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Alexandre Chiure
Em 1974, quando se formou o Governo de Transição, tinha apenas 13 anos, muito novo para entender tudo o que estava a acontecer no país e poder discutir política. Acabava de chegar de Chibuto para juntar-me aos meus pais estabelecidos na então cidade de Lourenço Marques, hoje Maputo.
Não tinha acesso ao jornal. Escutava as emissões da Rádio Clube, agora Rádio Moçambique, quando o meu pai comprasse pilhas. Na época, não havia televisão e as redes sociais são coisas de hoje. A circulação de informação sobre o movimento revolucionário que se tinha desencadeado com a chegada dos guerrilheiros da Frelimo da guerra era limitada e de pessoas adultas.
Os dias eram iguais para mim, na minha idade, por conta da similaridade das rotinas: acordar, estudar, brincar, comer e dormir, mas aquela manhã era simplesmente diferente de todas. Muito agitada e movimentada. Era, afinal, o dia em que a população negra ia sair à rua numa manifestação contra cidadãos de cor branca.
Em Junho de 1975, o Presidente Samora Machel proclamou a independência nacional e disseram-me que, a partir daquele dia, tudo pertencia ao povo. Que as machambas eram do povo. Lojas do povo. Prédios do povo. Escolas, hospitais e polícia ao serviço do povo, que os recursos naturais eram do povo.
Ficou claro que a saúde e a educação eram duas das grandes conquistas do povo moçambicano e como estão hoje? Uma lástima. É verdade que a consulta, nos hospitais públicos, custa 7,00 meticais. Está acessível para todos os bolsos, mas o atendimento deixa muito a desejar. O pior é que as farmácias não têm medicamento e não há equipamento para o diagnóstico e tratamento dos doentes. Os que deviam mudar o rosto do sector buscam assistência nas clínicas privadas dentro e fora do país. Não vivem a situação.
É um facto que na pré-primária e na primeira classe, eu e os meninos da minha idade estudámos sentados no chão. Porque é que 51 anos depois continuamos com este fenómeno? É que as escolas são construídas sem olhar para o crescimento demográfico do país e ver quantos estabelecimentos de ensino primário e secundário devem ser erguidos em cada momento. As estatísticas estão para isso. Infelizmente, o Governo continua a construir de uma forma isolada para satisfazer promessas eleitorais. Isso não funciona.
Naqueles tempos, o povo tinha poder. Era ouvido em diferentes processos. Participava na tomada de decisões. O partido único, a Frelimo (1975-1986), trabalhava com o povo e em nenhum momento distanciava-se dele. Hoje, os políticos não querem saber dele, excepto nos tempos eleitorais. Alguns deles, mal-intencionados, usam o nome do povo para roubar e atrasar o país.
O povo denunciava bandidos. Pais, tios, avós, vizinhos entregam os seus próprios filhos, sobrinhos, netos, vizinhos à polícia e nada lhes acontecia porque havia um apoio político muito forte. A lei de protecção dos denunciantes existente no país não conseguiu resgatar esse relacionamento polícia-povo perdido ao longo de anos.
Nos bairros, todos nos conhecíamos uns aos outros. Nos fins-de-semana, fazíamos jornadas de limpeza, organizadas pelos grupos dinamizadores. Quando alguém mudasse de residência, tinha que apresentar, obrigatoriamente, uma guia de marcha às estruturas da sua nova zona. Era uma forma boa de sabermos quem é quem nos nossos bairros e essa plataforma funcionava. Tudo bem que acabámos com essa prática, mas não oferecemos nada em troca.
Hoje, não conhecemos quem é o vizinho de lado. Às vezes coabitamos, sem saber, com serpentes, cobras-mambas, escorpiões, para dizer pessoas foragidas da justiça ou gente de má conduta. Alguns só os chamamos de pai de Betinho ou de Joãozinho porque os seus filhos brincam com os nossos, mas não sabemos quem são eles e o que fazem.
No passado, ter um saco de arroz era um problema sério. O povo questionava tudo e nada. A vigilância era cerrada. Havia química entre a polícia e o povo. As armas nas mãos da polícia serviam para defender o povo e o povo era o informante da polícia.
Hoje, o povo não confia na polícia. A polícia mata cidadão indefeso com as famosas balas perdidas, disparadas, vezes sem conta, intencionalmente e, ainda assim, ninguém é responsabilizado. Pelo contrário, os agentes implicados são premiados com o silêncio.
Nos tempos do presidente Samora Machel não havia corrupção. Essas coisas de nhonga são de hoje. Além das chicotadas que as pessoas apanhavam, o país tinha a pena de morte. Parecendo que não, disciplinava a sociedade. Todos sabiam que se pisassem a linha vermelha ou levavam chamboco em público ou iam para a cadeia ou, na pior das hipóteses, podiam ser condenadas à morte.
Os partidos deixaram de ser os servidores do povo. O povo deixou de confiar nos políticos e nas instituições públicas. Está na moda alguém ir à política, nem que isso signifique pagar a consciência de quem quer que seja, para ter imunidade e poder matar, mandar raptar e cometer outros crimes sob protecção da lei, para além de poder ganhar negócios no Estado.
Gente que vai à política para se servir a eles próprios e não para servir ao povo como acontecia no passado. Samora Machel morreu pobre porque não roubou. O mesmo aconteceu em relação aos seus governantes (ex-ministros e ex-governadores). Hoje não diria o mesmo, salvo raras excepções.
A Frelimo de 1975 ensinou-nos que os dirigentes têm que ser os primeiros no sacrifício e os últimos nos benefícios. Ao que parece, esse princípio, para alguma geração de políticos, que reivindicam a sua vez, passou para a história. Para alguns deles, a ordem do dia é primeiro, eu; segundo, eu; terceiro, eu; quarto, eu. O povo para depois. É preciso o reencontro com o povo e reconquistar a sua confiança com actos concretos.
Infelizmente, a sociedade ganhou o hábito de normalizar o anormal. Legalizar o ilegal. Estamos a construir uma sociedade cheia de defeitos. Uma sociedade que transmite valores errados às novas gerações. Exaltamos maus exemplos. Confundimos democracia com a desordem e anarquia. Entendemos que os nossos direitos se sobrepõem aos dos outros, o que é errado. Isso tem que mudar. Vamos trabalhar!



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