até os partidos da oposição actuam sob a mesma lógica. Há presença. Há visibilidade. Há resposta.

Há contas bancárias abertas para transferências directas de solidariedade, projectos e comissões organizam a distribuição de donativos, tudo monitorado, documentado, fotografado, registado. Cada gesto tem publicidade, cada acção é comunicada. O Estado existe ao lado do deslocado amado, e isso diz muito sobre prioridades, visibilidade e poder.

Enquanto isso, no Norte do país, a guerra em Cabo Delgado completa já nove anos. Para o deslocado da guerra, a geografia da atenção muda. Não há alertas, nem comunicados regulares, nem orientações claras. O Ministério da Defesa mantém um silêncio sepulcral. A imprensa não é convocada. As populações deslocadas não sabem quem ataca, de onde vem a ameaça, quais os objectivos do inimigo, nem quando a violência poderá chegar novamente. O Instituto Nacional de Gestão de Calamidades e o Serviço Nacional de Meteorologia não operam aqui; não há boletins de risco, nem mensagens de prevenção via SMS, nem recomendações estruturadas sobre segurança. O deslocado da guerra vive na incerteza constante. Perdeu quase tudo: milhares de pessoas deixaram aldeias queimadas, cemitérios ancestrais, machambas herdadas, casas construídas ao longo de gerações. Não perderam apenas bens materiais. Perderam território simbólico. Perderam referências culturais. Perderam familiares. Perderam a certeza de regresso. E, em muitos casos, perderam até a memória concreta do que restou. Vive da ajuda humanitária, muitas vezes intermitente, nas escondidas, sem a publicidade, o apoio logístico e a visibilidade que tornam o deslocado das cheias “amado”. Aqui, invisibilidade é dor, abandono é normalidade.

O contraste é brutal. O deslocado mais amado sabe que a água recua. Pode demorar dias ou semanas, mas há uma expectativa real de retorno. A casa pode estar danificada, os bens podem estar destruídos, mas o chão continua lá. A comunidade permanece no mesmo lugar. A enchente é uma violência temporária da natureza. Há dor, mas há horizonte.

O deslocado da guerra vive numa suspensão indefinida. Nove anos não são semanas. São infâncias inteiras passadas em centros de reassentamento. São adolescentes que nunca regressaram à aldeia onde nasceram. São pais que enterraram parentes sem saber se poderão voltar ao cemitério familiar. Não há calendário de retorno. Não há garantia de segurança. Não há promessa oficial clara de quando ou se poderão reconstruir exactamente onde estavam. O deslocado da guerra não sabe se algum dia verá a sua casa intacta novamente, nem se terá terra, escola, cemitério ou memória preservada. As crianças não foram à escola durante anos; o Estado não decretou nenhum mecanismo de excepção, nem prolongou o ano lectivo, nem garantiu segurança. Os ataques insurgentes seguem invisíveis para o resto do País, e o silêncio institucional reforça a sensação de abandono.

A pergunta incómoda é inevitável: qual é a lógica que determina o grau de mobilização do Estado? Por que razão a resposta institucional às cheias é imediata, visível, altamente coordenada e amplamente publicitada, enquanto o deslocamento prolongado da guerra parece diluir-se numa rotina administrativa de ajuda humanitária intermitente?

Não se trata de competir tragédias. As cheias são devastadoras e exigem resposta rápida. O que se questiona é a assimetria de intensidade política, simbólica e mediática. Quando o País enfrenta ciclones ou inundações, todas as instituições entram em alerta máximo. Reguladores, empresas públicas, bancos, universidades, partidos, todos alinham discursos, recursos e agendas. Criam-se comissões específicas para angariar fundos destinados às vítimas. A solidariedade transforma-se em campanha nacional.

E quando a guerra desloca populações durante quase uma década? Onde está a mesma arquitectura permanente de mobilização? Onde está a mesma comissão nacional amplamente divulgada para apoiar, de forma transparente e contínua, os deslocados do conflito? Onde estão as reuniões diárias transmitidas com a mesma intensidade? Onde está o debate profundo sobre o impacto psicológico, educacional e geracional dessa deslocação prolongada?

Durante as vagas mais intensas de ataques no Norte, o País nunca entrou formalmente em estado de sítio nacional. Nunca houve uma suspensão ampla de actividades civis à escala do País como sinal político inequívoco de que se tratava de uma ameaça existencial. Entretanto, por causa das cheias, decisões administrativas como o adiamento do início do ano lectivo podem ser tomadas com rapidez e justificadas publicamente pela necessidade de proteger o deslocado afectado pelo fenómeno natural.

O que isso comunica? Comunica prioridade. Comunica proximidade. Comunica sensibilidade política. O deslocado das cheias é visível. Está geograficamente próximo dos centros de poder. As imagens chegam com facilidade às redacções e aos gabinetes. O deslocado da guerra está distante, numa periferia geográfica e simbólica. A distância física transforma-se em distância emocional e, por vezes, em distância política.

Há também um elemento de narrativa. A cheia é uma tragédia natural. A guerra é uma falha humana, institucional, histórica. Responder à cheia não implica reconhecer erros estruturais. Responder à guerra exige enfrentar perguntas difíceis sobre segurança, governação, desigualdades e radicalização. Talvez seja mais confortável mobilizar-se contra a água do que contra as causas profundas de um conflito.

O estudo deste “Deslocado Mais Amado do Estado” e do deslocado da guerra é, portanto, um exercício de reflexão crítica sobre prioridades, poder e equidade. É um espelho de como o Estado define quem merece atenção imediata e quem permanece à margem. É um convite à sociedade e aos analistas para questionar: por que uns são acompanhados e outros invisíveis? Por que uns recebem mobilização, logística e publicidade, enquanto outros vivem nove anos de guerra sem garantias mínimas? Quem decide? Quem mede a urgência? E, acima de tudo, qual é o preço do abandono prolongado?

A grande questão é ética e política: o valor da vida deslocada depende da causa do deslocamento? A solidariedade nacional deve variar conforme a tragédia, natural ou armada? Ou estamos perante um padrão inconsciente em que a proximidade geográfica e o impacto mediático determinam o grau de comoção institucional?

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