Segurança sólida e tecnológica para os investimentos estrangeiros, precária e frágil para as comunidades

DESTAQUE POLÍTICA
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  • Ataque à Vila de Mocímboa da Praia e expõe abandono ruandês e segurança selectiva
  • Ruandeses cada vez mais concentrando esforços em Afungi
  • Parque de GNL da Total transformou-se numa ilha. Abastecimento só por mar e ar

A vila de Mocímboa da Praia, em Cabo Delgado, foi, entre 2020 e 2021, a “capital do califado” proclamado pelos insurgentes afiliados ao Estado Islâmico, onde já estavam a montar um sistema de administração política. A sua reconquista em Agosto de 2021 pelas forças moçambicanas, apoiadas pelas botas ruandesas foi apresentada como vitória decisiva. Entretanto, quatro anos depois, o regresso dos ataques à mesma vila mostra que os terroristas mantém capacidade de reorganização e ataques ousados, mas também uma aparente segurança selectiva, em que a tropa ruandesa vai diminuindo a sua presença e capacidade operativa nalguns distritos antes sob sua guarda, agora para se concentrar-se exclusivamente no objecto do seu lucrativo contrato em Moçambique, a proteção do empreendimento da Total Energies.

Evidências

Domingo, 7 de setembro, comemora-se o dia da vitória. São 23 horas em Mocímboa da Praia. O silêncio da vila, que durante os últimos quatro anos aprendeu a viver sem grandes sobressaltos depois da sua retoma, é quebrado por rajadas de tiros vindos do Bairro Trinta, na vila sede.

“Desta vez foi forte”, contou uma fonte local ainda com a voz embargada, contando que os insurgentes entraram sorrateiros, mas não tardaram a impor-se com disparos que ecoaram pela vila inteira. De casa em casa, pediam para abrir as portas. Aos que resistiam, a brutalidade foi imediata.

“Amarravam e degolavam”, relatou um morador citado pelo portal News24, descrevendo pelos menos quatro mortos, o que precipitou que famílias inteiras fugissem para as matas. Só regressaram à cidade no dia seguinte.

“Meninas correram para o mato, não sabemos de todas. Até agora há famílias que ainda procuram os seus filhos”, acrescentou a mesma fonte, testemunhando que o ataque prolongou-se até a madrugada

E o pânico não era para menos. O ataque traz consigo memórias de 2020 quando a vila foi tomada e transformada em “capital” da insurgência durante quase um ano e que havia sido reconquistada em 2021 pelas forças moçambicanas e ruandesas. Foi também em Mocímboa da Praia onde os terroristas deram o seu primeiro tiro do conflito que dentro de dias vai completar oito anos.

Desde então, Mocímboa da Praia entrou para o eixo controlada pelos ruandeses, uma divisão que predominou sobretudo durante a presença da missão da SAMIMI, para evitar colisões entre as diferentes tropas.

O ataque à vila sede do distrito expõe agora, um aparente abandono gradual das forças ruandesas das suas anteriores zonas de influência. Só para se ter uma ideia, com relatos de tiros que se começaram a ouvir por volta das 22 ou 23 horas, a tropa ruandesa só chegou ao local, por volta da uma hora, quando os terroristas já estavam a deixar o local.

“Parece que era quase uma da manhã quando terminou. Os ruandeses ouviram o barulho e foram para lá, mas quando chegaram os insurgentes já estavam em fuga”, disse outro residente, apontando a sensação de abandono.

Afinal, onde estavam os ruandeses?

O perímetro Palma, Mocímboa da Praia e um pouco de Macomia era desde 2021 controlado por Kigali, com operações rápidas e robustas, mas parece hoje fragilizado. Com a mudança da placa giratória dos interesses do petróleo e gás, impondo uma nova forma de abstacer logisticamente o projecto, parece que o empenhamento do Ruanda reduzido a Afungi, um enclave fortificado em torno do megaprojeto da TotalEnergies.

Fontes locais relatam que os militares ruandeses estão praticamente confinados à zona de Afungi, onde se ergue o megaprojeto de gás natural liderado pela TotalEnergies. A área transformou-se numa espécie de ilha fortificada, com fortes restrições de circulação e abastecimento feito quase exclusivamente por via marítima e aérea.

É que, enquanto mantinha a sua indefinição quanto a retoma ao seu canteiro de obras, a Total Energies, conseguiu uma concessão do Governo para passar a operar a sua logística em regime de ilha, ou seja, ser abastecido apenas por ar e mar, e cada vez mais distante da realidade das populações.

Desde Junho, a área do parque de GNL na península de Afungi será totalmente inacessível por via terrestre quer para entregas de materiais, quer para circulação de pessoal. O facto foi revelado pelo diretor-geral da TotalEnergies no País, Maxime Rabilloud, numa video conferência com empresas contratadas e subcontratadas.

Os factos alimentam uma perceção crescente de que o esforço internacional em Cabo Delgado está a transformar-se numa segurança seletiva: sólida e tecnológica para os investimentos estrangeiros, precária e frágil para as comunidades locais.

O ataque a Mocímboa da Praia, apenas 80 quilómetros a sul de Afungi, é prova disso. Enquanto o perímetro industrial funciona em regime de enclave protegido, a vila vizinha revive o pesadelo de 2020, quando chegou a ser a “capital do califado” do Estado Islâmico em Moçambique.

Nos últimos dias, a imprensa nacional tem denunciado o que considera um “isolamento propositado” da península, onde segurança redobrada para os interesses multinacionais contrasta com o abandono das populações vizinhas de Palma e Mocímboa.

“Parece que Afungi já não faz parte de Cabo Delgado, mas de um território privado dentro de Moçambique”, desabafou, há dias, um morador de Palma, numa entrevista a  STV.

Entre as novas medidas de segurança introduzidas pela TotalEnergies em Afungi, inclue-se tecnologia de vigilância, barreiras logísticas e sistemas próprios de transporte e fornecimento.

Enfim, oito anos depois do início da guerra em Cabo Delgado, a realidade é dura: o terrorismo não foi derrotado, apenas contido. Mocímboa da Praia, outrora símbolo da vitória contra os jihadistas, volta a ser palco de sangue e medo. Enquanto Afungi se ergue como fortaleza do capital estrangeiro, os cidadãos de Mocímboa, Palma e Macomia continuam a ser carne para canhão de uma guerra sem fim à vista.

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