Quantos helicópteros temos para salvar vidas e quantos para controlar a contestação?

OPINIÃO
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John Kanumbo

Ao olhar para esta tragédia das cheias e inundações, antes da compaixão e antes da retórica, surge uma pergunta que não é técnica nem emocional, mas política no seu sentido mais cru: quantos helicópteros temos como Estado para salvar vidas em situações de emergência como esta? Não quantos existem no papel ou aparecem em relatórios, mas quantos estão efectivamente disponíveis quando pessoas ficam presas em telhados, árvores e ilhas de lama, quando a vida exige resposta imediata e não comunicados oficiais. E surge outra pergunta, ainda mais brutal: o que temos, afinal, como país? O que possuímos quando a água sobe mais rápido do que o Estado reage? Diz-se agora que o Banco Mundial disponibilizou cerca de 420 milhões de dólares para ajudar nesta crise. Mas esta notícia, em vez de tranquilizar, escancara o abismo. Porque um país que precisa de empréstimos para salvar o seu próprio povo em catástrofes previsíveis não está apenas em dificuldade está estruturalmente falido na sua lógica de Estado.

Vieram também as doações: a Noruega anunciou dois milhões de dólares, a União Europeia doou fundos, Portugal juntou-se ao coro solidário, outros países seguiram o mesmo caminho. E aqui nasce a pergunta que ninguém quer responder com honestidade: até quando continuaremos a viver de donativos? Até quando a soberania moçambicana será medida pela capacidade de estender a mão? A palavra “doação”, curiosamente, vem do latim donare, que significa dar voluntariamente, mas também pressupõe alguém que recebe, alguém em posição de dependência. E a história ensina que sociedades que vivem longamente da dádiva acabam por normalizar a mendicância. Na Idade Média, os mendicantes sobreviviam da caridade, mas não decidiam o rumo da cidade e essa figura do mendicante não era apenas pobre era estruturalmente excluída do poder, da decisão e da autonomia. E hoje, cinquenta anos depois da Independência Nacional, Moçambique corre o risco de ocupar esse mesmo lugar medieval moderno simbólico no sistema internacional: o país que sempre precisa, o país que sempre espera. E que papel estamos a representar no palco do mundo? Mendicantes contemporâneos.

No dia 16 de Janeiro de 2026, quase uma semana depois da calamidade já instalada, decretou-se o alerta vermelho. As figuras centrais do Estado “foram para o terreno”. A frase é solene, quase cinematográfica, mas vazia de substância. Porque ir ao terreno não é sinónimo de salvar vidas sem meios. Embora tenhamos visto eles naquela a salvar 12 pessoas e afinal o helicóptero não era nosso? Enquanto isso, pedimos que a Zâmbia e a África do Sul enviem helicópteros para resgatar moçambicanos em solo moçambicano. E a pergunta aquela que dói impõe-se novamente: quantos helicópteros temos como Estado? Quantos estão operacionais? Quantos estão dedicados à evacuação humanitária? Quantos existem fora das fotografias oficiais? A resposta é constrangedora demais para ser dita em voz alta. Para salvar o povo, não há meios. Para outras finalidades, curiosamente, nunca faltam helicópteros.

Este contraste revela algo mais profundo, quase filosófico: o exercício do biopoder. O Estado decide, conscientemente ou não, quais vidas merecem mobilização total dos seus recursos e quais vidas podem esperar pela boa vontade internacional. Para controlar, vigiar e dissuadir, os meios aparecem com rapidez e imponência. Para resgatar, salvar e proteger, invoca-se a falta de capacidade. O poder que se exerce sobre os corpos em protesto é rápido; o poder que deveria proteger os corpos em perigo é lento ou inexistente. E isso diz tudo sobre como o Estado hierarquiza a vida. Quando há manifestações, o céu enche-se de aeronaves; quando há cheias, o céu fica estranhamente vazio. Isso não é acaso, é escolha política.

Dizem-nos que as ONGs estão organizadas, que a ONU está a mobilizar-se. E nós? Como estamos organizados enquanto Estado? As províncias são enormes, o país é vasto, as estradas frágeis, os meios escassos. O que isso sugere senão a ausência total de planeamento sério? O INGD tinha dados, históricos, alertas. As cheias não são surpresa; são cíclicas, anunciadas, quase ritualizadas. Mas o Estado comporta-se sempre como se fosse a primeira vez. Ignora-se a prevenção, despreza-se o investimento em capacidade própria e, depois, clama-se por ajuda externa. Não é incompetência ocasional; é método. E vejamos a disputa partidos no terreno “quem doa mais.”

E quando a ajuda chega, instala-se a velha suspeita que já virou certeza colectiva: para onde vai essa ajuda? Alimentos desviados, roupas acumuladas, bens humanitários transformados em mercadoria. As chamadas “roupas de calamidade”, expressão que ganhou força nos anos 2000, tornaram-se parte do nosso quotidiano. Roupas usadas, muitas vezes vindas de mortos anónimos do outro lado do mundo, vendidas em fardos, revendidas nos mercados, vestidas com normalidade, até com orgulho. Usamos as roupas dos falecidos e chamamos isso de sobrevivência. E talvez seja. Mas também é um símbolo perturbador de um país que se habituou a viver dos restos. O mais trágico não é usá-las; é sentirmo-nos confortáveis com essa condição, como se fosse natural, como se não merecêssemos mais.

E tudo isso acontece num país que se diz rico. Gás em Palma, rubis em Montepuez, grafite em Balama, carvão, ouro, areias pesadas, concessões por todo o território. Pergunta-se então, com juízo de valor e sem medo: para que servem esses recursos? Para que servem? Certamente não para garantir que, numa cheia, o Estado tenha helicópteros próprios, pontes móveis reais, estradas transitáveis, evacuação digna. A EN1 continua a colapsar, pessoas ficam dias presas no caminho, sem comida, sem água, sem dignidade, enquanto se anunciam reuniões, salas de operações presidenciais e futuras ajudas internacionais. A impressão que fica e é difícil afastá-la é que a tragédia, desta vez, nem foi escondida. Deixou-se o mundo ver. Quanto maior o choque, maior a compaixão; quanto maior a compaixão, maior a doação.

Cinquenta anos depois da Independência Nacional, Moçambique vive um paradoxo cruel e fiel, é um país riquíssimo que se comporta como eternamente carente. Fala-se de independência económica, mas não se garante sequer evacuação humanitária sem ajuda externa. Não se mobilizam meios próprios, espera-se pelos outros. E isso não é solidariedade internacional saudável; é dependência crónica. O helicóptero, aqui, não é apenas uma máquina. É metáfora. Metáfora de um Estado ausente quando devia estar presente. Metáfora de uma soberania incompleta. Metáfora de um país que exporta riqueza e importa salvação.

Quantos helicópteros temos como Estado para salvar vidas em emergências como esta? A resposta ecoa como acusação histórica: menos do que precisamos, menos do que podemos, menos do que deveríamos ter depois de meio século de promessas. Enquanto esta pergunta continuar sem resposta prática, Moçambique continuará a viver entre cheias previsíveis, guerras, comunicados tardios, doações recorrentes e um povo que aprende, dolorosamente, a sobreviver não porque o Estado o protege, mas porque o mundo, de tempos em tempos, se compadece.

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