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John Kanumbo
Às vezes sinto que vivemos presos num ciclo que se repete como um relógio avariado. Quer dizer: o governo projecta, o FMI corrige, e nós, como sempre, ajustamos o cinto. Recentemente, anunciaram que o Estado arrecadaria 421,9 mil milhões de Meticais em 2026. O FMI discordou, baixou a fasquia, e agora fala-se em 361,8 mil milhões. E, como sempre, o corte não cai nas extravagâncias, cai nos serviços essenciais.
Se já faltavam enfermeiros, medicamentos, professores, carteiras, estradas e água potável, preparem-se — porque o cenário não vai melhorar. As gorduras do sistema, essas nunca sofrem cortes. Engordam, crescem, protegem-se e replicam-se.
E depois dizem que não aprendemos… nem de nós próprios, nem dos outros. Lula da Silva esteve cá na semana finda, recebeu um Honoris Causa (sei lá), e em vez de estudarem como ele transformou recursos nacionais em desenvolvimento real, preferiram tirar fotos para as redes sociais. É assim: enquanto o mundo procura estratégias, nós procuramos ângulos de fotografia.
No país real, aquele que não aparece nos discursos, a crise continua a pulsar. No norte, a guerra consome inocentes. Em Manica, escândalos envolvendo figuras ligadas à governação geram indignação e ainda por cima envolvendo a família da governadora, o que deixa muitos a questionarem o sentido de justiça. Na educação, Chapo disse uma verdade dura: diploma já não garante emprego. E não garante mesmo — não num mercado desigual, politizado e sem rumo claro. As famílias lutam, sacrificam-se, pagam propinas, acreditam… mas o País não acompanha o esforço delas.
E no meio dessa confusão toda, lembro-me de uma caricatura de modelo que teria lido onde um pai e filho conversam num meio em tom de ironia amarga, meio em desabafo sincero, disse-lhe: que, num misto de ironia e tristeza, disse ao pai: “Pai, estou a pensar juntar-me à carreira do crime organizado.” Ele olhou para o filho e respondeu: “Política, igreja, ONGs ou sector privado ligado aos partidos ou ao Estado?”
Doeu ao ler mais do que me fez rir. Porque essa resposta, por mais irónica que seja, é um retrato fiel da percepção nacional: o que deveria ser serviço público tornou-se, muitas vezes, um campo de interesses obscuros. E como se não bastassem todos os problemas, fomos surpreendidos com mais um episódio que mostra a dimensão da nossa fragilidade institucional: o cancelamento dos exames da 9ª classe.
O Ministério da Educação e Cultura anunciou, através de comunicado de imprensa, que as provas de Química, Língua Inglesa, Física e História foram canceladas devido à violação dos envelopes — uma fuga vergonhosa de exames. Reagendou tudo para os dias 08 e 09 de Dezembro de 2025, lamentando “o sucedido”.
Mas lamentar não chega. Este episódio é uma prova brutal de desorganização administrativa e falha estrutural do sistema educativo. Expor milhares de alunos à insegurança, ansiedade e prejuízos académicos não é acidente — é negligência. Revela fragilidade nos mecanismos de controlo e ausência de medidas preventivas para processos críticos.
Num país sério, alguém seria responsabilizado. Haveria investigações, demissões e processos disciplinares. Quem viola envelopes não é um aluno; é alguém dentro do sistema. É possível seguir a teia até à base — mas estamos em Moçambique, onde a lei parece aplicar-se sempre aos mais fracos e protege, quase maternalmente, os que estão no topo.
Curioso que, quando é para cancelar exames, tudo se faz imediatamente.
Mas fraude eleitoral? Aí já não há pressa, nem cancelamento, nem indignação. Essas fugas e fraudes são reflexo directo daquilo que a elite política transmite à sociedade. É o exemplo que vem de cima. Quando os de cima violam regras, os de baixo aprendem a repetir comportamentos.
Permitam-me deixar uma opinião simples se é conveniente: seria razoável criar três variantes dos exames — Sul, Centro e Norte — ou até versões por província. Em caso de fuga, identificar-se-ia facilmente o ponto de falha e punir-se-ia localmente, sem prejudicar todo o país.
Mas sejamos honestos também mesmo com três variantes, os mesmos meliantes teriam acesso às três. Tristemente. O problema, acho eu, não é a elaboração das provas; é a falta de condições, de ética, de fiscalização e de responsabilização. Quem está dentro sente-se seguro para violar porque sabe que nada acontecerá.
E se eu fosse Chapo? Aliás, um Chefe do Estado não dum grupinho. Hoje mesmo demitiria a Ministra de Educação e todo o seu elenco. Porque liderança exige firmeza e seriedade. Mas como corruptos nunca se combatem — apenas se protegem, se emulam e se perpetuam — isso nunca vai acontecer. E como eu não sou, nem fui, nem serei Chapo, resta-me apenas dizer que, se ele fosse Chefe de Estado, talvez fizesse o que é certo. Mas como é apenas Chefe do Grupo, nada de estranho.
A cada ano o abismo parece maior. E, sinceramente, se não houver coragem para mudar estruturas, o FMI continuará a governar mais do que nós próprios; e nós continuaremos a navegar entre guerras, escândalos, cortes orçamentais e falsas prioridades.
No fim do dia, continuamos com a mesma pergunta: quem está a liderar este País? E, pior ainda: com que propósito? O FMI dita regras, a realidade sufoca, e nós seguimos a passos largos para um abismo que já deixou de ser metáfora para se tornar diagnóstico.
Moçambique tem tudo para crescer. Mas falta-nos o essencial: responsabilidade, visão e verdade. Enquanto não encararmos isso de frente, os dias difíceis não serão uma previsão — serão rotina.



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