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- Enquanto uns regressam, outros fazem movimento contrário
- Mais de 700 moçambicanos repatriados e nove mortos em uma semana
São 7 horas da manhã na fronteira da Ressano Garcia. O frio aperta e o termómetro marca cerca de 14°C, enquanto uma longa fila de pessoas se estende pelo posto fronteiriço, numa imagem que se repete todos os dias. São centenas de moçambicanos que atravessam a fronteira rumo à África do Sul, em busca de emprego, melhores condições de vida e oportunidades que não encontram no país de origem, um movimento que se mantém apesar da instabilidade vivida no país vizinho. Entre malas, sacos e olhares cansados, o movimento é contínuo, marcado pela esperança, mas também pela incerteza como o Evidências testemunhou este sábado. Enquanto uns partem, outros regressam de mãos vazias, devido a novos episódios de ataques xenófobos. Vários moçambicanos têm sido obrigados a voltar ao país com a roupa do corpo, depois de perderem tudo o que conquistaram do outro lado da fronteira.
Edmilson Mate, em Mpumalanga
A nossa reportagem atravessa a fronteira de Ressano Garcia, rumo à província sul-africana de Mpumalanga, cuja capital é Mbombela (antiga Nelspruit). Trata-se de uma das principais portas de entrada para milhares de moçambicanos que seguem para a “terra do Rand”, seja para fazer compras, trabalhar ou procurar oportunidades de negócio.
Dois dias antes da nossa chegada, a 04 de Junho, segundo informações relatadas ao Evidências, foram registadas na província de Mpumalanga manifestações na cidade de Witbank, durante as quais foram proferidas mensagens hostis contra cidadãos estrangeiros. Estes episódios acentuam o clima de tensão que tem vindo a preocupar comunidades migrantes, incluindo a moçambicana, que representa uma das mais numerosas na região.
Em Nkomazi, o movimento comercial decorre aparentemente com normalidade. As bancas de venda, pequenas lojas e estabelecimentos geridos por estrangeiros, incluindo moçambicanos, mantêm as portas abertas e o fluxo de clientes segue o ritmo habitual de um dia de trabalho. À primeira vista, o cenário transmite estabilidade.
No entanto, por detrás dessa rotina, paira um sentimento de incerteza que carrega de tensão o ambiente. Comerciantes e residentes entrevistados no local falam de receio e vigilância constante, sobretudo após relatos de episódios recentes de xenofobia registados em diferentes pontos da África do Sul. Entre conversas discretas, muitos afirmam viver “um dia de cada vez”, sem garantias sobre o que pode acontecer nas próximas semanas.
Sul-africanos ameaçam intensificar ataques a partir do próximo dia 30
Segundo os mesmos entrevistados, cresce a preocupação em torno do dia 30 do corrente mês, data apontada por alguns como possível momento de maior tensão e eventual intensificação de ataques xenófobos. Embora não haja confirmação oficial destas previsões, o simples rumor tem sido suficiente para aumentar o clima de ansiedade, levando alguns comerciantes a reduzir stocks, evitar grandes investimentos e preparar planos de contingência.
Assim, a maior parte dos moçambicanos na África do Sul encontra-se concentrada em três grandes áreas de actividade: minas, agricultura e sector informal urbano, com destaque histórico para o trabalho mineiro, que continua a ser uma das principais formas de emprego para migrantes moçambicanos no país.
Segundo informações actualizadas pelas missões diplomáticas e consulares de Moçambique, a situação de maior preocupação continua concentrada na província do Cabo Ocidental, onde se encontram actualmente acolhidos 169 cidadãos moçambicanos afectados pelos incidentes, dos quais 64 em Mossel Bay e 105 em Hermanus.
Os cidadãos acolhidos continuam a beneficiar de assistência prestada pelas autoridades locais, organizações da sociedade civil e outras entidades envolvidas na resposta humanitária. Em paralelo, decorrem diligências visando assegurar meios de transporte para o eventual repatriamento dos compatriotas que manifestem interesse em regressar a Moçambique.
Na província de KwaZulu-Natal, foram igualmente reportadas manifestações nas cidades de Durban e Pinetown, acompanhadas por actos de intimidação dirigidos a cidadãos estrangeiros, incluindo proprietários de estabelecimentos comerciais moçambicanos.
“Vivemos aqui, mas com muito medo do amanhã”
Marta Chibheve vive da troca de moeda entre Rand e Metical e de pequenos negócios informais. Faz parte da comunidade moçambicana na zona e afirma que a xenofobia é uma preocupação constante no dia-a-dia.
“Nós vivemos aqui, mas não sabemos do amanhã. Sempre que há rumores de ataques ou conflitos, ficamos assustados. Não sabemos se vamos conseguir trabalhar no dia seguinte ou se teremos de fugir para nos proteger”, revelou, com os olhos carregados de lágrimas não derramadas.
Marta explica que o medo já mudou a forma como vive e trabalha: “Já houve dias em que não saímos para vender nada. Preferimos ficar em casa porque qualquer confusão pode virar violência contra estrangeiros. Às vezes a própria polícia não faz nada.”
“Somos os primeiros a ser culpados”
João Manuel, de 34 anos, trabalha na construção civil e vive na África do Sul há mais de sete anos. Ele afirma que os estrangeiros são frequentemente apontados como responsáveis por problemas sociais.
“Quando há falta de emprego ou problemas no bairro, somos nós os primeiros a ser culpados. Dizem que estamos a tirar oportunidades dos sul-africanos, e isso cria tensão,” disse.
