Governo de Tshisekedi se insurge contra Ruanda e acusa o país de apoiar “insurgentes”

POLÍTICA
  • Parceiro “suspeito” de Moçambique é acusado de apoiar “insurgentes” no Congo

O exército da República Democrática do Congo (RDC) exige a expulsão, do seu território, dos militares ruandeses por supostamente apoiarem o grupo insurgente local, conhecido por M23 (23 de Março), e anunciou que vai suspender todos os acordos assinados com o país presidido por Paul Kagamé, um parceiro da primeira linha em Moçambique. Depois de acusações tímidas, a tensão ganhou outro tom. Neste momento, a RDC e o Ruanda estão à beira de uma guerra aberta. É o adensar das relações de Ruanda com os seus vizinhos na região dos Grandes Lagos, onde Kigali é acusado de alimentar a instabilidade em tudo que é lado, como já foi com Burundi e Uganda.

A República Democrática do Congo (RDC) e o Ruanda estão à beira de uma guerra aberta. O exército de Kinshasa (capital da RDC) acusa as forças de Kigali (capital de Ruanda) de cruzarem a fronteira da RDC depois de os guerrilheiros do M23 (23 de Março) ocuparem a localidade de Bunagana, na região do Kivu Norte, na RDC.

“As Forças de Defesa do Ruanda decidiram violar a intangibilidade da nossa fronteira, o que constitui, nem mais, nem menos, uma invasão da RDC”, disse o porta-voz do governo militar do Kivu Norte, general Sylvain Ekenge, que sublinhou que o exército da RDC iria “agir em consequência e defender a pátria”.

A região leste da RDC é rica em minérios e é palco de conflitos armados há várias décadas. Depois de um largo período de acalmia, os guerrilheiros do M23 voltaram a pegar nas armas no mês passado (Maio).

O governo de Félix Tshisekedi acusa o regime de Paul Kagamé, que já foi parceiro de luta, de apoiar a rebelião armada. No início de Junho, Tshisekedi afirmou publicamente que “não havia dúvida” de que Ruanda estava apoiando o M23 no território congolês.

Ruanda negou a acusação e, em vez disso, acusou o exército congolês de se aliar aos rebeldes ruandeses das Forças Democráticas para a Libertação de Ruanda (FDLR), activos no leste da RDC, cujos elementos são culpados pelo genocídio de 1994 contra os tutsis.

Na quarta-feira, a RDC também exigiu que Ruanda “prosseguisse com a retirada de suas tropas em solo congolês”. Não houve comentários imediatos de Ruanda sobre as últimas decisões de Kinshasa.

“Se o Ruanda quer guerra, terá guerra”

Na quinta-feira da semana passada, após uma longa reunião do Conselho Superior de Defesa da República Democrática do Congo, o porta-voz do Governo, Patrick Muyaya, anunciou a medida histórica: suspender todos os protocolos de acordos, acordos e convenções celebrados com o Ruanda”.

Patrick Muyaya, também ministro da Comunicação, disse que o Conselho Superior de Defesa exigiu que o Ruanda “retirasse imediatamente as suas tropas, que apoiam o grupo terrorista M23, do território congolês”.

Perante a crescente tensão militar, o general Sylvain Ekenge, que é porta-voz do Governo militar da província do Kivu do Norte, proclamou perante milhares de manifestantes em Goma, capital regional da República Democrática do Congo, que se o Ruanda “quer guerra, terá guerra”.

“Vamos fazer todo o possível para expulsar estes criminosos, estes terroristas e os seus apoiantes, do território nacional. Ruanda não gosta de nós. Nós não temos medo dele e iremos combatê-lo. Se o Ruanda quer guerra, terá guerra”, frisou.

O povo congolês se mobilizou em gesto de apoio às forças armadas. Em Goma, cidade fronteiriça com Ruanda, Jack Sinzahera, um manifestante agita a bandeira do Congo e caminha em direção à fronteira, acompanhado de milhares de manifestantes. Ele diz que estão prontos para a guerra. 

“Apelamos a toda a população congolesa para que se levante em apoio das nossas forças armadas. Chega, não podemos mais aceitar ser atacados pelos países vizinhos. Por isso existe uma mobilização popular para dizer não à agressão do Ruanda e do Uganda ao nosso país”, afirma.

Tshisekedi em Angola, com João Lourenço

A subida da tensão entre os dois países dos Grandes Lagos levou o presidente da República Democrática do Congo à Angola no início do mês em curso. João Lourenço, Presidente de Angola, foi mandatado pela União Africana para mediar o conflito.

