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- Especialistas alertam para o risco de incidência da Malária, Cólera e outras doenças
- Município atribui fraca recolha de lixo à falta de recursos e manifestações pós-eleitorais
- Nos distritos KaMavota, KaMubukwana e Kamaxakeni o lixo atingiu proporções alarmantes
Lixo espalhado por todo o lado, cheiro nauseabundo que corta a respiração, vermes a galgarem muros e a invadirem quintais como se não houvesse fronteiras entre o que seriam apenas pontos de recolha, ora transformadas em lixeiras, e a casa. Esta não é uma cena isolada, mas uma realidade que se repete, dia após dia, em praticamente todos os bairros da cidade de Maputo. O Evidências escalou diversos pontos de recolha de resíduos sólidos nos distritos municipais de KaMavota, KaMubukwana e KaMaxakeni, onde o lixo deixou de ser apenas um problema de saneamento para se tornar parte do quotidiano dos munícipes, expondo milhares de cidadãos a graves riscos de saúde pública. Em muitos destes locais, os camiões de recolha não passam há meses, permitindo que montanhas de resíduos cresçam descontroladamente à beira das estradas, junto a escolas, mercados e zonas residenciais. Há relatos de famílias que se viram obrigadas a trancar portas e janelas e, em casos extremos, a abandonar temporariamente as suas residências, incapazes de suportar o fedor intenso e a presença constante de larvas, moscas e ratos. Confrontado pelo Evidências, o Conselho Municipal de Maputo atribui fraca recolha de lixo à falta de meios e recursos e culpa as manifestações pós-eleitorais de 2024 pela vandalização de equipamentos.
Edmilson Mate
O cheiro é pesado, persistente, quase agressivo, entra pelas narinas e instala-se nos pulmões como um castigo diário. Vermes rastejam pela estrada humedecida pela chuva e galgam muros de quintais, atravessam pátios e aproximam-se das cozinhas, obrigando famílias inteiras a viverem em permanente estado de alerta.
Em alguns bairros, a única defesa possível tem sido fechar portas e janelas durante todo o dia; noutros, moradores relatam que não tiveram alternativa senão abandonar temporariamente as casas, vencidos pelo fedor e pela invasão silenciosa de insectos e roedores. Esta é a paisagem que se repete, sem excepção, em toda a extensão da capital.
Uma ronda do Evidências por vários pontos de recolha de resíduos sólidos nos distritos municipais de KaMavota, KaMubukwana e KaMaxakeni revela um cenário de degradação contínua. Contentores transbordam há semanas, nalguns casos há meses, enquanto o lixo acumula-se em montes que já rivalizam com muros e vedações. Em redor, valas de drenagem estão entupidas, a água estagnada mistura-se com restos orgânicos e transforma cada ponto de recolha num foco activo de doenças.
A ausência prolongada dos camiões de recolha tem imposto mudanças profundas nos hábitos sociais da população. As refeições são apressadas, o convívio nos quintais foi abandonado e as crianças deixaram de brincar nas ruas.
O ar que se respira já não é neutro: carrega odores ácidos e sufocantes que se entranham na roupa, nos móveis e na memória. As moscas multiplicam-se e disputam espaço com as famílias dentro das casas, pousam nos alimentos, nas paredes e nos corpos, numa convivência forçada que revela o colapso do saneamento urbano.
Enquanto isso, o Conselho Municipal de Maputo assiste, impávido, à transformação da cidade num enorme depósito a céu aberto. A batalha contra os resíduos sólidos parece perdida nas ruas da capital, onde o edilidade praticamente reconheceu incapacidade, culpando as manifestações pós eleitorais.
Durante a sua ronda pelos bairros, Evidências flagrou Rafito, de 12 anos, residente no bairro Romão, distrito Kamavota e os seus amigos, a deitar lixo no chão porque é praticamente impossível alcançar o contentor inundado de resíduos fedorentos no que seria o ponto de recolha.

Questionado pela nossa equipa de reportagem sobre a razão de deitar lixo no chão, o menino disse que não tem outra opção pois o contentor está cheio e o lixo transbordou alguns metros para dentro da estrada. Além do pequeno e seus amigos vê-se esporadicamente alguns adultos.
“Se eu subir esse lixo posso sujar e me aleijar com as coisas que tem no lixo, por isso decidi deitar aqui. Não quero contrair doenças”, explica, apontando para vidros partidos, latas enferrujadas e restos de materiais cortantes que se misturam com um cocktail putrefacto do lixo orgânico doméstico.
Ao ser novamente questionado se sabe que não deve deitar lixo no chão, Rafito baixa a cabeça e com a voz, quase num sussurro de uma criança inocente, disse “sei que está errado aprendi na escola e em casa que não devemos deitar lixo no chão porque isso prejudica a nossa saúde e o ambiente… peço desculpas. É que não tem onde deitar e não tinha como voltar com o lixo para casa”.
“A última vez que vi um carro de recolha de lixo foi há dois meses”
A alguns metros dali, no Mercado do Romão, o Evidências conversou com Angélica Remate, comerciante no local há mais de cinco anos. Segundo relata, o último camião de recolha de resíduos passou pela zona há cerca de dois meses e desde lá o lixo tem se acumulado todos os dias, gerando mau odor