João descreve episódios de medo durante períodos de instabilidade e como essa incerteza do que está por vir tem transformado a vida e a rotina de todos.
“Já houve situações em que tivemos de parar de trabalhar porque havia ameaças. Ficámos fechados em casa, sem saber se no dia seguinte tudo estaria calmo ou não. Isso mexe muito com a nossa cabeça. Pedimos que o nosso governo tenha uma conversa séria com o governo sul-africano para resolver esta situação,’’ apelou o moçambicano, que busca na terra vizinha o que o país não consegue oferecer.
Outro nacional ouvido pelo Evidências, de nome Celso Cossa, que trabalha como segurança, relatou que a xenofobia também aparece de forma mais silenciosa, no ambiente de trabalho e nas relações diárias.
“Às vezes não é violência directa, mas sente-se o tratamento diferente. Por seres estrangeiro, há pessoas que não te respeitam da mesma forma, ” revelou.
A segregação e o preconceito são o prato de cada dia dos estrangeiros que carregam a “maldição da melanina” e não possuem “nacionalidade privilegida” (chineses, europeus e americanos). Cossa diz que já ouviu comentários ofensivos por ser moçambicano. Apesar disso, ele continua a trabalhar para sustentar os filhos em Moçambique:
“Já ouvi coisas como ‘vocês vêm tirar o nosso trabalho’. Isso dói, porque nós não estamos a roubar coisas de ninguém, estamos aqui só a tentar trabalhar e ajudar a família. Eu não tenho outra opção. Tenho de continuar, mesmo com medo ou tristeza. O mais difícil é estar longe da família e ainda viver com essa pressão”, conta.
Daniel Chapo reage à onda de xenofobia na África do Sul
O Presidente da República de Moçambique, Daniel Chapo, que, há cerca de um mês negou a existência de Xenofobia, destacando a convivência pacífica, manifestou preocupação face aos actos de xenofobia registados na África do Sul, sublinhando o impacto humano e económico da situação.
“Estamos perante actos de xenofobia que desestabilizam não só a economia da região da SADC, mas também a economia da própria África do Sul”, afirmou o Chefe do Estado.
Chapo explicou ainda que o Governo tem acompanhado de perto a situação desde os primeiros sinais de tensão, tendo activado mecanismos de coordenação com as autoridades sul-africanas para proteger cidadãos moçambicanos. Segundo o Presidente, a situação atingiu níveis preocupantes, resultando em vítimas mortais e na necessidade de assistência urgente aos afectados.
“Infelizmente, perdemos sete irmãos, principalmente na região do Cabo, na África do Sul”, declarou.
O Chefe do Estado afirmou que o Executivo moçambicano está a operar de forma contínua para garantir o regresso seguro dos cidadãos afetados.
“Como Governo, é nossa responsabilidade cuidar dos moçambicanos dentro e fora do país. Estamos a trabalhar 24 horas por dia para evacuar os nossos irmãos”, sublinhou.
Ramaphosa condena xenofobia e apela à convivência pacífica
O Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, condenou de forma firme qualquer acto de xenofobia no país, sublinhando que não há espaço para intolerância contra estrangeiros. O Chefe de Estado destacou que nenhuma pessoa ou grupo tem o direito de confrontar indivíduos nas ruas ou exigir documentos de identidade de forma arbitrária.
“Nenhuma outra pessoa tem permissão para confrontar alguém na rua, nas vias públicas do nosso país, para exigir prova de identidade”, afirmou.
Ramaphosa reforçou ainda que a sociedade sul-africana não deve ser associada a comportamentos xenófobos, racistas ou discriminatórios. O Presidente apelou à unidade nacional e alertou contra a manipulação de sentimentos sociais relacionados com imigração ilegal, que podem ser usados para incitar violência.
“Sabemos que os sul-africanos não são xenófobos, pois não há espaço para xenofobia, racismo, sexismo, afrofobia ou qualquer outra forma de intolerância na África do Sul. Não devemos ser tentados a nos juntar àqueles que querem que nos voltemos contra pessoas que não nasceram na África do Sul e que estão entre nós”, declarou.
Ramaphosa advertiu ainda contra grupos que exploram preocupações legítimas da população para fins políticos ou criminosos, tendo garantido que o governo sul-africano irá agir contra qualquer força que incentive a violência ou a desordem social.
“Não permitiremos que grupos usem as preocupações legítimas dos sul-africanos sobre imigração ilegal para desestabilizar o nosso país”, sublinhou.
Até o fecho dessa edição e de acordo com informaçoes oficias do Governo, foram repatriados 700 cidadãos, dos quais 169 nas últimas 24 horas, incluido 16 menores. Segundo os mesmos dados, estão em curso diligências para o translado dos corpos dos seis moçambicanos assassinados em Mossel Bay.
Segundo estimativas da ONU (UN DESA) e do Statistics South Africa, a África do Sul acolhe cerca de 2,4 milhões de imigrantes internacionais, dos quais entre 600 mil e 1 milhão seriam moçambicanos, embora o número real possa ser superior devido à migração irregular e temporária.
No que diz respeito à sua inserção laboral, dados do Instituto Nacional de Segurança Social de Moçambique (INSS) indicam que existem aproximadamente 19 mil trabalhadores moçambicanos no sector mineiro e cerca de 9 mil no sector agrícola, além de milhares que actuam no comércio informal e noutros serviços.



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