O “Zeitgeist” Africano

OPINIÃO
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Estêvão Chavisso

O pensamento alemão definiu “Zeitgeist” etimologicamente como o “espírito da época”. Popularizado a partir do século XVIII, sobretudo no pensamento de Johann Gottfried von Herder, os alemães entendiam o “Zeitgeist” como a combinação das ideias e valores de uma época específica na história: o clima social e intelectual.

Ultrapassando a sua definição etimológica, coube a Hegel, a partir da formulação geral do seu Idealismo Absoluto, a sua redefinição, à escala filosófica, postulando-o não só como o “clima social e intelectual”, mas também como a “inteligência histórica colectiva”, partilhada por uma sociedade nos esforços para o progresso humano e para as transformações sociais.

A introdução da premissa hegeliana da “inteligência histórica colectiva” como a condição para reflexão sobre o “Zeitgeist” de um momento da história da humanidade torna impossível pensar num espírito da época universalizante, sobretudo no século XXI.  A Europa, a Asia e África vivem, cada um, o seu “Zeitgeist”, claramente influenciado por um passado que em diversos momentos se cruzou.

E qual seria o “Zeitgeist” africano? Obviamente, esta pergunta leva-nos à história, na ambição de compreender as dinâmicas e influências do perfil do africano moderno.

O pseudo-nacionalismo, fundado na ilusão pan-africanista que alimentou as lutas pelas independências, gerou grandes expectativas nas primeiras décadas, mas hoje desfaz-se perante as novas gerações, uma juventude sem o “compromisso histórico” que manteve a maior parte dos movimentos libertários no poder em seis décadas de um sonho que se transformou em pesadelo.

Com a corrupção e a pobreza estruturalmente instaladas, a subserviência governamental perante as instituições internacionais (Banco Mundial e FMI) revela uma descolonização incompleta, com o povo no limiar da pobreza, e as elites políticas, refasteladas em memórias das “velhas glórias”, julgando-se legítimos “donos da terra” para acumular riqueza.

Mais do que um neoliberalismo, canonizado desde a queda do Muro de Berlim (1989), o que a maior parte dos países africanos vive é a institucionalização da corrupção, quando a mesma se instala sistemicamente na administração pública, perpetuando a pobreza na maioria – que também é analfabeta.

A consequência é a distopia, que sustenta o simplista discurso eurocêntrico de terceirização do africano. Fanon classificou-o como o problema da “epidermização da inferioridade” negra: a interiorização de uma inferioridade associada à cor, no tempo e no espaço.

O discurso nostálgico de legitimação histórica dos movimentos libertários (hoje partidos dominantes) revela-se, no entanto, incapaz de convencer uma juventude com problemas urgentes, como as crescentes desigualdades económicas e o desemprego.

Face ao paradoxo entre a riqueza natural e a pobreza ao virar da esquina, parece-me uma rejeição ao “status quo” legítima, embora perigosa, tendo em conta que quem a lidera (o jovem moderno africano) perdeu as referências históricas e culturais. Consequentemente, perdeu a sua identidade ou, pelo menos, distorceu-a.

É este o africano do nosso “Zeitgeist”.  Do Cabo ao Cairo, em diferentes dinâmicas e realidades, é possível encontrá-lo em qualquer esquina, despido da sua história, cultura, sem instrução e à mercê da manipulação política, ideológica e religiosa – os novos instrumentos de colonização.

Nas ruas de Pretória, Johannesburg ou Durban, por exemplo, é este africano moderno que lidera a violência contra outros negros estrangeiros, na extensão dos traumas de um passado de segregação racial, promovendo o ódio. O argumento deste africano moderno para a violência contra outros negros é a protecção das fronteiras, curiosamente delimitadas arbitrariamente por um sistema colonial e contra as quais queríamos lutar quando criámos a Organização da União Africana, em 25 de Maio de 1963, em Adis Abeba, Etiópia.

É o mesmo africano assimilado que, em Maputo ou em Luanda, sentado num escritório qualquer, engravatado e penteado, acredita que o pedaço de papel que lhe foi atribuído por uma universidade (europeia ou africana) lhe dá algum estatuto de superioridade em relação à maioria, uma fotocópia pálida do antigo colono, vazio de cultura e de espírito.

É uma juventude imediatista, estruturalmente frágil e que, sem perceber, ainda padece dos traumas do passado colonial, perpetuando um eurocentrismo vazio, mesmo quando se autoproclama, de peito erguido, afrocentrista.

Por um lado, este é o resultado da colonização, que, além de bárbara, estrategicamente, destruiu o eixo dos pilares da estrutura das culturas africanas: línguas, valores, património e religiões. Por outro, a falsa democratização do espaço público que esconde um processo de aculturação ocidental, acelerada nos últimos anos pelos algoritmos da internet, que nos afasta ainda mais daquilo que nós somos, padronizou os nossos comportamentos, hábitos e vontades.

O africano do nosso “Zeitgeist” é um homem de identidade malformada, sem referências históricas ou culturais, refém de traumas de um passado servil e, consequentemente, política e ideologicamente “assimilado”.

Estas fraquezas na construção das nossas identidades tornam-nos incapazes de conceber nossas utopias comuns, limitando o “Devir” da nossa inteligência histórica colectiva e, consequentemente, tornando improvável qualquer mudança estrutural, pelo menos pelos próximos séculos.

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