Disputa de herdeiros do fundador da igreja IPHC leva à divisão de crentes

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  • Controlo de dízimo, património e fiéis divide irmãos e ameaça reputação da igreja
  • Fiéis da IPHC em Moçambique à deriva
  • Há paróquias que chegam a mandar 400 mil randes à África do Sul

Desde o falecimento do seu fundador, Frederic Mudise, a igreja International Pentecostal Holness Church (IPHC), uma das mais bem projectadas no sul do país, nunca mais foi a mesma, devido à guerra entre os filhos que disputam a herança do trono. Na África do Sul, de onde é originária aquela confissão religiosa e onde localiza-se a sede da mesma, a divisão dos crentes, dinheiro e património levou ao surgimento de seitas que partilham mesmos costumes, mas nunca o mesmo espaço. Não raras vezes, os encontros terminaram num autêntico banho de sangue.

Reginaldo Tchambule

A igreja foi fundada por Frederic Mudise, que viria a perder a vida, no final da década 90, tendo sido substituído por um dos filhos de nome Cleyton Mudise. Em 2016 quis o destino que este também fosse “dormir” (como é tratada a morte na igreja) e a partir desse momento a ganância dos filhos deste fez emergir os problemas que ameaçam arruinar toda a reputação da igreja e está a dividir os crentes não só na África do Sul, como também em Moçambique.

É que a igreja passou a estar no centro da disputa de três filhos, que reclamam legitimidade sobre o trono. Diante da falta de consenso, cada um deles tomou uma catedral que na linguagem da igreja chamam de brunch e controla subzonas, como se existissem pequenas seitas dentro da mesma congregação religiosa.

O primeiro a tentar tomar a sede da igreja, denominada Silo, localizada em Johanesburg, foi Tsepo Mudise, que após uma resistência dos crentes e seus irmãos, decidiu sair com seus seguidores e foi ocupar uma das principais catedrais localizada na zona de Springs.

Silo, devido à intensificação da disputa, continuava na incerteza e os crentes começavam a mostrar os primeiros sinais de divisão. Depois de três anos sem nenhum representante da família Mudise, veio o segundo filho, de nome Leonard Mudise a intitular-se dono do trono.

Este, diferentemente do primeiro, usou inclusive a força e a brutalidade para lograr os seus intentos. Tomou o “Silo” à força, tendo havido disparos, ataques violentos que culminaram com algumas mortes.

Por causa da forma violenta como tomou a sede da igreja, nunca granjeou grande simpatia dos crentes e, em Novembro de 2018, apareceu o filho primogénito de Clayton Mudise, de nome Michael Sandlane que conseguiu finalmente colher consenso dos crentes.

Sandlane, diferentemente dos outros irmãos, não tentou tomar a sede da igreja, estabeleceu-se numa branch (uma espécie de paróquia ou catedral) denominada Jerusalém em Pretória. Devido à forma de ser, acabou arrastando maior legião de crentes, tanto na África do Sul, assim como em Moçambique. Estima-se que tenha aceitação de mais de 70 porcento dos fiéis da igreja.

Entretanto, a sua conduta fora das lides públicas é questionável. Recentemente, um jornal sul-africano, baseado em depoimentos da esposa, acusou Sandlane de ser alcoólatra, agressor e adúltero, a ponto de ir à cama com algumas crentes da congregação.

O jornal Sunday World avança inclusive com a probabilidade de divórcio entre os dois, devido aos inúmeros episódios de violência doméstica atribuídos a Sandlane, para além de que a mantém numa espécie de cárcere proibindo-a de ter contacto com familiares e amigos.

O desespero dos crentes

Desde então, a igreja está dividida em três e os crentes, apesar de continuarem a envergar mesmas vestes, usarem mesmos símbolos, mesmas gravatas, entoarem as mesmas canções e cultuarem da mesma forma, não partilham o mesmo espaço e vivem em constantes disputas, que se têm mostrado violentas, sobretudo na África do Sul.

A maior parte dos crentes em Moçambique, nomeadamente das paróquias de Ferroviário, Manhiça, Magude, Matola H, São Damaso, Zimpeto e Marracuene estão com Michael Sandlane, enquanto os seguidores de Tsepo estão em zona Verde, considerada uma das maiores do país. O outro filho, Leonard, tem poucos seguidores.

“Por causa desta falta de entendimento na família real, neste momento muitos crentes encontram-se decepcionados e preferem ficar em casa. A diferença de ideias é tal que os crentes de zonas diferentes, que antes visitavam-se, hoje nem sequer se dão a mão”, narrou um dos crentes agastados.

