Nova ponte-cais, com 988 metros de extensão, altera profundamente a relação da Inhaca e o continente

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  • A ilha onde o mar deixou de decidir

Na manhã do último domingo, antes da maré subir completamente, três homens caminhavam pela areia húmida da Ilha de Inhaca com botijas de gás vazias apoiadas ao ombro. O metal batia contra as pernas a cada passo. Não iam vender. Iam comprar. Na ilha, quase tudo vem do continente. O gás de cozinha, os materiais de construção, os refrigerantes, os medicamentos, o cimento, o material escolar. Durante anos, cada objecto dependia da vontade do mar, da força do vento e da capacidade de embarcações menores transportarem cargas que não lhes pertenciam.

Evidências

A cena repetia-se diariamente: mercadorias transferidas de barcos maiores para embarcações pequenas, carregadores improvisados, travessias incertas, custos acrescidos. Foi assim durante mais de uma década.

Desde Outubro de 2013, quando a antiga ponte foi interditada devido ao seu avançado estado de degradação, a ligação entre a Ilha de Inhaca e o continente tornou-se um exercício permanente de improviso logístico. A estrutura anterior tinha apenas 120 metros e era exclusivamente pedonal, obrigando ao transbordo constante de pessoas e mercadorias .

Hoje, essa realidade começa a mudar. A nova ponte-cais, com 988 metros de extensão, altera profundamente a relação da ilha com o mar. Pela primeira vez, embarcações de maior porte podem atracar em condições seguras e em qualquer estado da maré, graças à profundidade de cerca de oito metros na zona de acostagem .

Para uma comunidade de aproximadamente seis mil habitantes, trata-se de mais do que uma obra de engenharia. Trata-se de previsibilidade. E previsibilidade, numa ilha, significa desenvolvimento.

O peso do isolamento

Dona Amélia, 62 anos, vive da venda de peixe. Durante anos, o seu rendimento dependia de factores que não controlava.

Quando a maré baixava demasiado, as embarcações maiores não conseguiam aproximar-se. Quando o vento soprava forte, o transporte era cancelado. Houve semanas em que perdeu mercadoria por não conseguir enviar o produto a tempo.  “O mar mandava em tudo”, diz.

A nova ponte não elimina o mar, mas reduz o seu poder sobre a economia local. Permite operações portuárias mais estáveis, facilita o abastecimento regular e reduz custos logísticos que durante anos foram absorvidos pelos próprios residentes.

Para comerciantes, pescadores e pequenos operadores turísticos, a mudança pode ser estrutural.

Uma obra pensada para durar décadas

O Director de Engenharia do MPDC, Narciso Chipole, explicou que a ponte foi concebida para responder não apenas às necessidades actuais, mas também a cenários futuros.

A estrutura assenta em 229 estacas e foi dimensionada para suportar sobrecarga de 500 quilogramas por metro quadrado e veículos de emergência com até 5 mil quilogramas. Possui acesso rodoviário e pedonal de mais de 353 metros e uma vida útil prevista de 50 anos.

Os estudos técnicos consideraram cenários de subida do nível médio do mar, intensidade das chuvas e ventos extremos. O tabuleiro foi elevado em determinadas secções para proteger a estrutura do impacto das ondas .

“O grande desafio foi garantir que embarcações pudessem operar independentemente da maré e que a estrutura respondesse às condições futuras do clima e do nível do mar”, explicou o Director de Engenharia do MPDC, Narciso Chipole.

Segundo o engenheiro, o comprimento superior a um quilómetro resulta precisamente da extensa zona intertidal da ilha, permitindo agora operação contínua das embarcações.

Construir numa reserva natural

A Ilha de Inhaca não é um território comum. Trata-se de uma área com elevada diversidade biológica, com cerca de 12 mil espécies registadas, incluindo corais, aves e tartarugas marinhas. Grande parte da zona costeira integra uma reserva natural sob gestão científica. Essa condição condicionou profundamente a engenharia do projecto.

Grande parte da ponte foi pré-fabricada no continente, na Katembe, para reduzir impactos ambientais na ilha. Os elementos foram posteriormente transportados por barcaças e montados no local.

A decisão visava minimizar perturbações ambientais, reduzir movimentação de maquinaria pesada e limitar efeitos sobre os ecossistemas costeiros.

Foi também instalada uma central móvel de betão na ilha, com sistemas de reaproveitamento de água e medidas de controlo de poeiras e resíduos.

O estudo de impacto ambiental avaliou efeitos sobre qualidade da água, fauna, flora, erosão e actividades económicas da população local.

O objectivo, segundo os responsáveis técnicos, era assegurar que o desenvolvimento não comprometesse o património natural que constitui um dos maiores activos da ilha.

Uma parceria que financia infraestrutura

A construção resulta de um modelo de financiamento partilhado no valor de 14,2 milhões de dólares. O MPDC suportou 63,5% do investimento, os CFM 19,5% e o Estado moçambicano 17% .

O projecto foi integrado na extensão da concessão do Porto de Maputo e inclui um conjunto de iniciativas de carácter social. Durante o pico da obra, 165 moçambicanos estiveram envolvidos na construção.

Após a inauguração, esta sexta-feira, a gestão da infra-estrutura será transferida para o Município de Maputo, reforçando a componente pública da intervenção.

O turismo como expectativa

À sombra de um coqueiro, dois jovens discutiam ontem a possibilidade de abrir um serviço de passeios marítimos. A conversa reflecte uma expectativa crescente.

A ilha sempre teve potencial turístico. A biodiversidade, a proximidade com Maputo e o património natural são reconhecidos há décadas. O acesso, porém, limitava o fluxo de visitantes.

Com melhores condições de acostagem e maior capacidade de transporte, espera-se aumento do número de turistas, expansão de pequenas actividades comerciais e maior circulação económica local.

Uma ponte não cria desenvolvimento automaticamente. Mas cria condições para que ele se torne possível.

Durante anos, o mar decidia. Agora, pela primeira vez em muito tempo, a decisão pode estar nas mãos das pessoas que vivem na ilha e essa talvez seja a maior transformação trazida pelos 988 metros de estrutura…

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