Roberto Albino resgata “ladainha” com quase 50 anos de transformar Gaza em celeiro do País

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  • Ministro decreta fim das importações de hortícolas até finais de 2027

Quase meio século depois de Samora Machel defender que Gaza deveria transformar-se no grande celeiro agrícola de Moçambique, o Governo nunca traduziu este desiderato em realidade. De quando em vez, o sonho é resgatado, mas a inconsistência de programas, curiosamente do mesmo partido governamental, nunca levou a bons resultados. Agora, o Executivo, na voz do ministro da Agricutura, Ambiente e Pescas, Roberto Albino, volta a recuperar essa promessa histórica, com uma nova meta: acabar, até finais de 2027, com as importações de hortícolas provenientes da África do Sul e garantir que o mercado nacional seja abastecido pela produção interna.

Luisa Muhambe

A promessa foi feita pelo ministro da Agricultura, Ambiente e Pescas, Roberto Albino, durante uma visita de trabalho à província de Gaza, onde voltou a colocar a região no centro da estratégia nacional de segurança alimentar.

Segundo o governante, a capacidade produtiva existente, aliada à recuperação de infra-estruturas agrícolas e à organização da cadeia de comercialização, poderá permitir que Moçambique deixe de depender do mercado externo para satisfazer a procura de produtos hortícolas.

“Não queremos continuar a exportar divisas quando temos capacidade para produzir internamente”, defendeu Roberto Albino, sublinhando que o país possui condições naturais e recursos agrícolas suficientes para reduzir drasticamente a importação de alimentos.

Entretanto, apesar da ambição da meta, o ministro reconheceu que ainda existe um factor determinante que condiciona uma antecipação do fim das importações: a inexistência de uma estrutura eficiente de comercialização. Para o governante, a construção de um mercado grossista na região de Maputo será fundamental para garantir que os produtores nacionais consigam escoar a sua produção de forma organizada e competitiva.

“Tendo em conta o grande projecto de construção de um mercado grossista provincial, este é o único elemento que me impede de declarar o fim das importações mais cedo”, afirmou.

A declaração de Roberto Albino revive um dos mais antigos sonhos agrícolas de Moçambique. Logo após a Independência Nacional, Samora Machel defendia que Gaza deveria assumir-se como a principal plataforma de produção alimentar do país, aproveitando o potencial dos regadios do Chókwè, Baixo Limpopo e Massingir.

A visão de Samora assentava na ideia de transformar Gaza numa espécie de celeiro nacional, capaz não apenas de alimentar Moçambique, mas também de criar excedentes agrícolas. Contudo, quase cinco décadas depois, apesar de sucessivas promessas e programas governamentais, o país continua a importar grande parte dos hortícolas consumidos internamente, sobretudo da vizinha África do Sul.

Ao longo dos anos, diferentes iniciativas foram lançadas com o mesmo propósito: revitalizar os grandes perímetros irrigados, aumentar a produtividade e reduzir a dependência externa. Porém, a inconsistência de programas, limitações na gestão dos sistemas de irrigação, dificuldades de acesso ao financiamento, fraca capacidade de armazenamento, problemas de transporte e ausência de mercados estruturados acabaram por travar a concretização do projecto.

Para mudar este cenário, o Ministério da Agricultura pretende reorganizar toda a cadeia de valor agrícola. Uma das estratégias passa pela integração dos chamados mukheristas, comerciantes tradicionalmente associados à importação de hortícolas, no mercado nacional, incentivando-os a comprar directamente aos produtores moçambicanos.

A aposta do Governo é que estes comerciantes deixem de ser apenas intermediários de produtos estrangeiros e passem a desempenhar um papel na valorização da produção local, criando uma ligação mais eficiente entre o campo e os consumidores.

Durante a visita a Gaza, Roberto Albino percorreu a empresa Massingir Valley Farms, onde acompanhou a recuperação de cerca de dois mil hectares afectados pelas recentes cheias. O ministro visitou igualmente o distrito de Guijá, onde avaliou campos de produção de sementes de milho e feijão, tendo garantido que o Executivo está a trabalhar na reabilitação dos regadios de Chókwè e do Baixo Limpopo para assegurar a disponibilidade de água durante a campanha agrícola 2026/2027.

Apesar do optimismo oficial, a concretização da promessa enfrenta desafios estruturais. Moçambique continua altamente vulnerável aos efeitos das alterações climáticas, que têm provocado ciclos frequentes de cheias, secas e perdas agrícolas.

Organizações internacionais alertam que os fenómenos climáticos poderão continuar a afectar a produção alimentar nos próximos anos. A ACAPS prevê impactos prolongados do fenómeno El Niño na agricultura, enquanto a Rede de Sistemas de Alerta Precoce contra a Fome (FEWS NET) estima que milhões de moçambicanos poderão necessitar de assistência alimentar entre finais de 2026 e início de 2027.

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