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- Crise de combustíveis leva transportes à beira do colapso
- Governo impõe “preço” administrativo e gasolineiras voltam a esticar a corda
- Depois de uma semana sem diesel em Maputo, esta semana a crise agravou-se
Ainda antes do nascer do sol, as filas já serpenteiam pelas avenidas de Maputo e Matola. Há viaturas estacionadas há horas, algumas desde a noite anterior, numa espera incerta por combustível, com destaque para o diesel que, muitas vezes, não chega. Em vários postos, o cenário repete-se. Bombas encerradas, funcionários sem respostas e condutores exaustos. O mesmo quadro estende-se a outras capitais provinciais, onde a crise, menos visível mediaticamente, assume contornos ainda mais severos, pois fora dos grandes centros, o abastecimento é irregular e a escassez transforma-se em rotina. Como tal, a oferta de transportes diminuiu, as paragens andam abarrotadas e os “My Loves” voltaram a ser alternativa no meio urbano.
Evidências
É sábado. A noite ainda não terminou e já são centenas os automobilistas estacionados em fila indiana ao longo da Avenida Angola, em Maputo. A escassos metros está a sede do partido Frelimo da cidade, como se o destino quisesse ironicamente esfregar na cara de quem governa o país o aroma da crise dos combustíveis. Alguns dormem dentro dos carros, outros ao lado das viaturas, enquanto alguns se ajeitam com garrafões vazios apoiados nos pés. É o novo normal na capital moçambicana: pernoitar nas filhas dos postos de abastecimento, rezando para que, ao amanhecer, haja diesel ou gasolina.
Depois de uma semana marcada pela falta de diesel na capital, a situação agravou-se, expondo fragilidades profundas na cadeia de abastecimento, mas também uma pressão das gasolineiras. Segundo apurou o Evidências, as gasolineiras não receberam de bom tom a imposição de um preço administrativo pelo governo, na última actualização do preço dos combustíveis e voltaram a esticar a corda, manipulando os stocks, o que tem gerado escassez.
O Governo decidiu a 28.04 manter praticamente todos os preços que vinham sendo praticados desde antes da crise energética global causada pela guerra no Irão, numa altura em que todos os países da região e um pouco por todo o mundo já fizeram uma revisão em alta. Em cima da mesa, o Executivo tinha uma proposta das gasolineiras para o ajustamento do preço de combustíveis aos custos do mercado, com previsões a apontarem para um agravamento entre 20 e 30 meticais. Entratanto, em crise de popularidade e a temer agravar a situação social, o Executivo decidiu mandar passear as gasolineiras.
Fontes do sector apontam para constrangimentos logísticos, pressão sobre as importações e um modelo de preços administrativos que tem desincentivado a reposição regular por parte de algumas gasolineiras. O resultado é uma oferta intermitente que não acompanha a procura, sobretudo num contexto de forte dependência do diesel para a a economia nacional.
Transportes praticamente paralisados e a roçar o colapso
Os impactos são transversais, mas atingem com particular dureza o sector produtivo e os transportes. Máquinas paradas, carros parqueados e mercadorias retidas são agora parte do quotidiano. No transporte rodoviário, operadores enfrentam uma equação impossível: combustível racionado, longas horas perdidas em filas e receitas em queda.
“Já não conseguimos fechar a receita do patrão. Não é possível fazer duas ou três voltas com mil meticais e voltar à fila para tentar a sorte de novo”, relata um motorista de “chapa”, resumindo o drama vivido por centenas de transportadores, que vezes sem conta são obrigados a trocar o descanso noturno por pernoita nas filas de combustíveis.
“Cheguei às quatro da manhã e só consegui abastecer perto das nove”, desabafa Jorges Matchimbila, motorista numa empresa de trabalhadores, uma denúncia que expõe o caos, com o olhar cansado e a voz resignada. “Se não fizer isso, não trabalho. E se não trabalho, não como.” A frase, simples e crua, resume o impacto humano de uma crise que, embora discutida em termos técnicos, se manifesta de forma concreta na vida quotidiana.
