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Estêvão Chavisso
A hermenêutica Nietzschiana talvez carregue consigo a frase mais fiel para a compreensão dos tempos que o mundo actualmente atravessa: “não há factos, apenas versões”, escreveu Friedrich Nietzsche num dos seus cadernos, uma frase que viria a constar da obra póstuma “A Vontade de Poder” (1906).
Das manchetes dos jornais até à linha de tempo dos nossos perfis nas diferentes redes sociais, parece-me que a verdade, ontem consagrada como Realidade Objectiva, se tornou hoje relativa, numa altura em que teoricamente todos temos o direito à opinião.
Questiona-se tudo e mais um pouco. Dos temas mais simples, como a performance de uma equipa de futebol, até às leituras mais complexas, a exploração espacial ou as dinâmicas para o aumento da dívida pública.
Repentinamente, parece que todo o mundo passou a ter opinião, sem qualquer base e, sobretudo, sem o respeito pela Responsabilidade Argumentativa.
Umberto Eco (2015) concluiu que estamos perante a “invasão dos imbecis”, quando, à luz da suposta democratização do espaço público, o “direito” de opinião protege, ao mesmo tempo e na mesma categoria, um “imbecil” e um Prémio Nobel.
A questão levantada por Eco coloca-nos numa encruzilhada entre Liberdade de Expressão e Responsabilidade Argumentativa, numa conjuntura em que, em parte, como previu Francis Fukuyama(1992), a democracia expandiu-se, embora não se possa afirmar que estamos perante o “Fim da História e o Último Homem”.
Com direito à opinião teoricamente canonizado na maior parte dos nossos países e a difusão das plataformas que o tornam possível em larga escala, qualquer um passou a poder dizer o que pensa, mesmo que sobre o tema não tenha qualquer base sólida, o que viola, ao mesmo tempo, a responsabilidade de argumentar para moldar opiniões com base em factos e não meras opiniões.
É a violação de uma responsabilidade que devia ser assumida como intrínseca à democracia, na medida em que a liberdade de expressão tem, entre as suas finalidades, o dever de garantir o nosso progresso colectivo, tal como o próprio sistema propõe.
A posição de Eco, proferida após receber o seu doutoramento Honoris Causa em Turim em 2015, mereceu críticas face ao suposto elitismo que ela carregava, sobretudo porque, teoricamente, os fundamentos da Democracia neoliberal realmente consagram a um “imbecil” e a um Prémio Nobel o mesmo direito perante a Constituição.
Mas a conclusão da crítica é resultado de uma leitura leviana do que Eco quis defender, na medida em que o pensador italiano separou a Liberdade de Expressão do Direito à Informação.
Não há qualquer dúvida: a percepção da realidade na época que atravessamos está hoje sujeita a um conjunto de filtros subjetivos, baseados nas experiências e ideias (políticas, socais ou culturais) de cada um.
Esta é uma época marcada pelo pluralismo ideológico, onde nenhuma ideia é assumida como sendo universal, pelo contrário, a turbulência do período questiona a fundamento de ideias consideradas universais.
O filósofo francês Jean-François Lyotard (2003) considerou que a Pós-Modernidade é a época da incredibilidade em relação às meta-narrativas, o que revela decadência das “grandes ideias”.
No entanto, diferente do que aconteceu no início da Pós-Modernidade, que ousou questionar os fundamentos da Modernidade Iluminista, a época em que vivemos não só questiona às meta-narrativas, mas também os factos, a realidade objectiva e os elementos concretos que fizeram a própria ciência um campo progressivamente possível.
O problema não é ter uma opinião ou questionar argumentos, mas sim negar factos científicos, que resultam de séculos de pesquisa metodologicamente empírica de pessoas que deram à alma à epistemologia do conhecimento.
David Dunning e Justin Kruger, em 1992, aludiram a um problema social que viria ser um fenómeno à escola planetária e que provavelmente está na origem do problema a que assistimos hoje: o efeito Dunning-Kruger, a distorção cognitiva em que pessoas com pouco conhecimento ou competência numa área sobrestimam a sua própria habilidade.
Em Moçambique, o fenómeno ganhou forma nos últimos temos, com a multiplicação de painéis de debate em programas televisivos que promovem mediocridade e ignorância de todos as formas possíveis.
São infinitos os casos de pessoas que sofrem desta condição patológica, perdidos nos labirintos da sua própria estupidez e incapazes de reconhecer a sua própria ignorância, por vezes em temas muito específicos.
O que está em causa aqui não é ter uma opinião à volta de um determinado tema, mas sim a irresponsabilidade de emitir uma opinião para um público vasto e, por vezes, com limitações estruturais, sem bases científicas ou pesquisa, num acto que, muitas vezes, não só desinforma, como também manipula.
Quem lucra com esta estagnação colectiva no que David Dunning e Justin Kruger classificaram como o “Monte da Estupidez” são, como sempre, os políticos, sobretudo em sistemas como o nosso, em que a corrupção é sistémica e quem governa alimenta-se da ignorância das massas.
A situação piora ainda mais com a ascendência da extrema-direita mundial, que agora, discretamente, pisca o olho a África, camuflada em movimentos de contestação ao status quo, cujas principais ferramentas são a manipulação de massas a partir do ecossistema de guerra cultural e a “midiosfera extremista”.



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