Washington e África: quando a intervenção externa alimenta o caos

ÁFRICA E MUNDO
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Durante décadas, os Estados Unidos e os seus aliados da NATO apresentaram as intervenções militares e as parcerias de segurança em África como instrumentos para combater o terrorismo, defender a democracia e promover a estabilidade. Contudo, o rasto deixado por algumas dessas intervenções revela uma realidade bem diferente: em vários casos, as políticas desenhadas em Washington para “estabilizar” África acabaram por aprofundar a instabilidade, alimentar novos conflitos e fragilizar ainda mais Estados já vulneráveis. Da destruição da Líbia ao avanço do jihadismo no Sahel, a estratégia militar norte-americana deixa um rasto de Estados fragilizados, conflitos prolongados e crises que atravessam fronteiras

É neste contexto que ganha força a análise do economista e cientista político Joseph Solis-Mullen, publicada a 28 de Maio de 2026 pelo Libertarian Institute, sob o título “Washington and Africa Are Intertwining Their Chaos”. O autor sustenta que a instabilidade que se estende do Sahel ao Corno de África e aos Grandes Lagos não constitui uma sucessão de crises isoladas, mas uma cadeia de conflitos onde intervenções externas produzem consequências que ultrapassam as fronteiras dos países atingidos.

O caso mais emblemático é o da Líbia. Em 2011, os Estados Unidos e os seus aliados da NATO participaram na intervenção militar que derrubou Muammar Khadafi. A operação foi apresentada como uma resposta humanitária destinada a proteger civis perante a repressão do regime. Mas a queda de Khadafi não foi acompanhada pela construção de um Estado funcional.

A Líbia mergulhou numa prolongada fragmentação política e militar, enquanto enormes arsenais ficaram fora de controlo. Segundo Solis-Mullen, combatentes tuaregues que tinham servido na Líbia regressaram ao Mali fortemente armados, contribuindo para alimentar a instabilidade no Sahel.

O efeito dominó foi rápido. Mali, Burkina Faso e Níger mergulharam em crises políticas e militares, enquanto grupos jihadistas ganharam terreno em extensas áreas onde a autoridade estatal praticamente desapareceu.

A grande ironia, observa o autor, é que alguns militares africanos envolvidos nos golpes tinham recebido formação ou mantido relações de segurança com Washington. Os Estados Unidos condenaram os golpes, mas continuaram a defender a cooperação militar como instrumento para restaurar a estabilidade.

A estratégia parece repetir o mesmo ciclo: formar forças para combater a instabilidade, perder influência quando essas forças derrubam governos e, depois, responder com mais cooperação militar.

A guerra contra o terrorismo que produz novos inimigos

Do Sahel à Nigéria, a militarização da resposta ao terrorismo continua a ser uma das principais ferramentas de Washington. No norte da Nigéria, grupos como Boko Haram e o Estado Islâmico da África Ocidental continuam activos. Ao mesmo tempo, banditismo e grupos armados expandem-se em zonas onde o Estado tem pouca capacidade de controlo.

Solis-Mullen questiona a eficácia de bombardeamentos e operações especiais como resposta para problemas que possuem raízes políticas, económicas, sociais e históricas.

O argumento é simples: quando uma operação militar estrangeira mata civis, os sobreviventes dificilmente passam a ver a potência interveniente como libertadora. Pelo contrário, podem interpretar a presença estrangeira como uma agressão e aproximar-se dos grupos que dizem combater o inimigo externo.

No Sudão, a guerra entre as Forças Armadas Sudanesas e as Forças de Apoio Rápido demonstra igualmente como um conflito interno pode transformar-se numa disputa regional. Diferentes potências apoiam lados distintos, enquanto milhões de sudaneses enfrentam deslocação, fome e violência.

Para o autor, existe aqui uma contradição na política externa norte-americana: Washington fala em democracia e direitos humanos, mas mantém relações estratégicas com actores regionais cujas políticas podem contribuir para a perpetuação dos conflitos.

A consequência é uma guerra que deixou de ser apenas sudanesa e passou a envolver interesses de vários países.

Na Somália, os Estados Unidos mantêm há quase duas décadas uma estratégia de combate ao al-Shabaab baseada em operações militares e ataques aéreos. Mas a insurgência permanece. Para Solis-Mullen, a experiência demonstra os limites de uma abordagem que procura resolver problemas políticos e sociais sobretudo através da força militar.

No leste da República Democrática do Congo, o cenário é igualmente complexo. Décadas de violência, grupos armados, interesses regionais e disputa por recursos minerais mantêm milhões de pessoas expostas à insegurança. Apesar dos sucessivos acordos de paz, os combates continuam.

Washington fala em soberania e estabilidade, mas, segundo o autor, mostra-se relutante em exercer pressão suficiente sobre parceiros regionais considerados importantes para a sua estratégia de segurança.

África como tabuleiro de interesses

A questão central levantada pelo artigo não é negar a responsabilidade dos próprios governos africanos. Corrupção, fragilidade institucional, pobreza, desigualdades, divisões étnicas e religiosas, fronteiras herdadas do colonialismo e disputas pelo controlo dos recursos estão na origem de muitos dos conflitos.

Mas há uma outra realidade que não pode ser ignorada: a intervenção externa altera os equilíbrios internos, fortalece determinados actores, introduz novas armas e pode transformar conflitos locais em crises regionais. Durante décadas, Washington abordou África através de uma lógica assente em bases militares, parceiros de segurança, operações especiais, drones e combate ao terrorismo. Os resultados, porém, levantam dúvidas.

Da Líbia ao Sahel, do Sudão à Somália e ao Congo, multiplicam-se Estados fragilizados, insurgências, deslocados e guerras que parecem não encontrar uma saída militar.

A Líbia talvez seja, segundo o artigo, a imagem mais poderosa desse paradoxo. Um país que, apesar das contradições e da natureza autoritária do regime de Khadafi, possuía instituições estatais funcionais foi transformado, depois da intervenção de 2011, num território fragmentado e palco de disputas entre grupos armados e governos rivais.

A pergunta que fica é inevitável: as intervenções estrangeiras estão realmente a estabilizar África ou estão, em determinados casos, a aprofundar as próprias crises que dizem combater?

Para Solis-Mullen, Washington precisa de reconhecer os limites do seu poder e as consequências não intencionais das suas intervenções. Para África, a discussão é ainda mais urgente.

O continente não pode continuar a ser apenas um tabuleiro onde grandes potências projectam interesses estratégicos, militares e económicos. Porque quando as operações terminam, são as populações africanas que ficam com as armas, os refugiados, os Estados fragmentados e as guerras que ninguém consegue encerrar.

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