Com o negócio praticamente inviável, muitos, que chegam a declarar preferirem que o governo ceda ao aumento do preço para pelo menos haver previsibilidade, optaram por recolher os veículos, tornando a escassez de transporte ainda mais visível nas paragens.
Há motoristas que passam dias consecutivos sem trabalhar, numa rotina marcada por idas constantes às bombas e regressos sem sucesso. É o caso de Filipe Halar, motorista na rota Ka Elisa – Baixa, que há três dias tenta abastecer sem sucesso. Segundo relata, começa o dia ainda de madrugada, deslocando-se entre diferentes bombas, mas sem conseguir garantir combustível suficiente para trabalhar.
“Saí de casa às 5 horas, fui às bombas da Malanga, porque ouvi que teria combustível na segunda-feira, mas quando cheguei às bombas apenas abasteceram poucas viaturas e depois disseram que o combustível tinha acabado. Para trabalhar o dia inteiro, precisamos de cerca de 50 litros, mas nem metade conseguimos, porque as bombas não abastecem o suficiente. Estou há três dias sem trabalhar, está-se mal, há fome”, desabafa.
A realidade repete-se entre outros motoristas, que enfrentam situações ainda mais extremas para tentar ganhar o pão. Em alguns casos, o combustível esgota-se em plena circulação, obrigando os condutores a abandonar temporariamente o trabalho e a procurar alternativas a pé. Mathula Cavele, motorista, conta que o seu dia foi interrompido de forma abrupta quando ficou sem combustível enquanto circulava na zona da CMC
“O meu carro desligou-se na zona do CMC. Empurrei até à zona do Xiquelene, mas, quando cheguei, o combustível acabou mesmo à minha frente. Disseram que havia combustível aqui nas bombas da Karl Max, então vim até aqui a pé. Mas está tudo muito cheio”, desabafa, visivelmente cansado.
O regresso dos infames My Loves
É aí que a crise ganha rosto humano. Paragens sobrelotadas, passageiros exaustos e a incerteza de chegar ao destino marcam o dia-a-dia, sobretudo nas horas de ponta. Sem resposta do sistema formal, a cidade recorre a soluções improvisadas e regressa a práticas que pareciam ultrapassadas. Os “My loves”, carrinhas de caixa aberta usadas para transporte informal de passageiros, voltaram a dominar as estradas, pelo menos na cidade e província de Maputo.
Sem chapas suficientes e com a pressão crescente por mobilidade, estes veículos reaparecem como alternativa imediata, embora precária, insegura e por demais humilhantes. Homens, mulheres e crianças seguem amontoados, expostos ao sol e ao risco, numa imagem que evidencia o retrocesso nas condições de transporte urbano, numa altura em que pelo menos na cidade de Maputo pareciam ter sido extintos.
Fora da capital, o cenário é ainda mais crítico. Em várias províncias, operadores relatam dias inteiros sem acesso a combustível, o que paralisa circuitos interprovinciais e agrava o isolamento de comunidades. O impacto estende-se aos preços dos bens essenciais, pressionados pelo aumento dos custos de transporte.
A crise de combustíveis, inicialmente percebida como pontual, revela-se agora estrutural, com efeitos em cascata sobre a economia e o quotidiano dos cidadãos. Entre filas intermináveis e soluções improvisadas, o país enfrenta o dilema de garantir o abastecimento ou assistir à normalização do improviso, onde os “My loves” deixam de ser excepção para voltar a ser regra.
Caos anunciado por um acto administrativo que ignorou os “players”
Na manhã seguinte ao anúncio da manutenção dos preços dos combustíveis, após a sessão do Conselho de Ministros de terça-feira (28), a ilusão de estabilidade dissipou-se rapidamente. À porta das bombas, filas intermináveis de viaturas, motociclos e até bidões organizados em vigília revelavam um país suspenso, à espera de um recurso que, embora com preço definido, se tornava cada vez mais difícil de obter.
