O que a crise da Ucrânia poderia nos ensinar

OPINIÃO

 Luca Bussotti

Fora das opiniões pessoais, um exercício analítico interessante, nesses dias, foi ler os jornais moçambicanos e sobretudo as redes sociais, onde comentadores mais ou menos experientes (mas justamente livres de expressar suas opiniões) se debruçaram sobre a maior crise europeia e talvez mundial dos últimos anos.

É possível notar uma evidente propensão para torcer, mais do que para perceber o que realmente está acontecendo naquele território, em favor de uma ou outra facção, com larga preferência para a Rússia de Putin. Trata-se de uma postura que pouco ajuda a opinião pública a compreender esta guerra que vê envolvidos de forma directa estados independentes (Rússia e Ucrânia), e de forma indirecta outros estados (Estados Unidos e todos os estados europeus), assim como organizações multilaterais (NATO e União Europeia). A opção pela “torcida”, provavelmente, é filha de duas razões: por um lado, pelo tipo de conflito que está ocorrendo neste momento na Ucrânia; e por outro em razão das convicções ideológicas e políticas enraizadas em boa parte da opinião pública moçambicana, assim como pela cultura política presente no país. Mas vamos por ordem.

O tipo de conflito desencadeado pela Rússia de Putin é filho de uma série de escolhas (vamos usar este termo mais neutro, preferindo-o ao outro de “erros”) que, dos dois lados, nos projectam para o passado e, portanto, nos induzem a uma postura de contraposição, mais do que de análise e compreensão. O primeiro elemento do passado é a NATO. A NATO surgiu em Washington, em 1949, como primeira organização multilateral dominada pelos Estados Unidos, com o autodefinido papel de “guardiã do mundo”; o Pacto de Varsóvia só surgiu seis anos depois, em 1955, como resposta soviética para balançar uma ordem internacional que se queria exclusivamente ser controlada pela NATO e seu país-líder. Foi assim que se formaram oficialmente os dois blocos contrapostos, que determinaram uma ordem bipolar internacional até a queda do Muro de Berlim. Em 1991, o Pacto de Varsóvia se extinguiu, pois as razões históricas tinham cessado de existir. Num mundo aparentemente pacificado, com vários dos estados antigamente na área de influência soviética a aderir ao modo de vida ocidental (em alguns casos até às instituições ocidentais, como a União Europeia), já não fazia sentido manter em vida uma organização daquela natureza, pois o Ocidente já não era o inimigo. Entretanto, a NATO não foi dissolvida, aliás, iniciou a sua expansão para Oriente, englobando vários países da antiga área de influência soviética. Este é o primeiro elemento de sobrevivência do século XX que passou para o XXI, que se queria século de paz e de relações internacionais baseadas em interesses e, eventualmente, até em conflitos, mas só de tipo económico, não bélico, principalmente depois da estabilização da península balcânica. Em suma, se a NATO é uma organização de defesa de tipo político-militar, é evidente que deve haver um inimigo… E esse inimigo, com o tempo, e sobretudo depois da queda de Gorbatchov, foi identificado na área euro-asiática, com a Rússia (o outro será Al-Qaeda e outras organizações radicais islâmicas).

Do outro lado, Putin usa muito mais o hard power do que o soft power, como típico do século passado, que foi o século das grandes guerras. A Ucrânia é apenas o último dos episódios que vão neste sentido: Tchetchênia em 1999 (como primeiro ministro de Yeltsin), Ossétia do Sul, em 2008, Crimeia, em 2014, são os momentos militares de maior envergadura protagonizados por Putin contra estados independentes e que estavam passando de um regime filo-russo a um filo-ocidental. As reações de Putin revelam uma postura que, mais uma vez, remonta ao século passado: em primeiro lugar, o Pacto de Varsóvia já foi extinguido, mas Putin se comporta como se este ainda existisse, invadindo países independentes e que já não aceitam uma relação de dependência de Moscovo; em segundo lugar, ele usa a guerra como instrumento de resolução dos conflitos. Modalidade, esta, que a opinião pública ocidental já não aceita e que considera de bárbara e completamente ultrapassada. Finalmente, Putin dá a ideia do homem forte, que luta contra o monopólio do poder dos ocidentais, dando a impressão de um herói que defende os interesses de um povo, o russo, contra as ingerências ocidentais (outra leitura demasiado simplista).

Todos esses elementos, do lado russo, juntamente com o acima recordado aspecto de uma NATO cuja razão de ser resulta mais ligada ao mundo bipolar dos dois blocos do século passado do que a realidade actual fazem com que a tendência para a torcida prevaleça em relação a uma postura mais analítica e profunda. O cenário internacional nos deixou cair de novo num clima de guerra fria de que não sentíamos a falta, mas de que é preciso fazer um esforço para nos libertar. Usando as categorias da contraposição NATO-Rússia impostas pelas evidências do teatro de guerra vamos recair nas lógicas do século passado, e o debate vai continuar a estagnar. Se quisermos dar uma contribuição original e provavelmente útil para que a pública opinião possa se formar uma ideia mais madura deste conflito vamos ter de usar categorias mais modernas, que afundem as suas bases nas novas teorias das relações internacionais, nos estudos da paz, até na economia, principalmente na sua vertente energética, e, porque não, na psicopolítica, uma componente geralmente negligenciada, mas que, pelo contrário, deveria ser considerada como auxílio para perceber melhor as opções estratégica deste ou daquele líder mundial.

Só saindo da jaula intelectual que esta guerra nos proporcionou é que poderemos, provavelmente, cessar de dar respostas preconcebidas sobre esta crise, iniciando a nos colocar questões a que os próprios actores políticos internacionais teriam dificuldades em responder. O que seria um óptimo serviço a uma opinião pública que, de momento, ainda não parece ter as ferramentas gnosiológicas para compreender a fundo este conflito que aparenta ser típico do século passado, mas que, pelo contrário, é não só moderno, mas provavelmente projectado para o futuro da humanidade.