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- Rosário Fernandes diz ter deixado a Frelimo em 2024 e abre-se a novo partido
- Mais quadros seniores de partidos como Renamo e MDM estão a piscar olho ao ANAMOLA
- Quinito Vilankulo declara amores pelo ANAMOLA e enerva Ossufo Momade
- Rosário Fernandes credibilizou movimento e mais pessoas poderão sair do “armário” nos próximos dias
- Albano Carige é outro dirigente associado ao ANAMOLA. Quer mais chanches de reeleição
A Aliança Nacional para um Moçambique Livre e Autónomo (ANAMOLA), movimento liderado por Venâncio Mondlane, começa a captar atenções para além dos círculos de activistas, jovens e uma franja da população que se sente oprimida. Desta vez, a sedução atinge figuras seniores da política moçambicana, com destaque para Rosário Fernandes, um antigo dirigente sénior do Estado e pai da ministra das Finanças, que até bem pouco tempo era membro do partido Frelimo e que recentemente endereçou uma carta pública a manifestar simpatia pelo novo projecto. Para além dele, há outros políticos e dirigentes, que já manifestaram publicamente apoio a este movimento, já tido nalguns corredores como o real adversário à altura da Frelimo na actualidade.
Evidências
A movimentação de Fernandes, até bem pouco tempo reconhecidamente membro da Frelimo, conhecido pelo seu percurso de integridade, marcado pelas suas passagens como presidente da Autoridade Tributária e do Instituto Nacional de Estatística é vista como um sinal de que a ANAMOLA pode, apesar de existir há cerca de um mês, estar a consolidar-se como um adversário a ser considerado nas estratégias dos partidos tradicionais.
Numa carta lida na abertura dos trabalhos do ANAMOLA e que encontrou todos de surpresa e chegou a ser desmentida por sectores ligados ao partido Frelimo, Rosário Fernandes comparou o nascimento do partido a momentos históricos da luta de libertação africana, destacando que, ao contrário de movimentos armados do passado, o ANAMOLA alcançou espaço político através de soluções digitais e mobilização popular.
Fernandes apelou à transparência financeira – uma das principais fragilidades assacadas por sectores críticos – e à sustentabilidade a longo prazo, defendendo que as quotas dos membros e as contribuições populares devem ser a base de receitas, em oposição a práticas de financiamento opacas atribuídas a outros partidos, incluindo a Frelimo.
Rapidamente, a carta gerou uma grande repercurssão na sociedade moçambicana, com os sectores mais conservadores da Frelimo rapidamente a desmentirem, ainda que de forma não oficial, a carta.
Mas, na manhã desta segunda-feira, Marcelo Mosse, da Carta de Moçambique, conseguiu, numa tabelinha, uma resposta que mais do que confirmar a autoria da carta, revela que, afinal, Rosário Fernandes já não é membro da Frelimo.
“A Comunicação à I Reunião Nacional da Anamola, da minha autoria, não é uma Carta de Adesão, é um Cabaz de Sugestões a este Partido Emergente e Inovador”, confirmou, antes de em jeito de conclusão rematar o que meio mundo não sabia: “Finalmente, Já NÃO SOU formalmente Membro da Frelimo, desde 2024, e NÃO SOU Membro da ANAMOLA, nem de qualquer outro Partido (…) Quando o for, um dia, se for o caso, anunciarei publicamente, sem reservas”, sublinha.
Como se pode depreender, embora tenha negado ser membro, Fernandes não fechou a porta para a possibilidade de um dia juntar-se ao ANAMOLA, o que animou a opinião pública moçambicana, havendo corredores que já o consideram uma espécie de Plano B para que caso Venâncio Mondlane seja impedido de se candidatar por força dos expedientes judiciais em curso, possa ser ele o candidato presidencial.
O que dá mais destaque ao caso é a qualidade de Rosário Fernandes. Não é um político, é um tecnocrata, com carreira sólida nas finanças. Foi vice-ministro da Indústria e Comércio, presidente da Autoridade Tributária e mais tarde presidente do Instituto Nacional de Estatística, seu último cargo público.
Irreeverente e igual a si, foi o primeiro dirigente da Frelimo a apresentar publicamente um pedido de demissão, em protesto contra abusos dos seus superiores hierárquicos, no caso o então Presidente da República, Filipe Nyusi, que o havia destratado em dois comícios distintos, por haver simplesmente refutado, com provas, os dados empolados do recenseamento eleitoral em Gaza, com números de eleitores que segundo projecções do INE na altura só poderiam ser atingidos em 2040. Na altura, foi chamado de “capim alto” que quer crescer sozinho.
Há mais quadros seniores a piscarem ao ANAMOLA
Com o grosso dos partidos políticos da oposição em crise, o ANAMOLA desponta como uma das alternativas mais viáveis para as próximas eleições, tendo já nascido com o estatuto de principal e séria ameaça para a Frelimo para o próximo ciclo eleitoral.
A RENAMO, que durante muitos anos foi o principal partido da oposição, é o exemplo vivo da crise em que os partidos tradicionais estão mergulhados. Com uma liderança contestada e sem uma visão clara para poder sair da crise que fez com que tivesse os seus piores resultados da história, deverá ser o partido que mais membros deverá perder.
Quinito Vilanculos, presidente da autarquia de Vilankulo, é um dos que não disfarça a sua piscadela ao ANAMOLA. Eleito em 2023, já em 2024, tinha dado sinais de seguir Venâncio Mondlane quando parte dos seus vereadores e membros da assembleia prencheram fichas de apoio à candidatura da CAD que suportaria a candidatura do “cabeludo”.
Na Beira, protagonizou um momento político carregado de simbolismo durante o lançamento oficial do partido ANAMOLA. Perante uma plateia atenta, o autarca declarou que “este país é nosso”, símbolo de luta daquele movimento, o que muitos interpretaram como um sinal de ruptura com a sua formação de origem.
Ainda mais revelador foi o momento em que se referiu a Venâncio Mondlane, líder interino da nova força política, como “nosso presidente”, reforçando a percepção de proximidade à ANAMOLA. Para muitos, Vilankulo poderá estar a preparar terreno para uma futura migração política.
A atitude do edil não passou despercebida no xadrez partidário nacional. Analistas consideram que, caso se confirme a sua adesão ao ANAMOLA, o movimento poderá abrir fissuras adicionais na RENAMO, que enfrenta já o desafio de manter a sua relevância diante da ascensão meteórica da nova força política. Para muitos, os sinais dados em Beira constituem mais do que simples cortesia: são indícios de uma escolha política em construção.
Venâncio Mondlane tem reiterado que a ANAMOLA está aberta a “todos os moçambicanos que queiram contribuir para libertar o país da estagnação”. A inclusão de nomes com histórico em partidos rivais parece fazer parte de uma estratégia consciente de pluralismo interno e busca de experiência política.
No entanto, a integração de figuras como Rosário Fernandes também levanta questões sobre possíveis tensões futuras, dada a conhecida dificuldade em aceitar disciplinas de grupo, ou arregimentar-se a ideias com as quais não concorda.
A chegada de rostos conhecidos e com capital político já consolidado pode acelerar a projecção nacional da ANAMOLA, mas também testará a sua capacidade de manter coesão e evitar as fracturas que frequentemente afectam novas formações em Moçambique.



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