Jornalismo não é crime. E matar não é solução

EDITORIAL
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O depoimento público da jornalista Selma Inocência, revelando ter sido vítima de envenenamento por metais pesados durante uma estadia num hotel em Maputo, é mais do que um grito pessoal de sobrevivência; é um alerta que rompe o silêncio e denuncia, com coragem, o ambiente tóxico que se tornou o exercício do jornalismo em Moçambique.

Segundo a própria, o alegado envenenamento ocorreu em Março deste ano, após ministrar uma formação na capital. O simples acto de informar, ensinar e questionar bastou para que o seu corpo fosse alvo de uma tentativa de apagamento, silenciosa, limpa aos olhos, mas suja no propósito.

A denúncia de Selma lança luz sobre sombras antigas que pairam sobre a nossa sociedade: aquelas mortes “naturais” de opositores, dissidentes, vozes incómodas, que a opinião pública já aprendeu a aceitar como fatalidades. E a questão que não deve calar é: quantos foram silenciados por meios sofisticados, tecnológicos, sem deixar marcas evidentes, sob diagnósticos convenientes como “ataque cardíaco”, “diabetes” ou “complicações da COVID-19”?

Num Estado que se diz democrático, não se pode tratar o jornalismo como crime nem tolerar que a eliminação física seja uma resposta institucional ao desconforto político. Vivemos tempos em que o mal se moderniza, e até os que se levantam por causas nobres, como informar, fiscalizar, oferecer subsídios à boa governação, tornam-se alvos de um sistema que prefere o silêncio à transparência, e todos os métodos de apagamento à convivência com o dissenso.

O atentado contra Selma Inocência é um aviso cruel. Mas é também um chamado à lucidez colectiva. Precisamos de repensar em quem confiamos, com quem caminhamos e, sobretudo, a quem permitimos o acesso às nossas vulnerabilidades. Num ambiente onde as instituições se mostram frágeis e cúmplices pelo silêncio, cabe à sociedade civil, aos jornalistas, aos académicos e a todos os cidadãos atentos erguerem a voz, não só por Selma, mas por todos os que já não podem falar.

A memória recente não permite esquecer casos como os de Afonso Dhlakama e Daviz Simango, cujas mortes foram atribuídas a causas clínicas, sem autópsias toxicológicas independentes, num contexto em que a dúvida é inevitável. Selma teve a sorte de contar com clínicas capazes de identificar a tentativa de envenenamento. E quantos não tiveram?

O jornalismo não é crime. É pilar de qualquer sociedade livre. A democracia morre quando os seus mensageiros são perseguidos, e os problemas do país jamais se resolverão à base do medo e da eliminação.

Matar jornalistas, opositores ou vozes incómodas não resolve a crise, apenas a adia, enquanto o custo humano e moral se acumula. Moçambique precisa não de silêncio, mas de coragem. Não de vítimas, mas de instituições fortes. Não de conivência, mas de verdade. E a verdade, como a de Selma, mesmo envenenada, sempre encontrará uma forma de florescer.

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