“Dhlakama nunca se deixou seduzir pelas vantagens e privilégios do sistema político” – Adelino Timóteo

CULTURA DESTAQUE
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  • Escritor revisita o legado do saudoso líder da RENAMO através do livro
  • “Morte de Dhlakama criou um vazio político evidente”
  • “A morte do Pai da Democracia” é nova proposta literária de Adelino Timóteo
  • “A história de Dhlakama está longe de ser encerrada”

A figura histórica de Afonso Dhlakama, um dos protagonistas mais influentes e controversos da história política moçambicana, regressa ao centro do debate nacional através da obra literária A Morte do Pai da Democracia, da autoria do escritor e jornalista Adelino Timóteo. O livro, com lançamento previsto para breve, propõe uma reflexão aprofundada sobre o legado político do saudoso líder da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), o impacto da sua morte na democracia moçambicana e os desafios que o país enfrenta num contexto marcado por incertezas políticas e questionamentos sobre o futuro do pluralismo nacional. Longe de se limitar a uma homenagem ou a uma simples narrativa biográfica, a obra revisita, com rigor e espírito crítico, a trajectória de um homem que, para muitos, desempenhou um papel determinante na introdução do sistema multipartidário e na consolidação democrática em Moçambique.  Em entrevista exclusiva ao Jornal Evidências, Adelino Timóteo abordou as motivações que o levaram a escrever a obra e analisou os efeitos da morte de Afonso Dhlakama na democracia moçambicana. Durante a conversa, o autor afirmou que o desaparecimento físico do antigo líder da “Perdiz” “criou um vazio político evidente”, cujos efeitos continuam a ser visíveis no sistema político nacional. Nas linhas seguintes, acompanhe os principais excertos da entrevista.

Elisio Nuvunga

Evidências: O que o motivou a escrever o livro A Morte do Pai da Democracia?

Adelino Timóteo – A principal motivação foi a consciência de que a morte de Afonso Dhlakama constituiu um dos acontecimentos políticos mais marcantes da história recente de Moçambique. Independentemente das posições que cada cidadão possa ter em relação à sua figura, é difícil negar que a sua ausência criou um vazio político cujos contornos continuam a ser debatidos até hoje.

O livro procura não apenas compreender esse momento histórico e as suas consequências, evitando interpretações precipitadas ou especulativas, mas também dar continuidade a um projecto iniciado com o Tomo I, publicado em 2019. Essa primeira parte procurou reconstituir a trajectória política de Dhlakama enquanto líder de um antigo movimento de guerrilha centrado no combate ao regime instaurado após a instalação do Governo de Transição, em Setembro de 1974. Trata-se, portanto, da continuação de uma reflexão que venho desenvolvendo há vários anos sobre o seu papel na história contemporânea de Moçambique.

Por que escolheu este título, que certamente suscitará diferentes interpretações no debate político nacional?

– Quando Dhlakama regressou a Maputo pela primeira vez, após a assinatura do Acordo Geral de Paz, procurou afirmar-se como uma das principais referências do processo de democratização do país. Acompanhei de perto as suas entrevistas ao jornalista britânico David Hoile, desde 1989, no Quénia. Nelas, Dhlakama manifestava preocupação com o facto de algumas das reivindicações que justificaram a luta da RENAMO estarem, na sua perspectiva, a ser secundarizadas pelas reformas democráticas conduzidas pelo então Presidente Joaquim Chissano.

Compreendendo essa mudança de paradigma, Dhlakama procurou reivindicar para si o estatuto de protagonista da luta pelo multipartidarismo. O título foi escolhido precisamente por remeter para um debate que permanece em aberto. Não pretende encerrar a discussão nem impor uma verdade definitiva. A expressão “Pai da Democracia” é utilizada por muitos moçambicanos para caracterizar o papel desempenhado por Dhlakama na abertura política do país. O livro procura analisar criticamente essa percepção e reflectir sobre o significado político da sua morte.

“Não é uma obra de exaltação, mas também não é uma obra de condenação”

O livro é uma homenagem, uma investigação histórica ou uma análise política da trajectória de Afonso Dhlakama?

– Diria que é uma combinação desses elementos, embora se trate, acima de tudo, de uma investigação histórica com uma forte componente de análise política. Não é uma obra de exaltação, mas também não é uma obra de condenação. O objectivo foi compreender uma figura que marcou profundamente a vida política nacional e cuja influência continua presente no debate público.

