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“Não nos assustamos”, Guebuza reaparece com discurso de esperança em meio à crise

O antigo Presidente da República, Armando Guebuza, muito ausente dos holofotes, entende que a crise de que o País padece não deve ser motivo de susto ou de desânimo do povo moçambicano, pelo contrário, deve ser vista como uma turbulência passageira, de onde é preciso tudo fazer, “com o objectivo claro de sairmos destes momentos críticos mais unidos, reforçados e com mais experiência”. Guebuza, cujo afastamento público foi notório, principalmente no período eleitoral, discursava no simpósio realizado no último sábado, um evento que marcou o fim da celebração do 80º aniversário, que em 10 meses trouxe reflexões da vida e participação na construção da pátria, uma iniciativa conduzida pela Fundação Armando Emílio Guebuza.

 

É unânime, dentro e fora da Frelimo, a ideia de uma administração que empurrou o país à crise, mas não foi neste pensamento que Armando Guebuza falou da crise. Ele não apontou os culpados, não detalhou como essa crise se manifesta e muito menos trouxe a crise numa perspectiva política, mas apontou o quanto é real e lançou um apelo para participação colectiva e ânimo na busca de soluções, num discurso carregada de uma convicção: “daqui devemos sair mais conhecedores, dada a experiência que estamos tendo neste momento. E, daqui, devemos levar às nossas crianças para patamares que não assistam de novo esses momentos desse tipo de crise”. Um “tipo de crise” que não foi desmistificado, mas foi apontada a solução.

Discursando para marcar a ocasião, a um público onde estava mais de uma dezena de antigos governantes, e outros camaradas próximos e indicados a dedo, depois de um sumiço nos holofotes, Armando Guebuza reconheceu que Moçambique está passar por uma situação de crise, mas que tal não deve ser motivo para se assustar.

Nas palavras do antigo estadista, no intervalo de 2004-2009, “o nosso país vive uma crise. Mas, para nós outros que vivemos momentos críticos ao longo destas últimas décadas (…), não nos assustamos”.

Prosseguindo, Guebuza disse que é a experiência que vai permitir que os moçambicanos não tenham este “tipo de crise” repetida no futuro.

“A experiência não é somente ouvir as experiências dos outros, mas também devemos ouvir as nossas experiências. Mas a experiência não é somente ouvir as experiências, ela deve se transformar em lições. Devemos aprender dela para melhorar e para evitar novas crises”, poetizou o político, que, afinal, é também poeta.

Consciente de que estamos perante a um grito conjunto com os demais moçambicanos, que na sua maioria já se manifestou publicamente, até dentro do partido, onde são os casos de nomes sonantes, como Graça Machel, Teodato Hunguana, Teodoro Waty, Samora Machel Jr., Mulweli Ribeiro, Brazão Mazula, entre outros, prosseguiu que “gostaria de juntar a minha voz à dos outros moçambicanos, para dizer que este não é o momento de estarmos desmotivados, mas sim de dizermos, ‘daqui temos de sair mais fortes como país, como nação, mas também como sociedade’. Daqui devemos sair mais conhecedores, dada a experiência que estamos a ter neste momento, e daqui devemos levar as nossas crianças para patamares em que não tenham de assistir ou viver de novo este tipo de crises, porque as crises também têm de mudar; temos de aprender delas para não as repetir”.

Recorrendo à analogia das turbulências que os aviões experimentam em pleno voo, mas que depois se estabilizam e terminam com a aterragem nos seus destinos, Guebuza disse que “temos momentos críticos sim, mas estes não podem, nem devem desanimar os moçambicanos”.

Um retorno tímido ao lado de presidenciáveis na porta da sucessão?

Na tenda montada no meio de uma mata na localidade de Ndixe, posto administrativo de Matalane, distrito de Marracuene, na província de Maputo, Guebuza fazia-se acompanhar da sua esposa, Maria da Luz, e de entre os participantes destacaram-se dois antigos primeiros-ministros, nomeadamente Luísa Diogo e Alberto Vaquina, para além de José Pacheco, que já ocupou as pastas da agricultura, do interior e dos negócios estrangeiros e cooperação. Os três já concorreram às internas da Frelimo para sucessão presidencial e dois destes já estão posicionados e estão em lobby para ver seus nomes nas internas, porém este é um assunto que o Evidências deverá trazer com toda riqueza de detalhes nas próximas edições.

O discurso de Guebuza foi mais de reconciliação, diferentemente do último simpósio, que marcou o início das celebrações dos seus 80 anos, onde o discurso esteve claramente direcionado aos camaradas. Na ocasião, chegou a referir que se “o colonialismo Português não conseguiu calar-nos, vencer as nossas convicções, não são os nossos camaradas que vão conseguir fazê-lo”.

Foi na mesma linha em que disse que a sua família está a ser alvo de perseguição e justificou o seu posicionamento com a prisão do seu filho Ndambi Guebuza, no âmbito do seu envolvimento nas “Dívidas Ocultas”, e o assassinato da sua filha Valentina Guebuza, que também assume ser parte do plano de perseguição.

Do resto, o antigo PR, apesar do que chamou de “turbulências”, se considera um homem de sorte, na medida em que os seus pais, como muitos, não conseguiram viver por tantas décadas.

Durante as décadas de vida, escreveu o seu nome nos anais da história de Moçambique desde a sua participação em movimentos cívicos, na luta clandestina e no que chamou de “acção directa” – a luta armada de libertação.

Membro da Frelimo desde a sua fundação, em 1962, Guebuza assumiu vários cargos ministeriais desde a independência, em 1975, tendo entre 1990 e 1992 liderado a equipa do governo nas negociações de paz com a Renamo. Em 2002 tornou-se Secretário-Geral da Frelimo, e de 2005 a 2015 assumiu as funções de Presidente da República.

As celebrações do octogésimo aniversário começaram no dia 20 de Janeiro, a data precisa do seu nascimento, com a realização em Maputo, de um simpósio onde se tornou claro o seu desconforto com a actual governação, incluindo o facto de o seu filho, Nambi, não poder ter estado presente nas festividades, por se encontrar a cumprir uma pena de prisão devido ao seu envolvimento nas dívidas ocultas.

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