A escassez não é homogénea. Enquanto na capital há maior disponibilidade relativa de gasolina em comparação com o gasóleo, em Pemba o cenário é inverso. Já na Beira, relatos de venda de gasolina a preços que chegam aos 120 meticais por litro, muito acima do preço oficial, indicam a emergência de mercados paralelos, onde a lei da oferta e da procura se impõe sem regulação efectiva. O acesso ao combustível transformou-se numa incerteza diária, marcada por madrugadas perdidas e rotinas desorganizadas.
O cenário expõe um braço-de-ferro silencioso entre o Governo e as gasolineiras, um confronto onde o preço é mantido por decreto, mas a disponibilidade parece refém de pressões e limitações do mercado. Cumpriu-se a promessa política de estabilidade de preços, mas falhou-se na garantia do essencial: o acesso.
Do ponto de vista técnico, a actual crise pode ser entendida como o resultado de uma distorção clássica. O desfasamento entre o preço administrado e o custo real de reposição do produto. Num contexto internacional marcado por volatilidade, com oscilações nos preços do petróleo e custos logísticos elevados, a manutenção artificial dos preços internos cria pressões sobre os operadores. Para as gasolineiras, vender ao preço fixado pode significar operar com margens reduzidas ou até negativas, sobretudo se o combustível disponível tiver sido adquirido a custos mais elevados.
Sem mecanismos de compensação, como subsídios temporários ou revisões na estrutura, o incentivo económico para manter níveis elevados de oferta diminui. O resultado é previsível: redução de stock, atrasos na reposição e, em casos mais extremos, retenção estratégica de produto. Embora nem sempre assumidas publicamente, estas práticas são frequentemente apontadas por analistas como formas de pressão sobre o regulador.
O Governo, por seu lado, sustenta a decisão com base na necessidade de proteger o poder de compra dos cidadãos e evitar efeitos inflacionários em cadeia. O combustível, sendo um insumo transversal, influencia o custo do transporte, da produção e, em última instância, dos bens essenciais. Um aumento de preços teria repercussões imediatas no custo de vida, num contexto já marcado por desafios económicos
No entanto, a protecção do preço não tem evitado o custo social da escassez. Pelo contrário, tem transferido esse custo para outras dimensões menos visíveis, mas igualmente pesadas: o tempo perdido em filas, o desgaste físico e emocional, a incerteza permanente. Para um motorista de chapa, cada hora parada representa menos rendimento.
Motoristas interprovinciais acumulam prejuízos com crise de combustível
A escassez de combustível está a paralisar o transporte interprovincial, com operadores a registarem prejuízos e a ponderarem suspender a actividade. Apesar do aumento da procura, muitos veículos permanecem imobilizados por falta de abastecimento.
“Há mais clientes, mas os carros estão parados. Quando conseguimos chegar às bombas, dão apenas 20 ou 30 litros, o que não chega para uma viagem”, explica Alexandre Matsinhe. Para rotas longas, seriam necessários cerca de 160 litros.
A situação agrava custos e reduz receitas. “Estamos a gastar combustível à procura de combustível”, lamenta. Paulo Nhantumbo descreve o cenário como insustentável: “Há dias em que nem conseguimos sair. Dizem que há combustível, mas não encontramos nas bombas”.
Mateus Machaieie aponta falta de clareza das autoridades, enquanto Inácio Paulo, com mais de 20 anos de experiência, afirma nunca ter vivido crise semelhante.
“Se dizem que há combustível, por que não está disponível nas bombas? O governo devia ser mais claro e dizer a verdade ao povo. O governo devia assumir a situação e dizer claramente o que está a acontecer. O povo precisa de saber a verdade”, defende Machaieie.
Segundo os entrevistados, para um veículo de transporte interprovincial, são necessários cerca de 160 litros de combustível para garantir uma viagem de ida e volta. No entanto, com os actuais limites de abastecimento, muitos são obrigados a recorrer a reservas ou até a práticas informais para conseguir encher os depósitos.
“Às vezes somos obrigados a subornar para conseguir abastecer mais. Caso contrário, dão apenas 10 ou 20 litros, o que não serve para nada”, revela um dos motoristas.
Com menos viagens e rendimentos em queda, o sector aproxima-se do colapso. “Se continuar assim, vamos parar os carros”, alertam.



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