Enquanto jornalista, tive a oportunidade de acompanhar várias das suas digressões nas províncias de Sofala, Manica e Nampula. Esse contacto permitiu-me conhecer mais de perto alguns traços da sua personalidade e documentar aspectos relevantes da sua trajectória. Ao longo dos anos, fui reunindo elementos que considero fundamentais para serem partilhados tanto com as gerações mais velhas como com os mais jovens.

Que aspectos da vida de Dhlakama considera menos conhecidos pelo público e que procurou revelar nesta obra?

– Procurei destacar a dimensão humana de Dhlakama, as suas contradições, os momentos de isolamento político e o peso pessoal das decisões que teve de tomar ao longo de décadas de conflito e negociação. Muitas vezes, o debate público tende a reduzi-lo a um símbolo político, esquecendo o homem por detrás da personagem histórica.

A sua vida foi marcada por enormes sacrifícios. Perdeu a juventude em nome de uma causa que, ainda hoje, muitos interpretam de formas distintas. Apesar das adversidades, voltou a desafiar o poder em 2013 e, novamente, em 2015, demonstrando uma capacidade de resistência que marcou a sua trajectória. O livro procura recuperar essas diferentes etapas, seguindo uma abordagem cronológica que acompanha o seu percurso até à morte, sem descurar a complexidade da sua personalidade e das circunstâncias em que viveu.

Até que ponto a contribuição de Dhlakama foi decisiva para a introdução e consolidação do multipartidarismo em Moçambique?

– Creio que foi decisiva, embora não exclusiva. A democratização resultou de uma conjugação de factores internos e externos. No entanto, é difícil imaginar esse processo sem a presença de Dhlakama enquanto interlocutor político e militar. A sua participação nas negociações que culminaram com a assinatura do Acordo Geral de Paz constitui um marco incontornável da história nacional.

Queiramos ou não, Dhlakama foi um líder com forte capacidade de mobilização. Após a assinatura do acordo, em Roma, os seus homens deixaram de recorrer às armas, demonstrando a autoridade que exercia sobre a organização. Além disso, permitiu o regresso do Estado às zonas anteriormente controladas pela RENAMO. Goste-se ou não da sua figura, trata-se de uma personagem que continua a suscitar interesse entre os cientistas sociais. Seria um paradoxo reduzi-lo a uma visão simplista ou à designação de “chefe do banditismo”, como chegou a ser retratado em determinados momentos da história.

“Houve períodos de elevada tensão e momentos de aproximação”

Como o livro analisa a relação entre Dhlakama e os diferentes governos com os quais negociou ao longo da sua vida política?

– O livro procura mostrar que essa relação foi marcada, simultaneamente, pelo confronto e pela negociação. Houve períodos de elevada tensão e momentos de aproximação. Mais importante do que julgar retrospectivamente cada decisão, interessou-me compreender de que forma essas relações influenciaram a evolução política do país e moldaram o processo democrático moçambicano.

O livro aborda as críticas dirigidas a Dhlakama ao longo da sua carreira? Como procurou equilibrar as diferentes visões sobre a sua figura?

– Sim. Seria impossível escrever uma obra séria sobre Dhlakama ignorando as críticas que lhe foram dirigidas, sobretudo durante os períodos de divisões internas na RENAMO, que culminaram com os afastamentos de figuras como Raul Domingos e Daviz Simango.

Procurei ouvir diferentes perspectivas e basear a análise em factos verificáveis. O equilíbrio não consiste em colocar todas as opiniões no mesmo plano, mas em reconhecer a complexidade da personagem histórica e a diversidade de interpretações que a sua trajectória continua a suscitar. O objectivo foi oferecer ao leitor uma abordagem rigorosa e fundamentada, capaz de estimular uma reflexão crítica sobre uma das figuras mais marcantes da história política contemporânea de Moçambique.

Que impacto teve a morte de Dhlakama na política moçambicana e, em particular, na RENAMO?

– A morte de Dhlakama criou um vazio político evidente. A sua liderança possuía características muito próprias e assentava numa forte personalização. Desde então, tanto a RENAMO como o sistema político nacional têm procurado adaptar-se a uma realidade marcada pela sua ausência.

Se analisarmos o cenário com realismo, é possível argumentar que, após a sua morte, o processo político e a própria democracia entraram numa fase de letargia. Dhlakama exercia uma pressão constante sobre o Governo, obrigando-o a negociar e a corrigir determinados rumos sempre que, na sua perspectiva, o país se aproximava de tendências autoritárias. Hoje, temos uma democracia limitada e uma paz frágil, cuja estabilidade depende, em larga medida, do poder das armas.

