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- Mala com droga desaparece em Maputo apesar do alerta da Interpol
- Operação para sumiço de cocaína envolveu funcionários da MHS, LAMA e militares
- A droga saiu via base aérea e foi entregue aos donos na estrada que dá acesso ao bairro de Inhagoia
O Aeroporto Internacional de Maputo tem sido palco recorrente de escândalos ligados ao tráfico de drogas, revelando fragilidades profundas no controlo fronteiriço e expondo uma vasta teia de cumplicidades entre funcionários civis, militares e até empresas públicas. O mais recente episódio, registado na quarta-feira (27), ilustra de forma gritante essas falhas, com um carregamento de uma mala de 20 quilos de cocaína a desaparecer diante da vigilância internacional, mesmo após alerta da Interpol. Segundo apurado, após a notificação da Interpol sobre uma passageira brasileira que viajara pela Ethiopian Airlines, a mala com a droga foi retirada do circuito normal de fiscalização no Aeroporto de Maputo. Em vez de ser apreendida, a bagagem acabou por ser desviada com a colaboração de funcionários da MHS (empresa de handling), da LAMA (responsável pela limpeza de aeronaves) e de militares afectos à Base Aérea, que entregaram a droga aos donos que aguardavam do lado de Inhagoia. Toda esta operação de fazer sumir a droga ocorria enquanto homens do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) aguardavam no exterior do terminal, onde já tinha sido detida a cidadã brasileira usada como “mula” no transporte do carregamento.
Nelson Mucandze
Recentemente, a Interpol notificou as autoridades moçambicanas de que uma cidadã brasileira viajava de São Paulo para Maputo, via Ethiopian Airlines, transportando cocaína numa mala. A informação permitia preparar o cerco, com o Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) aguardando a chegada do voo, mas, como não tem acesso directo à zona restrita do lado aéreo, ficou dependente do procedimento habitual, em que as malas passam pelo raio-X e pela triagem antes de chegar ao desembarque.
Quando a passageira desembarcou, os investigadores já tinham identificado a mulher. Porém, a mala que deveria conter a droga nunca chegou ao tapete de bagagens. O objecto, com cerca de 20 quilos (não estando claro se todo o peso correspondia à cocaína ou se havia outros produtos camuflados), tinha desaparecido no intervalo entre a descarga do avião e a área de recolha.
As imagens de vídeo-vigilância e as diligências posteriores revelaram o percurso da mala. Um funcionário da LAMA, empresa de limpeza de aeronaves, retirou a bagagem suspeita, colocou-a num carrinho de transporte e levou-a até à zona da base aérea, contígua ao terminal de carga. A partir daí, militares das Forças Armadas assumiram a operação, levando a mala até contactos externos localizados em Inhagoia, onde o carregamento foi entregue e rapidamente ocultado.
A investigação interna revelou o envolvimento de, pelo menos, três funcionários da LAMA, sete da MHS (empresa de handling aeroportuário) e quatro militares das Forças Armadas. Ao todo, 14 pessoas foram detidas, estando já concluída a legalização das prisões. A brasileira identificada pela Interpol acabou detida pelo SERNIC, mas a droga que deveria servir como prova do crime já estava fora do alcance das autoridades.
Este episódio soma-se a um histórico preocupante. Há anos que circulam denúncias sobre o desaparecimento de cargas suspeitas no Aeroporto de Maputo, sobretudo envolvendo cocaína oriunda da América Latina. O padrão é semelhante: alerta internacional, detenção de correios humanos, mas perda inexplicável das malas com droga, que, frequentemente, “somem” nas áreas restritas do aeroporto, zonas de acesso controlado por empresas estatais e estruturas militares que, através da base aérea, acabam partilhando o acesso com a zona de terminal de cargas.
Apesar das detenções, permanece uma dúvida central: quem são os verdadeiros donos da droga? A rede de transporte interno funcionou com eficiência, retirando a mala em minutos, desviando-a da vigilância e entregando-a aos receptores finais. No entanto, não há mandantes presos, o que levanta suspeitas de protecção ao mais alto nível.
Fontes ligadas ao processo reconhecem que a Interpol, ao accionar alertas deste género, não procura apenas apreender o produto, mas, sobretudo, identificar o circuito e os protagonistas do tráfico. Ainda assim, em Moçambique, a sucessiva “desmaterialização” das provas físicas compromete investigações e reforça a percepção de que o país é um dos corredores privilegiados do narcotráfico internacional.
O caso da brasileira e da mala desaparecida não é isolado. Nos últimos anos, a circulação de drogas pelo Aeroporto de Maputo tem sido associada a redes organizadas que envolvem pessoal das empresas concessionárias, membros das Forças de Defesa e Segurança e operadores privados. A falta de responsabilização efectiva dos mandantes perpetua um ciclo de impunidade, onde apenas peças menores são sacrificadas, enquanto os beneficiários do tráfico permanecem intocados.
A mala que saiu do avião da Ethiopian Airlines rumo a Inhagoia é apenas o mais recente símbolo de um problema sistémico, resumido na captura de instituições por interesses criminosos que transformaram um dos principais portões do país numa porta giratória para o narcotráfico global.



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