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Quatrocentas e setenta e cinco camas, 14 salas de operações, oito pisos e um investimento de 42 milhões de dólares. A construção do Centro Cirúrgico Nacional arranca numa altura em que Moçambique procura reforçar a capacidade de realizar tratamentos altamente especializados no país e aliviar a pressão sobre um sistema que mobiliza cerca de três mil milhões de meticais por ano para a Junta Médica, a hemodiálise e a comparticipação de medicamentos.
A nova unidade, cuja primeira pedra foi lançada esta segunda-feira pelo Presidente da República, Daniel Chapo, será construída no Hospital Central de Maputo e resulta da cooperação entre os Governos de Moçambique e da República Popular da China.
O projecto prevê um edifício com cerca de 20.300 metros quadrados distribuídos por oito pisos, integrando 475 camas, 14 blocos operatórios, unidades de cuidados intensivos, serviços de urgência, imagiologia, laboratórios, farmácia e outras áreas de apoio clínico. Segundo a Presidência da República, um dos principais objectivos é reduzir a necessidade de transferir doentes para tratamento no exterior, reforçando simultaneamente a capacidade nacional de resposta em cirurgia especializada.
O investimento responde a um desafio há muito identificado pelos especialistas. Num estudo publicado na revista World Journal of Surgery, os investigadores concluem que “a prestação de cuidados cirúrgicos em Moçambique está abaixo das metas internacionais”, identificando apenas 54 hospitais com capacidade para realizar cirurgias e estimando que 44,9% da população vive em distritos sem acesso a este tipo de cuidados. O mesmo estudo calcula que o país realiza cerca de 367 intervenções cirúrgicas por cada 100 mil habitantes, um indicador que evidencia as limitações da oferta nacional.
O diagnóstico coincide com uma preocupação mais ampla da comunidade científica internacional. No relatório Global Surgery 2030, a Comissão Lancet defende que “a cirurgia é uma parte indivisível e indispensável dos cuidados de saúde” e sustenta que os objectivos da cobertura universal de saúde não poderão ser alcançados sem garantir serviços cirúrgicos seguros, acessíveis e financeiramente comportáveis. Para a Comissão, o défice de acesso à cirurgia constitui não apenas um problema clínico, mas também um obstáculo ao desenvolvimento económico e social.
“É neste contexto que ganha importância a redução das evacuações médicas. Embora o Ministério da Saúde não discrimine quanto desse montante corresponde exclusivamente à Junta Médica, o Governo reconhece que as despesas com tratamentos no exterior, a hemodiálise e a comparticipação de medicamentos representam um encargo anual de cerca de três mil milhões de meticais para o Estado e os parceiros. A expectativa é que o reforço da capacidade instalada permita, progressivamente, reduzir parte dessa pressão financeira.”
A necessidade de aumentar a capacidade instalada também tem sido reconhecida pelos responsáveis do Hospital Central de Maputo. Em 2024, o director-geral da unidade, Atílio Morais, afirmou que o hospital procura “alargar e aumentar a nossa capacidade de resposta”, reconhecendo que os indicadores cirúrgicos dos países africanos de baixo rendimento continuam aquém das necessidades. A nova infraestrutura deverá permitir concentrar tecnologia, equipas especializadas e blocos operatórios num espaço dedicado à cirurgia altamente diferenciada.
Com cerca de 1.500 camas, o Hospital Central de Maputo continuará a ser o principal hospital de referência do país. O Centro Cirúrgico Nacional funcionará como uma expansão dessa capacidade, permitindo realizar um maior número de procedimentos complexos em território nacional e reduzindo gradualmente a necessidade de recorrer a hospitais estrangeiros.
Mais do que acrescentar um novo edifício ao sistema nacional de saúde, o projecto procura responder a um desafio estrutural: aproximar os cuidados cirúrgicos especializados dos cidadãos, reduzir a dependência de tratamentos realizados fora do país e reforçar a autonomia de Moçambique numa das áreas mais exigentes da medicina contemporânea.



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