O livro procura examinar essa transformação sem recorrer a especulações sobre cenários alternativos que jamais poderão ser comprovados. Há, actualmente, um sentimento de desalento em amplos sectores da sociedade moçambicana e é notório que muitas pessoas, incluindo antigos adversários políticos, reconhecem que a sua ausência deixou um vazio no equilíbrio das forças políticas.

“Nunca se deixou seduzir pelas vantagens e privilégios do sistema político”

Na sua opinião, a RENAMO conseguiu preservar o legado político deixado por Dhlakama?

– Essa é uma questão que continua em aberto. A RENAMO atravessa um período marcado por disputas internas entre diferentes grupos que procuram influenciar os destinos do partido. Algumas dessas correntes mantêm-se mais fiéis ao pensamento político de Dhlakama; outras, porém, parecem privilegiar interesses de sobrevivência e conveniência.

Apesar disso, certos elementos do seu legado permanecem vivos, nomeadamente a defesa do pluralismo político e da descentralização. Caberá aos historiadores e aos cidadãos avaliar, ao longo do tempo, em que medida a organização conseguiu preservar a sua capacidade de mobilização, influência e identidade política.

Que lições os actuais líderes políticos podem retirar da trajectória de Dhlakama?

– Talvez a principal lição seja a importância do diálogo. Dhlakama passou grande parte da sua vida entre o confronto e a negociação, mas compreendeu que os conflitos políticos prolongados exigem soluções políticas.

Outra lição fundamental é a necessidade de manter uma ligação permanente com as bases sociais. Dhlakama morreu junto daqueles que considerava serem os seus apoiantes mais fiéis, os sectores mais desfavorecidos da população. Nunca se deixou seduzir pelas vantagens e privilégios do sistema político. Essa proximidade com as bases constituiu uma das marcas distintivas da sua liderança.

Acredita que Moçambique tem valorizado devidamente as figuras que marcaram a sua história política recente?

– Creio que ainda temos um longo caminho a percorrer. Continuamos, em certa medida, prisioneiros de uma visão histórica marcada pelo monismo e padecemos de um problema recorrente: a ‘desmemória’.

Muitas vezes, avaliamos as figuras históricas com base em paixões partidárias e circunstâncias imediatas. No entanto, a maturidade histórica exige a capacidade de reconhecer méritos e limitações, sem transformar os protagonistas em heróis absolutos ou em vilões irremediáveis.

A minha principal preocupação é trazer para o debate nacional personalidades que, de uma forma ou de outra, estiveram associadas às grandes tragédias e aos complexos processos da luta pela democracia e pela libertação do homem moçambicano, mesmo correndo o risco de ser alvo de interpretações ou classificações que nem sempre correspondem às minhas intenções.

Que mensagem pretende transmitir às novas gerações que não acompanharam directamente a trajectória de Dhlakama?

Gostaria que as novas gerações compreendessem que a democracia não é um dado adquirido, mas uma construção permanente, marcada por avanços, recuos, conflitos e consensos. Conhecer a trajectória de Dhlakama é também conhecer uma parte importante da história da democratização de Moçambique.

Espero que os jovens se empenhem na promoção da cidadania activa e participativa, sem se deixarem limitar pelos rótulos ou pelos imperativos do “politicamente correcto”. Acredito que, ao libertarem-se dessas amarras, poderão prestar um valioso serviço ao país.

Pessoalmente, não gostaria de ser reduzido a uma mera caixa de ressonância de interesses alheios. Por isso, procuro dedicar-me à reflexão sobre os desafios do nosso tempo, com independência de pensamento e sem receios. Não pretendo estar vinculado a partidos políticos. Considero-me um homem livre desde a instauração do Estado de Direito, um sistema que devemos continuar a aperfeiçoar em benefício de Moçambique.

A terminar, depois deste livro, sente que ainda há capítulos da história de Afonso Dhlakama que merecem ser investigados?

Sem dúvida. A história de Dhlakama, da RENAMO e da própria transição política moçambicana está longe de estar completamente esclarecida. Existem ainda muitos testemunhos, documentos e episódios que merecem um estudo aprofundado.

O livro não pretende encerrar o debate, mas contribuir para que ele prossiga de forma séria, informada e responsável. Provavelmente, mesmo daqui a cinquenta anos, a narrativa sobre Dhlakama e a RENAMO continuará a ser objecto de investigação e de novas interpretações.

Persistem zonas envoltas em mitos e tabus, cuja compreensão caberá às novas gerações de investigadores. Eu considero-me apenas no início desse processo. Acredito que, no futuro, outros estudiosos e pesquisadores se dedicarão a documentar não apenas a trajectória de Dhlakama, mas também a dos seus companheiros de luta e os complexos caminhos percorridos em nome da democracia em Moçambique.

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