Domingos Muando: Um escultor que conjuga os valores da tradição africana com a modernidade

CULTURA DESTAQUE

Se é verdade que a escultura contemporânea seja ela de que país for escapa cada vez mais ao Museu, transformada em arte pública, “a céu aberto” (afinal um revivalismo” do monumental), a musealização, todavia, permite-nos acercar de obras mais intimistas e problematizadoras das quais se desprendem, como as glicínias, ainda, a “AURA” LEGITIMADORA DA Obra de Arte.

Domingos Muando, pela sua formação moçambicana e pelas mediações culturais várias, conjuga os valores da tradição africana com a Modernidade, os valores telúricos e a racionalidade emotiva dos seus próprios tempos de integração e de complementaridades. Não é do “objecto africano” ou do “objecto trouvé” que se trata, no sentido estrito das genealogias, mas de transfigurações ou de um quase onirismo a partir dos estímulos (ou reflexões) sobre uma Antropologia centrada no Sul de Moçambique (Maputo), das suas raízes e das suas interrogações.

O Escultor recria a máscara na ambiência rural; evoca o seu carácter mágico e “recriador”, como rito de passagem (no ciclo solar); exalta os sinais ou fragmentos sexuados da «quizumba» ou do «mocho», os elementos pregnantes (ou arquétipos) de uma simbólica da Vida e da Fecundidade, da penetração e das polaridades, dos trabalhos e dos dias, trabalhando a Madeira como ninguém, de escopro, canivete e martelo em punho, à maneira de seus conterrâneos de Naftal Langa (1932-2014), seu Mestre e Mentor.

Na conjugação dos materiais, nas “assemblages”, nos desdobramentos ou transformações acerca-se, pois, o Autor das nominações de uma Cultura de erosões, no seu destino, ou do gesto salvífico da ecologia e da antropologia, como exigente comprometimento ou compromisso. Poderá a Obra de Arte não reproduzir o que é visível; julgo que não tem mesmo que o fazer. Deverá, talvez, interpretá-lo, de acordo com a sensibilidade do seu Criador. Terá sido isso o que Domingos Muando logrou materializar. Para tal, compreendeu ele bem a profundidade da simbologia da Máscara, de determinados animais, a razão da sua vivência nos rituais africanos, a sua imprescindibilidade nas Festas de F  undo Agrário que por estas terras de Norte a Sul de Moçambique sobrevivem à passagem do Tempo, às Vicissitudes da História, à Modernidade e à Globalização.

Domingos Muando encontrou a sabedoria do Povo e juntou-se à Ciência do Antropólogo. Conferiu aos dois saberes a mestria do Grande Artista Escultor que é, e tem trabalhado o Sândalo e o Mogno como ninguém. A sua Obra nasce todos os dias e está entre nós. Muando é um dos mais representativos Escultores Moçambicanos da actualidade, a nível de toda a África Austral e a suas peças oscilam no Mercado da Arte valores que se situam entre os 500 Euros e os 60 Mil Euros (Grande Formato). Na «Galeria de Arte Africana», ao Príncipe Real, em Lisboa, podemos ver várias esculturas do Artista em exposição, dentro do Pequeno e Médio formato, expostas para venda ao público.

Afonso Almeida Brandão, na versão imprensa do Jornal Evidências, ed. nr 06, de 16 de Março de 2021

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