“Nós só queremos a verdade. Queremos saber quem é o herdeiro legítimo do trono, porque se o último diz que é o certo por que é que não manda parar tudo isto? A essência da nossa igreja é paz e onde não há paz o Espírito Santo não existe, então se o Sandlane é o pai consolador era suposto que tivesse unificado a todas as partes e vivermos em paz. Os crentes ainda estão na esperança de ”, desabafa um dos crentes.

Controlo do dinheiro do dízimo como causa do problema

Em Moçambique nunca foi registado nenhum episódio de violência, mas os crentes estão divididos em três ramos e cada um presta tributo e encaminha o dízimo ao seu líder supremo, ou seja, a um dos herdeiros da igreja, o que mostra que a disputa pode ser alimentada pelo controlo do dinheiro do dízimo dos crentes.

Desde que a igreja chegou a Moçambique os pastores moçambicanos são proibidos de usufruírem do dinheiro do dízimo, devendo canalizá-lo na totalidade para à sede, o Silo, e de lá recebem apenas uma parte para despesas de funcionamento. Neste momento, o dinheiro é canalizado a cada um dos herdeiros.

“Todo dinheiro que é feito, os dízimos e as ofertas são canalizados para a África do Sul. Aqui em Moçambique não temos permissão para usar o dinheiro e se for a ver não temos nenhuma igreja digna em Moçambique, mas lá na terra deles foram construídos grandes templos. Há paróquias que nos dias de chuva ou sol passam mal, mas contribuem e as submissões todas são levadas para a África do Sul”, sublinha. 

O Evidências sabe que há muito dinheiro que está a ser tirado de Moçambique para a África do Sul, havendo paróquias que antes da interrupção dos cultos por causa das restrições impostas pela Covid-19 chegavam a canalizar mais de 400 mil randes resultantes do dízimo.

Na verdade esta não é a única igreja que está a exportar altas somas em dinheiro. Há tantas outras, como é o caso da IURD que se aproveitam do facto de a actividade religiosa não ser tributada em Moçambique.

No caso do IPHC cada igreja tem seu livro de controlo do dízimo e outras oferendas, que tem que ser levados junto com as “submissões” para a África do Sul para o controlo do que entrou e o que chegou ao destino.

Representante de Sandlane acusado de agravar divisionismo

Para permitir maior controlo sobre os fiéis, cada ramo da igreja nomeia o seu representante. Neste momento, o representante de Sandlane, o herdeiro que detém maior números de seguidores é acusado, por alguns fiéis em Moçambique, de estar a fazer vida negra aos presbíteros.

Trata-se de Titos Chichava, considerado cônsul da Igreja em Moçambique, que na opinião de seus pares está a desvirtuar os princípios da igreja.

“Como a maioria está com Michael Sandlane, este colocou seu representante aqui no país. Este cria muita confusão com os outros presbitérios, porque ele se acha o dono. Mas os mandamentos da casa grande são diferentes, por exemplo, em nenhum momento o dinheiro deve ser canalizado a ele, mas ele obriga que seja entregue a ele”, acusam alguns presbíteros ouvidos pelo Evidências.

Segundo os queixosos, Chichava está a governar a igreja, já dividida, com mão dura. Chegou a ponto de destituir muitas direcções das paróquias só porque não lhe dão dinheiro. Aconteceu recentemente na paróquia de Zimpeto onde retirou toda direcção porque queria ser assinante das contas.

“Em todo o lado ele mete a mão. Quando os pastores vão fazer submissões e ele fica a saber, faz vida negra. Há dias, a paróquia do aeroporto foi fazer submissão, ele ficou a saber, reuniu a todos e arrancou-lhes o livro de controlo. Ele é um corrupto, Ele quer que o dinheiro seja enviado a ele. As guerras que estamos a viver são por causa do dinheiro. Há zonas que mandam para África do Sul 100 mil randes por mês”, denunciaram alguns crentes ao Evidências.

Chichava diz que só fala com autorização e “não vai ser tão rápido”

Contactado pelo Jornal Evidências para posicionar-se a respeito do ambiente actual vivido na igreja e das acusações que pesam sobre si, Titos Chichava, representante de Michael Sandlane, que detém a maior franja de crentes em Moçambique, começou por dizer que conhece o problema na profundidade, mas só iria se pronunciar após autorização do líder da Igreja.

Pediu um período de uma semana para poder estabelecer contactos junto da liderança da igreja de forma a ter a autorização, tendo, na ocasião, ficado com os contactos da nossa reportagem. Passado o período combinado, sem que recebêssemos a sua chamada, voltamos a entrar em contacto e desta vez a resposta veio meio enrolada.

“O nosso líder, a pessoa que tem que autorizar, está fora da África do Sul. Viajou para fora de África, então é preciso fazer tempo até que ele volte. Este assunto não vai ser tão rápido como a gente gostaria. Tem que ter muita paciência. É expressamente proibido falar sem autorização prévia”, disse Chichava .

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