A liberdade será uma consequência do liberalismo?

OPINIÃO

Afonso Almeida Brandão

Alexis de Tocqueville (1805-1859), em meados do Séc. XIX, escreveu que a pressão social entre os americanos causava efeitos mais negativos do que aqueles que a Inquisição causara entre as nações católicas. Dizia Tocqueville que a sociedade americana era, de tal maneira, influenciada pela opinião pública que aquele livro ou Autor negativamente avaliado pelos jornais era automaticamente rejeitado pela grande maioria dos cidadãos. Comparado com a realidade bastante comum dos católicos que escolhiam de propósito os livros que constassem do Index Librorum da Igreja Católica, Tocqueville via na nova Sociedade Liberal a cedência voluntária da privacidade em nome duma paz social necessária à manutenção das ideias de “democracia” e “liberdade” que as massas, na sua mentalidade egoísta e infantil, consideravam sagradas.

O liberal francês, na sua análise da Sociedade Liberal, conseguiu antever muitos dos malefícios que surgiriam, num futuro muito próximo, da Sociedade Capitalista que nascia das revoluções liberais. Na sua análise dos pontos negativos da jovem sociedade americana, Tocqueville parece concordar com outro intelectual da altura, Donoso Cortés (1809-1853), com o facto de que o progresso tecnológico sem limites, apanágio das sociedades burguesas, traz consigo o fim da liberdade e o controlo social, primeiro pela Comunidade e depois pelo Estado.

Os liberais clássicos, como Alexandre Herculano (1810-1877) ou Tocqueville, diagnosticaram na actualidade política  e social o gérmen do Globalismo. A dispersão  social causada pelo Liberalismo fez do vulgo e daqueles capazes de o manipular, como a Comunicação Social, suficientemente fortes para invadir a esfera do privado e do doméstico e contaminá-lo pelo pensamento oficial das facções políticas dominantes.

Por outras palavras, o Liberalismo começava desde cedo a matar a Liberdade.

Donoso Cortés, cuja alianças políticas são difíceis de definir, discursou abertamente nas Cortes de Madrid sobre a morte da liberdade relacionada ao progresso tecnológico e à crescente capacidade do Estado para utilizar novas técnicas, desde meios de transportes mais rápidos e maiores até aos meios de comunicação, cada vez mais intrusivos e indispensáveis, para espiar os cidadãos. Segundo Donoso, a seguir aos «mil braços», a Burocracia e o Exército, o Estado possuía agora mil bocas e mil ouvidos, em clara referência ao telégrafo e a outras novidades da época, com que controlar cada Homem.

De facto, o Liberalismo estabeleceu, definitivamente, na Europa todas as pequenas tiranias que foram combatidas pelos europeus no tempo do Absolutismo. Contudo, como estas tiranias vinham em nome do «povo» e da «soberania popular», e não já dos reis de direito divino, acabaram por ser aceites como marcos civilizacionais em vez de violência deformantes. A escolaridade obrigatória, a uniformização linguística e administrativa, o sistema métrico, a padronização do ritmo laboral ao longo dos dias, meses e anos, o horário das refeições, etc., etc.. A vida Europeia começou a organizar-se de acordo com regras muito rígidas a um ritmo alucinante. Só alguns países escaparam e sempre de forma imperfeita. Em Espanha, por exemplo, conseguiram manter os velhos hábitos medievais das refeições. Hoje em dia, toda a Europa olha para o hábito das «tapas» espanholas como algo alienígena.

Esta Europa Liberal, burguesa e arregimentada do Séc. XIX preparava o caminho para os grandes colectivismos do Século seguinte.

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