“Aqui estamos a viver de improviso. A última vez que vi um carro de lixo foi há dois meses e ninguém nos dá explicações. As pessoas acabam por deitar o lixo onde conseguem, porque os contentores estão cheios e ninguém vem recolher”, contou.
Angélica explica que, sempre que chove, os resíduos espalham-se pela estrada e as larvas inundam as imediações do mercado onde são vendidos produtos frescos.
“Garrafas, fraldas, restos de comida, tudo vai parar à rua e mesmo a linha férrea fica bloqueada pelo lixo. É triste, porque estamos a viver como se fôssemos animais”, desabafou.
Além do mau cheiro, a comerciante alerta para o aumento de mosquitos e moscas, o que agrava o risco para a saúde pública. Por estar junto ao mercado, a situação torna-se ainda mais difícil, uma vez que o lixo afasta os clientes e prejudica as vendas.
“Pedimos ao município que venha retirar o lixo. Queremos entrar no novo ano com dignidade, sem lixo à nossa volta”, apelou.
“Pagamos taxa de lixo e, mesmo assim, estamos a viver rodeados de lixo”

Outra voz que se junta ao coro de insatisfação é a de Gertrudes Sitoe, de 36 anos, residente na zona do Impanzol há mais de uma década. Para ela, a situação já ultrapassou todos os limites.
“O lixo está a tornar-se insuportável por aqui. Temos filhos menores aqui no nosso bairro. Agora, nesta época festiva, acumula-se ainda mais lixo. Já não temos passeio, porque os resíduos estão na estrada e acabam por obstruir a passagem. Além do mau cheiro, corremos o risco de ser atropelados, porque somos obrigados a circular pela estrada para fugir do lixo”, desabafa.
Gertrudes reconhece que os próprios munícipes produzem o lixo, mas questiona a falta de acção das autoridades, num contexto em que mensalmente cada família paga milhares de meticais de taxa de lixo.
“Sabemos que o lixo é produzido por nós, mas que tipo de país é este em que há lixo em todo o lado? Mesmo em Magoanine, Albazine, Maxaquene, está cheio de lixo. Pagamos taxa de lixo e, mesmo assim, estamos a viver rodeados de lixo. Em outros países, mesmo sem nunca ter nunca viajado, estão sempre limpos, mas aqui o nosso país está sujo”, lamenta.
“O lixo acumulado em zonas residenciais pode aumentar a incidência de doenças”

Em entrevista ao Evidências, a ambientalista Marisa Mate alertou que a presença de resíduos sólidos nos bairros está diretamente associada ao aumento de doenças como malária, cólera e outras infeções transmissíveis. Segundo explicou, a proliferação de moscas e outros vetores em locais com lixo exposto representa um risco grave para a saúde pública.
“O lixo acumulado em zonas residenciais pode contribuir para a incidência da malária, da cólera e de outras doenças transmissíveis. A mosca é um dos vectores que mais prolifera no lixo, ao pousar na comida, pode contaminá-la e provocar surtos de cólera. As crianças, pela falta de noção, brincam muitas vezes no meio do lixo, onde podem existir objetos cortantes ou contaminados, aumentando a exposição a doenças. A malária e a cólera continuam entre as principais enfermidades associadas ao lixo no contexto moçambicano”, explicou a ambientalista

Marisa acrescenta que os impactos não se limitam à saúde e ao ambiente: o lixo acumulado afecta também a estética urbana e a qualidade de vida nos bairros.
“Quando não há recolha eficiente, o mau cheiro espalha-se pelas ruas, a poluição visual torna-se evidente e os bairros perdem valor, seja para arrendamento, compra de habitações ou instalação de negócios. É constrangedor viver num bairro com montanhas de lixo. O desconforto é constante devido ao cheiro nauseabundo”, sustenta
De acordo com a ambientalista à medida que o lixo orgânico se decompõe, produz metano, um gás que polui o solo, contamina águas superficiais e contribui para o aquecimento global. Por outro lado, a queima de lixo, prática comum quando os serviços de recolha falham, liberta dióxido de carbono e outras substâncias tóxicas, sobretudo quando se incinera plástico.
Para a ambientalista, o município precisa investir em infraestruturas e logística adequadas, garantindo recolha regular e eficiente. Essas ações, defende, devem ser acompanhadas por campanhas de sensibilização e educação ambiental para que o munícipe contribua depositando o lixo no local adequado, reciclando o que pode ser reciclado, reduzindo a produção do lixo e reutilizado alguns resíduos produzidos por eles mesmos.
Município fala de falta de recursos, mas atira culpa às manifestações pós-eleitorais pela vandalização

O Evidências contactou o Conselho Municipal de Maputo (CMM), através da Direcção de Infra-estruturas e Salubridade, que reconhece dificuldades na recolha de resíduos sólidos na cidade de Maputo. O vereador da área, João Munguambe explicou que a fraca recolha resulta de vários factores, com destaque para a escassez de recursos financeiros e os impactos das manifestações pós-eleitorais.
“São vários os factores, desde a falta de recursos financeiros até às manifestações pós-eleitorais. As manifestações causaram muitos danos: perdemos viaturas e equipamentos. Neste momento, estamos num processo de recomposição. Além disso, durante o período chuvoso há dificuldades de acesso à lixeira de Hulene”, afirmou.
Questionado sobre se o término da parceria intermunicipal com o Município de Chimoio terá agravado a situação, Muguambe confirmou o fim da cooperação, mas relativizou o seu impacto.
“A parceria com o Município de Chimoio terminou. Ainda não dispomos de todos os meios de que precisamos, mas somos gratos pelo apoio que foi prestado”, disse.
Sobre a resolução do problema, o vereador garantiu que a situação deverá melhorar no início do próximo ano.
“Está prevista a aquisição de novos equipamentos e a assinatura de novos contratos, o que nos permitirá normalizar a recolha de resíduos sólidos no inicio do próximo ano”, assegurou.



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