Na semana passada, João Lourenço conversou ao telefone com o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, expressando preocupação com as tensões entre a RDC e o Ruanda, que justificam a realização urgente de uma cimeira em Luanda

Segundo Lourenço, a tensão entre os dois países “justifica a realização, com urgência, da Cimeira de Luanda, com Angola como mediador” e os chefes de Estado da RDC e do Ruanda, refere nota dos serviços de imprensa da Presidência angolana. 

O Presidente da República da Angola vai enviar, amanhã (quarta-feira, 22), o ministro das Relações Exteriores a Dacar para apresentar ao seu homólogo senegalês, Macky Sall, presidente em exercício da União Africana (UA), uma mensagem sobre os passos dados por Angola em cumprimento do mandato da Cimeira de Malabo, acrescenta a mesma nota. 

João Lourenço vai mediar as tensões entre a RDC e o Ruanda e recebeu, no início de Junho, a visita do Presidente congolês, Félix Tshisekedi, num encontro em que foram debatidas várias questões no âmbito de uma resolução pacífica do diferendo entre os dois países. 

Uma região em constante tensão com “dedo” de Ruanda

Ruanda, é um país “minúsculo” em termos territoriais, “apertado” por Uganda, a norte, Tanzânia, a leste, Burundi, a sul, e a República Democrática do Congo, a oeste. Dos quatros países com que faz fronteira, apenas com a Tanzânia está estável.

É que o país tem estado em troca de acusações com os seus vizinhos da região dos Grandes Lagos, uma região que mostra, nas últimas décadas, regresso às guerras regionais.

Além de troca de acusações com a RDC, Kagamé acusa o Burundi e o Uganda de apoiarem os rebeldes ruandeses ativos nas províncias do Kivu Norte e Sul da República Democrática do Congo (RDC) e ameaça exercer represálias na sequência dos ataques desses grupos ao seu país. Por sua vez, o Burundi e o Uganda afirmam que o Ruanda tem apoiado os rebeldes do Burundi e do Uganda na RDC.

As tensões entre o Ruanda e os dois países vizinhos, o Burundi e o Uganda, escalaram nos últimos dois anos. Em novembro de 2019, Kagamé ameaçou abertamente exercer represálias contra os seus vizinhos, na sequência de um ataque no Ruanda, em Outubro de 2019, perpetrado por uma milícia do Kivu do Norte (RDC), que alega ser apoiada pelo Burundi e pelo Uganda.

Por sua vez, o Burundi afirma que o Ruanda apoia rebeldes do Burundi baseados no Kivu do Sul, alegadamente responsáveis pelos ataques no Burundi. Os governos do Burundi e do Ruanda destacaram tropas na sua fronteira comum.

A rivalidade de longa data de Kagame com o seu homólogo ugandês, Yoweri Museveni, também mudou para pior, com o segundo a acusar o primeiro de apoiar os rebeldes baseados na RDC contra Kampala. Ambos líderes expurgaram das suas forças armadas respectivas oficiais considerados demasiado ligados à outra parte; o Ruanda fechou a principal passagem da fronteira Ruanda-Uganda e o Uganda destacou tropas na fronteira da RDC. A desconfiança crescente entre os países vizinhos da RDC acarreta riscos graves para o país, tendo em conta as consequências dessas rivalidades na história da RDC.

As relações frutíferas com Moçambique, mas com alguma dose de desconfiança

Enquanto na sua região Ruanda é colocado como um metido em grupos que alimentam instabilidade, o país tem se mostrado parceiro indispensável em Moçambique, depois que mostrou uma eficiência que expôs as fragilidades das Forças de Defesa e Segurança, em Cabo Delgado. Não precisou de um mês para retirar da mão dos terroristas o distrito de Mocímboa da Praia, que se encontrava com bandeira Jihadista.

Com a presença de mais de dois mil homens, sem previsão do fim da missão, Ruanda tem se destacado na luta contra os insurgentes em Cabo Delgado, numa contribuição cuja moeda de troca se desconhece, o que torna Kagamé um parceiro suspeito.

Uma suspeição que sobe de tom quando se sabe que, afinal, um parceiro de luta, um dia pode estar do lado oposto das trincheiras a apoiar insurgentes na luta contra o governo que um dia apoiou, tal como sugere o governo de Kinshasa.