Governo dá prioridade a universitários carenciados na distribuição de computadores

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Ter uma vaga na universidade não significa ter condições para estudar. Para muitos jovens moçambicanos, o ingresso no ensino superior representa apenas a primeira de várias dificuldades: depois das propinas, do transporte, da alimentação e do alojamento, surge a necessidade de adquirir um computador, equipamento que se tornou indispensável em numerosos cursos, mas cujo preço continua fora do alcance de muitas famílias.

É sobre esta desigualdade que incide o programa “Um Computador, Um Estudante do Ensino Superior”, através do qual o Governo entregou, esta sexta-feira, 30 de Outubro, 1.787 computadores nas províncias de Manica e da Zambézia. A iniciativa contemplou 966 estudantes na Zambézia e 821 em Manica, dando continuidade à distribuição de 1.572 equipamentos realizada uma semana antes, em Sofala.

As cerimónias decorreram na Universidade Licungo, em Quelimane, e na Universidade Púnguè, em Chimoio, com a participação dos secretários de Estado Avelino Pinto Muchine e Lourenço Mateus Lindonde, respectivamente.

Ao todo, 3.359 computadores foram entregues nas três províncias no espaço de uma semana, numa operação que procura assegurar aos estudantes condições para realizar trabalhos académicos, consultar bibliografia e utilizar programas informáticos sem depender exclusivamente dos equipamentos das universidades ou dos colegas.

O programa, lançado em Abril de 2025 pelo Ministério das Comunicações e Transformação Digital, estabelece critérios que procuram favorecer os estudantes com maiores dificuldades económicas. Entre as condições de candidatura constam a inexistência de computador próprio e a ausência de uma bolsa de estudos que inclua financiamento para a aquisição do equipamento.

As regras também prevêem prioridade para mulheres e pessoas com deficiência, grupos que enfrentam obstáculos específicos no acesso à formação e às oportunidades profissionais.

A selecção dos beneficiários procura, assim, corrigir uma desigualdade que nem sempre aparece nas estatísticas do ensino superior. Dois estudantes podem frequentar o mesmo curso, assistir às mesmas aulas e realizar os mesmos exames, mas não disporem das mesmas condições para preparar um trabalho ou desenvolver um projecto académico.

Para quem possui computador próprio, a pesquisa e a preparação de trabalhos podem decorrer em casa, de acordo com a disponibilidade de tempo. Quem depende de equipamentos emprestados fica sujeito aos horários de terceiros, à disponibilidade das salas de informática e, por vezes, a despesas adicionais.

A tecnologia como condição de aprendizagem

A importância dos computadores ultrapassa os cursos de informática. Nas engenharias, são utilizados em programas de cálculo e desenho técnico; nas ciências da saúde, permitem consultar bases de dados e literatura científica; nas ciências agrárias, apoiam o tratamento de informação e a elaboração de projectos.

O acesso a estas ferramentas tornou-se parte integrante da formação universitária, embora a sua disponibilidade continue condicionada pela situação económica dos estudantes.

O programa governamental começou com uma primeira fase de cinco mil computadores, dirigida sobretudo a estudantes de áreas científicas e tecnológicas, contando com o apoio do Banco Mundial. A iniciativa prevê o alargamento da distribuição a outros beneficiários, de acordo com os critérios estabelecidos pelo Ministério das Comunicações e Transformação Digital.

Durante o lançamento, o ministro Américo Muchanga associou a disponibilização de equipamentos à necessidade de formar profissionais capazes de responder às exigências do desenvolvimento económico. “O nosso país conta com a vossa contribuição para que Moçambique possa ser uma nação competitiva”, afirmou.

A distribuição também pode representar uma mudança na organização das famílias. Em agregados onde não existe outro computador, o equipamento atribuído a um universitário poderá ser utilizado por irmãos e outros familiares para actividades escolares ou aprendizagem de competências digitais.

Não existem, contudo, dados que permitam determinar quantos dos computadores entregues são os primeiros disponíveis nas respectivas casas ou quantas pessoas poderão beneficiar indirectamente da sua utilização.

Num balanço divulgado esta semana, Américo Muchanga anunciou que o Governo tinha distribuído 19.454 computadores a estudantes do ensino superior. O número corresponde ao balanço nacional apresentado pelo ministro e não deve ser confundido com os 3.359 equipamentos entregues nas três províncias entre 23 e 30 de Outubro. A informação disponível não permite estabelecer se todas estas entregas já estavam incluídas no total nacional.

Para os estudantes contemplados em Manica e na Zambézia, a mudança mais imediata será a possibilidade de dispor de um computador próprio. A iniciativa não elimina as restantes dificuldades económicas associadas à frequência universitária, mas procura retirar um obstáculo que, para muitos jovens, pode determinar a forma como estudam e o tempo de que necessitam para concluir os trabalhos académicos.

A desigualdade no ensino superior não se mede apenas pela possibilidade de entrar numa universidade. Mede-se também pelas condições de que cada estudante dispõe depois de atravessar a porta da sala de aulas.

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