Como o consulado Nyusi arrisca terminar sem legado? (1)

EDITORIAL

Desde a primeira República, todos os Governos tiveram seu espaço na história por levar a cabo reformas profundas que permitiram que deixassem o seu legado nas páginas do jovem país. É por isso que cada um dos presidentes que o pais teve é inconfundível, e nenhum se limitou em ser apenas produto do seu tempo, pelo contrário, usaram dos desafios da época para provar que mereciam a confiança dos moçambicanos e não para justificar o insucesso ou se vitimizar.

O Presidente Filipe Nyusi, que está a menos de 8 meses do fim do mandato, representa o oposto de todos eles. Muito longe de Samora Machel, que proclamou a independência; de Joaquim Chissano, que construi bases políticas e económicas para o país desenvolver, e de Armando Guebuza, que recorrendo às bases existentes e construídas pelos seus antecessores, apesar de algumas discordâncias com estes, socorreu-se das mesmas para desenvolver o país. Mesmo um adolescente da periferia de uma capital provincial, onde não tem educação opcional se não a convencional (em continua degradação), não teria dificuldades para apontar o legado de Machel, os feitos de Chissano ou exaltar as construções de Guebuza.

Há aqui, nos três, uma coerência estadual no sentido de complementar cada um os efeitos de outro. Criando, no gráfico, uma linha de um país em contínuo progresso, apesar de lento.  É através de complementaridade que se constroem projectos colectivos como um Estado. E em meios às críticas, os avanços foram inquestionáveis. Por exemplo, no caso de Guebuza, o facto de alguém discordar da preferência da construção da Ponte Maputo – Katembe no lugar de EN1, não deixa de tornar esta Ponte um marco histórico.

O Presidente Nyusi, o único com histórico problemático devido as acusações de corrupção, entra também num contexto problemático e, infelizmente, foi engolido pelos problemas da sua época e não conseguiu converter a seu favor, pelo contrário, chegou a cogitar recorrer a eles para se perpetuar no puder. Encontrou o barco em alto mar e deixou-se sucumbir à primeira tempestade, por isso, em vez de dar continuidade ao que o seu antecessor deixou, tentou inventar a roda e deitou tudo por água baixo. Volvidos quase dez anos de seu mandato, só no ano passado 2023, quando faltava um ano para o fim do seu inglório reinado, é que disse ter criado bases para o desenvolvimento do país, dando a entender que, ele próprio, implodiu o edifício (país) que encontrou e começou a colocar as suas próprias fundações (bases) para o que se pretende de projecto de Estado. É uma espécie de insulto aos legados de Samora, Chissano e Guebuza.

Mas é do resultado inverso das suas reformas que vem este editorial. Primeiro, foi o erro na identificação do que precisava ser reformado, segundo foi o resultado negativo destas reformas, terceiro é a falta de humildade em reconhecer o fracasso e insistir nestes erros. A Administração Pública, a Educação, a Saúde, o Banco de Moçambique, o sector empresarial do Estado, a Tabela Salarial, as Forças de Defesa e Seguranças, sofreram reformas no consulado Nyusi e estão todos piores que há dez anos, quando Nyusi e seu Executivo tomaram o poder. O resultado foi totalmente o inverso e a realidade de um Moçambique vista à lupa sem lentes embebecidas de paixão, não deixa espaço para nenhuma dúvida. O país está mal. Aliás, é a frase que mais ecoa tanto da voz dos mais esclarecidos, passando pelos mais conservadores até desaguar no mendigo da esquina.

Longe de TSU cujos efeitos caóticos são de todos conhecidos, no momento que escrevemos estas linhas, na Banca Comercial, que passou agora para o sistema da Euronet, em substituição da Bizfirst, culminando com novos cartões, funcionam com intermitência, ora recusando os pagamentos via POs, ora não reconhecendo a senha do usuário, ora o próprio sistema em constante não funcionamento. Enfim, um autêntico caos. Nos ATMs e nos POS’s já é comum o valor ser debitado sem ter sido sacado pelo dono, o que faz com que alguns operadores prefiram o pagamento em dinheiro do que cartões, sobretudo pela noite. E só nos casos de sorte é que há estorno (antes a reposição do valor não sacado não passava de uma hora), levando os clientes a medir forças com os bancos. E o cidadão não é informado de nada. Completamente de nada. Rogério Zandamela, qual Xerife cuja estrela já não brilha, activou o modo mudo, cumprindo uma marca sua de desrespeito pelo povo que demonstrara num passado não multo distante quando se recusou a prestar qualquer esclarecimento ao parlamento sobre o Fundo Soberano. Os problemas na banca comercial são tratados com toda naturalidade do mundo, com arrogância a mistura. É isto também legado de Filipe Nyusi, que blindou os seus nomeados, dando-lhes carta branca para um desfile insano de arrogância e prepotência.

No sector empresarial do Estado, não se sabe ao certo se o fracasso das reformas está relacionado com incapacidade de gestão, ou é efeito de gestão danosa, voltada ao Takeaway, ou seja, a preparar a marmita para depois de deixar a Ponta Vermelha.  Continua…

Promo������o

Facebook Comments